Nenhum dia é entediante se você tem gente atrás de você querendo te matar. Ou se você conta tantas mentiras que a todo momento se preocupa se as outras pessoas vão te descobrir. E no caso ambas as situações se encaixavam no meu perfil, ou seja, se algum dia eu fui tranquila e não tive ansiedade eu realmente não me lembrava.
Na manhã seguinte quando todos os moradores daquela residência desceram para a cozinha mais ou menos ao mesmo tempo para comer - para a minha grande surpresa - eu me mantive encolhida tentando parecer invisível, como se fosse adiantar. Meus pais não eram bobos e a todo instante eu esperava algum sinal de que eles tinham me pegado no flagra com qualquer mentira recente, principalmente envolvendo sair de casa no meio da noite. As outras mais graves eu ainda tinha todas as intenções de abrir o meu coração e falar a verdade, mas eu ainda precisava encontrar a melhor ocasião. Quem sabe quando eu tivesse acesso a algum tipo de anestesia geral para sedá-los por dias seguidos.
Então quando meu pai voltou do jardim e veio até mim com bastante determinação no olhar eu não estranhei, apenas aceitei que teria de ouvir algum sermão independente do que tivesse feito:
- Blair, o que aconteceu com o carro da sua mãe? - ele perguntou.
Meus irmãos e eu estávamos sentados em ordem decrescente na bancada da cozinha, e eu senti que os olhinhos deles imediatamente se viraram para mim como se fossem bonecos de ventríloquo.
- Eu arranhei alguma coisa? - me fiz de desentendida enquanto continuava a comer um cereal que já estava afogado no leite há muito tempo.
- O painel digital está quebrado - meu pai explicou começando a ficar impaciente, parecia que ele sabia que eu estava me fingindo de boba. - E você foi a última pessoa que o usou.
Droga, eu ainda não tinha pensado em uma boa história para cobrir aquele detalhe. Bem que eu gostaria de abrir o jogo e falar "acho que um vampiro nos perseguiu, roubou as chaves e deixou uma ameaça bem enigmática e sinistra em forma de música, por isso eu mesma quebrei aquela tela" mas aquilo não faria o menor sentido, além de deixá-los mais alarmados.
- Eu quebrei sem querer - Calvin se pronunciou.
Eric, que continuava calado, se moveu para enxergar Calvin além de mim, e eu também virei o meu rosto no mesmo instante na direção dele.
- Você quebrou? - meu pai repetiu descrente, e cruzou os braços.
- Eu estava sem cinto e B precisou frear para não passar por um sinal vermelho - ele disse com naturalidade. - Ou foi um radar?
- Foi um radar- eu concordei com ele igualmente serena.
Eu queria gritar ao ver o jeito com que Calvin contava a falsa história. Sem muitos detalhes para não parecer interessado demais, mas com suficiente riqueza para parecer verídico.
- Então eu coloquei meu braço assim - Calvin fingiu uma posição que nunca havia acontecido, com ambos os braços esticados para a frente. - Para não cair do banco, mas minha mão foi direto no painel.
- Deixe-me ver - meu pai se apressou na nossa direção e seu semblante era preocupado. Calvin lhe mostrou a mão esquerda sem nenhum vestígio de violência. - Você não se machucou, não doeu?
Calvin deu ombros e fez que não, voltando a atenção para o café da manhã. Aquele menino era um ator e eu não sabia se ficava preocupada ou se me acabava de orgulho e apreciação por sua lealdade.
- Você deixou ele ficar sem cinto? - Eric, intrometido, perguntou ao meu lado.
- Foi só uma vez! - eu protestei e meu pai já concordava com ele. - Depois ele colocou a porcaria do cinto. E olha só, nem aconteceu nada. Eu pago pelo conserto.
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Wolf Like Me
FanfictionBlair é uma bruxa que sempre esteve do lado errado da história. Depois de cometer um erro que colocou a vida da sua família em risco, ela precisou se mudar para a nebulosa reserva de La Push para se adaptar à realidade de seu irmão gêmeo lobisomem...
