- Você vai ficar? — A pergunta gentil de River me fez parar no meio da tarefa: dobrar panos de prato limpos.
Abri minha boca para dizer Não, não posso, mas não saiu nada.
Não era exatamente divertido estar ali, mas quando eu pensava no assunto, também achava que não estava em sofrimento profundo o tempo todo. E tinha sido doloroso estar em Boston, estar em Londres. Tinha parecido que eu estava morrendo ou pior, que já estava morta.
Eu não me sentia assim ali.
Ainda me perguntava, é claro, o que Incy e os outros estavam fazendo naquele momento, se sentiam minha falta, se estavam preocupados. Eu nunca tinha desaparecido antes, não completamente. Já tinha abandonado a cidade, deixado bilhetes com frases como Me encontre em Constantinopla ou coisas do tipo, mas dessa vez eu tinha desaparecido da face da Terra. Como eles tinham reagido a isso? Tremi com um calafrio repentino.
Minha vida tinha mudado completamente, em todos os aspectos. Não era isso o que eu queria? Eu acordava todas as manhãs a tempo de ver os primeiros debruns gelados do amanhecer subirem pelo morro ao longe. Fazia minha cama (ou pelo menos esticava o cobertor),me vestia e ia para o andar de baixo. Às vezes meu nome estava na lista para ajudar no café da manhã. Às vezes eu tinha que fazer alguma outra coisa, como pegar ovos, varrer a varanda ou botar a mesa.
Minhas manhãs eram repletas de trabalho, normalmente com um professor ou um dos alunos mais avançados: Daisuke, Charles ou Rachel. Às vezes eles me faziam perguntas, que eu tentava responder; às vezes falavam de coisas aleatórias, e só depois eu me dava conta de que tinham transmitido a Importante Lição de Vida nº 47 ou algo do tipo.
Eu agora conhecia todo mundo, sabia os nomes, de onde tinham vindo, onde eram seus quartos, há quanto tempo estavam lá. Jess tinha apenas 173 anos. Mas ele vinha de uma situação pior do que a minha, e aquela era a sua quinta tentativa de ficar ali. Eu nunca tinha visto alguém tão jovem que parecesse tão velho — com pele cinzenta, grisalho, rosto cheio de rugas, nariz coberto de vasinhos. Na última vez que saiu, ele se embebedou e atropelou um ciclista acidentalmente. O ciclista não morreu, mas Jess disse que a culpa pesava 500 quilos sobre seus ombros. Ele tinha muita coisa para apaziguar dentro de si. Assim como eu.
Rachel em geral era bastante séria, mas de vez em quando era incrivelmente engraçada. As histórias do que ela tinha feito durante os anos 1920 eram hilárias e faziam todos nós rirmos.
Anne, a outra professora além de River, Solis e Asher era alegre, sorridente e estava sempre com pressa. Também gostava de contato físico, tocava no meu braço, colocava a mão no ombro de alguém, massageava as costas de River. Eu já não tentava me afastar. Ela tinha 304 anos e atribuía a aparência jovem a "toda aquela vida limpa", o que fazia os outros professores bufarem e ela caía na gargalhada.
Sim, eles eram um grupo feliz.
Lorenz e Charles eram bem legais, bem interessantes. Não investi muita energia em conhecê-los, pois eu provavelmente não ficaria ali por muito tempo, mas eles não me irritavam nem nada. Lorenz era italiano, com uma combinação impressionante de cabelo preto e olhos azuis e um adorável perfil romano que parecia saído de um mosaico antigo. Falava meio alto, com gestos grandiosos, expressivos e cheios de emoção. Charles era da Irlanda e ainda tinha um leve sotaque, como a maioria de nós, só que ele tinha morado no sul dos Estados Unidos pelos últimos duzentos anos. Era gay, tinha cabelo ruivo intenso, olhos verdes e sardas. Ele conseguia parecer arrumado e apresentável mesmo quando estava arrancando ervas daninhas ou tirando leite de vaca. Brynne, como já falei, parecia uma modelo: alta, magra e graciosa, com um rosto belo e simétrico. Como Lorenz,ela era incrivelmente vibrante, uma flor de estufa. Ela sempre parecia ter tudo sob controle: quando a frigideira pegou fogo, ela simplesmente cobriu-a de sal, sem se enrolar com nenhuma palavra da história que estava contando.
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Amada Imortal
Teen FictionQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
