A noite em que nos conhecemos

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Eu deveria saber que nenhum sangue nas minhas roupas bastaria para encontrá-lo, mas não desisti na primeira tentativa. No entanto, o esforço extra foi o suficiente para me deixar ainda mais exausta e eu ainda estava na metade do caminho até chegar em casa.

Tive uma vaga lembrança de estar deplorável, ainda com as roupas da madrugada anterior, suja com o sangue que escorrera dos olhos chorosos de Cat e o que eu rasgara na minha própria mão para alimentar o vampiro que já morrera em minha casa. A sujeira de ter perambulado pela floresta também começava a se acumular e eu não culparia um patrulheiro florestal por me prender e levar até o posto mais próximo caso eu parecesse desnutrida e desidratada.

Eu tive tempo para pensar naquela habilidade recém descoberta - ou redescoberta, dependendo do ponto de vista. A que eu poderia colocar em prática ao meu favor caso quisesse passar despercebida e trocar de roupa, me alimentar e repor as energias em um lugar que se assemelhasse à civilização. Estava disposta a testá-la.

Mesmo sabendo que a minha aparência era a pior de todas, me aproximei de um restaurante na borda de uma colina. O lugar estava completamente cercado de carros e motos adaptadas para trilhas, então haviam vários clientes a quem eu deveria "distrair" - assim eu imaginava. Quanto maior o desafio, melhor. Abri a porta de madeira e adentrei no ambiente aquecido por lareiras e braseiros espalhados pelo local. Senti o olhar de um garçom pairando sobre mim por um breve instante, mas ele logo desviou quando eu quis ser invisível e desinteressante. Procurei um lugar vazio na bancada para clientes sem acompanhantes e me sentei ao lado de uma mulher que consultava um mapa da região no tablet aberto na superfície lisa. Uma xícara surgiu entre as minhas mãos e, prontamente, uma garçonete a encheu de café, em seguida aguardou em silêncio esperando o meu pedido inexistente.

- Só o café, obrigada - avisei e olhei-a com um pouco de incerteza antes de completar com algo um pouco mais inusitado. - E talvez uma roupa limpa.

A mulher me olhou em dúvida. Talvez não tivesse me escutado direito. Senti meu rosto esquentar de vergonha.

- Eu preciso que você me consiga uma blusa limpa, pelo menos - repeti com mais confiança e sustentando o seu olhar sem piscar. Ela assentiu imediatamente tal qual faria se eu lhe pedisse por adoçante ao invés de açúcar.

- Vou ver o que posso fazer.

Soltei a respiração aliviada e quase me permiti sorrir, mas me lembrei que estava ali por ter falhado na tentativa de encontrar Caleb e que agora Eric poderia estar se perguntando onde é que eu estava. Se eu sobrevivesse a essa nova leva de pesadelos eu teria de inventar uma nova personalidade, uma que realmente não mentia para as pessoas próximas e usava de seus dons para manipular qualquer um que aparecesse pela frente. Eram coisas bastante reprováveis e não era à toa que eu havia chegado no fundo do poço.

Estiquei a mão até a xícara e tentei espiar por cima do ombro a tela iluminada da mulher ao meu lado, afinal, queria saber onde eu estava. Antes que eu tivesse a chance de torcer o meu rosto mais ainda, a garçonete retornou e me estendeu um tecido cor de creme. Eu o peguei no ar e ela continuou servindo um cliente ao lado sem dizer nada. Abri a camisa com uma estampa azul que tinha os dizeres Bem Vindos a Honeymoon Bay, e então eu soube que não estava tão longe de casa, mas continuava no Canadá. Agradeci internamente sabendo que não era o tipo de coisa que eu gostaria que uma humana se lembrasse.

Me levantei do balcão e fui até o banheiro finalmente limpar aquilo que eu era. A camada de terra e sangue que preenchera o meu rosto e braços era dura e provavelmente só sairia com pelo menos dois banhos quentes, mas eu teria que fazer o meu melhor para me sentir decente. Joguei no lixo a minha blusa suja e coloquei a camisa duas vezes maior que o meu corpo. Ao perceber que eu enrolava demais para sair do banheiro - graças a minha falta de planejamento para o passo seguinte - decidi que apenas precisava voltar para casa e me contentar em ouvir as consequências.

Wolf Like MeOnde histórias criam vida. Descubra agora