Encarei minhas duas malas e esvaziei tudo que havia dentro de apenas uma delas com rapidez impressionante. Acho que eu ainda estava em "modo emergência", pois arrumei a disposição de todos os meus pertences no armário e na escrivaninha de modo que tivesse um pouco do meu jeito, embora o quarto ainda estivesse tão vazio de personalidade que até desse eco. Eu sabia que se eu quisesse encher um pouco mais aquelas prateleiras talvez eu devesse conferir o conteúdo da outra bagagem, mas eu estava determinada a guardar aquilo no fundo da minha alma por enquanto.
Portanto, empurrei a mala para baixo da cama porque assim se ela estivesse fora do meu alcance quem sabe toda a sua existência me livraria de uma eternidade de arrependimentos. Ri em silêncio do meu gosto por monólogos dramáticos que infelizmente eu não poderia compartilhar com mais ninguém no momento.
Já estava anoitecendo e eu ainda não ouvira o menor sinal de vida inteligente lá fora. Me contentei em sentar na cama e observar a paisagem dos fundos da casa, que era estonteante. A clareira continuava por alguns metros até dar entrada na mesma floresta que preenchia a montanha em volta da estrada. Os galhos de uma árvore enorme conseguiam alcançar aquela janela especifica que ficava na lateral extrema da casa, a parte mais próxima à vegetação escura, e eu me perguntei que tipo de vida animal se escondia lá fora que pudesse aparecer por ali. Não por medo, muito pelo contrário...
Meu devaneio ambiental foi interrompido por três batidas educadas na porta, mas eu não tive tempo de responder. A cabeça de Eric flutuou no espaço como se pedisse uma permissão não verbal e eu apenas ergui as sobrancelhas.
- E aí? - ele perguntou, colocando o seu corpo enorme para dentro do quarto.
Dei ombros. Aquilo não queria dizer nada, então o que é que eu ia responder?
- Você não tá pronta?
Percebi que ele estava vestindo roupas normais, uma calça jeans e uma camisa cinza de mangas compridas, mas por um breve instante achei que estava faltando algo. Ah, mas é claro... Eric não sentia frio, não mais. Não havia porquê ele sair lá fora com os mesmos casacos de neve que qualquer outra pessoa.
- A gente vai sair? - perguntei com a certeza de que a minha voz tinha saído completamente anormal e que ele nem saberia reconhecê-la.
- Eu preciso ir à reserva. Todos nós vamos. - ele frisou que ele precisava ir. Ele era a prioridade.
- Eric, eu não vou... - estreitei os olhos como se pedisse desculpas.
- Por que não? - ele cruzou os braços.
- Isso não me diz respeito. Quer dizer, é culpa minha, mas...
- Não é sobre você, Blair. - Eric nunca me chamava de Blair. - Eu disse que eu preciso ir e eu preciso que você vá também porque você faz parte importante disso.
Não, isso ele não havia dito.
- Não acho certo. - insisti.
- Como quiser. - ele revirou os olhos e saiu do quarto em silêncio, sem nem fechar a porta.
Aquilo abriu um buraco gigantesco no meu coração. Eric sempre fora o meu melhor amigo incondicionalmente e, mesmo que em segredo, ele não estava exatamente com raiva de mim, mas eu tinha que dar um jeito de fazer ele me dar as costas, não é? Eu tinha que dar um jeito de decepcioná-lo também. Fantástico.
Me joguei de costas na cama e bati a cabeça no parapeito da janela. Foi bem merecido.
Não muito tempo depois, a bengala roxa de tio Gabe chegou antes dele naquela mesma porta e ele logo entrou com o mesmo sorriso gentil de sempre. Fiquei com vergonha de acrescentar mais uma pessoa na lista de desapontamentos.
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Wolf Like Me
Fiksi PenggemarBlair é uma bruxa que sempre esteve do lado errado da história. Depois de cometer um erro que colocou a vida da sua família em risco, ela precisou se mudar para a nebulosa reserva de La Push para se adaptar à realidade de seu irmão gêmeo lobisomem...
