Sobre a matéria

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Eu estava quebrando todas as regras que eu mesma havia estabelecido para tentar controlar o meu comportamento, mas eu precisava sair de casa naquela noite. Depois de um dia entediante e preenchido apenas pela ansiedade crescente para o caso de Jacob ter contado tudo que viu, intencionalmente ou não, eu tinha bastante disposição para tentar fazer algo completamente novo e quem sabe até irresponsável.

Era tarde da noite, era só isso que eu sabia, e torcia para que fosse tarde o suficiente. Eu tinha tudo muito claro na minha cabeça, só me faltava ter energia e poder para concretizar o que eu queria; eu já havia feito aquilo enquanto estava inconsciente, então quem sabe dessa vez eu teria um pouco de agência nas minhas ações.

Mentalizei o lugar e depois me concentrei nos limites do meu próprio corpo. Expandi aos poucos os meus sentidos para fora dali como se eu estivesse dirigindo na estrada bem abaixo do limite de velocidade. Com bastante calma e liderando o que parecia ser uma expedição em outro plano senão o físico, eu finalmente percebi que eu havia superado a barreira do espaço que me limitava. Eu já não estava mais no meu quarto.

Havia uma janela branca e aberta na minha frente e resolvi confiar na minha sorte. Peguei impulso com os dois braços e tal qual um ladrão me joguei pela passagem livre - torcendo mais uma vez para ninguém passar ali fora e me surpreender. Mas em La Push àquela hora da noite quais eram as chances?

Meu corpo fez um baque surdo ao colidir com uma superfície lisa e macia que era fácil de identificar como uma cama mesmo no total escuro. Procurei um espaço para poder me levantar e ganhar um pouco mais de estabilidade, mas o cômodo era muito pequeno para que eu pudesse simplesmente ficar passeando por ele. E a falta de luz não ajudava naquela loucura. Assim que meus olhos se acostumaram ao breu total eu consegui identificar uma cadeira no extremo canto do quarto, e ali mesmo eu me sentei e fiquei esperando como se fosse uma assombração. Talvez eu fosse.

Queria ter levado um livro. Se eu soubesse o tempo que eu teria de esperar eu com certeza teria me preparado melhor, mas eu era conhecida por apenas improvisar em todas as situações que me apareciam. E de repente também me ocorreu que o que eu estava fazendo era uma completa insanidade, para não dizer invasão de propriedade. Abafei uma risada ao me imaginar fora do meu corpo observando aquela cena absurda.

Assim que o meu coração parou de bater alto como se estivesse ligado num amplificador eu ouvi ruídos do lado de fora e me preparei para o que viria a seguir. Pude escutar algumas conversas sem sentido e, por fim, passos na grama e no piso de madeira. Mas fui pega de surpresa quando surgiu uma sombra exatamente no lugar onde eu havia entrado, e então eu prendi a respiração até que ele notasse a minha presença.

- Blair! - Jacob praticamente gritou quando aterrissou na cama num salto perfeito, ao contrário da maneira que eu havia entrado.

- Te assustei? - segurei um sorriso novamente e perguntei com um ar de animação. Completamente perturbada, eu diria.

- Mas é claro! - ele não parecia achar graça nenhuma daquilo e eu comecei a ficar preocupada.

- Por que você 'tá entrando pela janela se o seu pai nem está em casa? - olhei para a silhueta enorme dele no escuro.

- Força do hábito - sua voz ainda estava muito alarmada e eu comecei a me arrepender de ter feito aquilo. - Blair, como você entrou aqui?

- Do mesmo jeito que você - dei ombros como se fosse óbvio.

Jake se esticou até uma mesa de cabeceira e acendeu um abajur de luz amarelada e fraca. Eu tinha que admitir que aquele plano só foi legal na minha cabeça e que na prática eu facilmente poderia passar por uma stalker esquisita. Por isso me encolhi na cadeira mais ainda, mesmo que meu corpo já tivesse escorregado alguns centímetros depois de ter passado tanto tempo ali.

Wolf Like MeOnde histórias criam vida. Descubra agora