Suave é a noite

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O universo não pode perceber que você está com pressa ou precisa de alguma coisa com urgência, pois imediatamente ele para de funcionar só para a sua vida ficar minimamente mais difícil. Pelo menos essa era a regra que parecia reger o meu cotidiano nos últimos tempos.

Na sexta-feira daquela semana aparentemente só eu ainda estava na escola. Me protegia na parte coberta antes da porta principal para que a chuva pesada não me encharcasse, mas era questão de tempo até eu tivesse que correr até o carro de qualquer forma. Calvin estava esperando por mim, mas eu nem conseguia encontrar as chaves no fundo daquela mochila bagunçada. Por sorte a irritação que me acompanhava no início dos dias parecia ter ido embora, e eu atribuía aquela melhora à ausência de Eric. Estava cada vez mais difícil resolver os nossos problemas, então eu simplesmente decidi parar de tentar ser pacífica e passei a ignorá-lo.

Quando eu finalmente puxei a chave do carro agarrada em um arame de caderno percebi que não estava mais sozinha embaixo do telhado da escola. Não era necessário apelar para nenhuma intuição mágica para notar a grande sombra que se projetava ao meu lado, até porque a voz animada dona daquela figura logo anunciou a sua presença:

- Tudo bem que você gosta de vir para a aula... - ele disse descontraído. - Mas ficar por aqui depois do horário já é exagero, não acha?

- Muito engraçado, Jake - eu fingi rir junto com ele enquanto fechava o zíper da mochila. - Fiquei esperando a chuva passar, mas não acho que vai acontecer tão cedo.

- E você ainda não se acostumou com isso?

Balancei a cabeça negativamente e ele me olhou com um pouco de dó. Naquela semana foram pouquíssimas as vezes que tivemos contato, eu diria que basicamente nenhuma. Entre Eric continuar no meu caminho e Jacob faltar às aulas eu realmente não consegui encontrá-lo novamente, mas ali estávamos.

- Não te vi hoje cedo - tentei soar despreocupada. O segundo tempo de Literatura era a única avançada que eu fazia na turma dele.

- Eu vim de carona com Paul e, para variar, ele se atrasou - Jacob revirou os olhos e eu fiz o mesmo. - E agora ele foi embora sem mim.

- Que belo amigo - comentei ironicamente. Brinquei com as chaves na minha mão e sugeri animada. - Eu ainda tenho que buscar o meu irmão na escola fundamental, mas eu posso te deixar em casa, afinal, não tenho nada para fazer agora.

- É mesmo? - ele perguntou esperançoso e eu confirmei. - Eu estava planejando só correr até em casa, na verdade, mas é claro que eu aceito!

Ver o rosto dele se iluminar com aquela proposta fez o meu coração se expandir de alegria. Não achei que algo tão simples como uma carona fosse me deixar tão feliz, mas foi assim que me senti. Tinha certeza que eu estava vermelha e que eu mal conseguia segurar o sorriso no meu rosto, mas esperei que estivesse sendo minimamente discreta.

Encaramos juntos a chuva que insistia em cair com força. A hora que eu tanto queria evitar finalmente chegara, mas antes disso...

- Quer dirigir? - estendi para ele as chaves que eu segurava.

- Sério? - Jacob encostou na minha mão rapidamente e eu pude sentir o quão quente ele era. Eu já sabia disso, mas por um segundo fiquei com receio de eu fosse ver alguma memória dele sem permissão.

- Eu não dirijo muito bem sob as condições mais favoráveis - avisei. - Imagine na chuva.

Contamos até três e saímos correndo ao mesmo tempo na chuva. O único carro que havia no estacionamento destinado aos alunos era o do meu pai, então logo entramos nele, um de cada lado. Peguei a mochila de Jacob e joguei-a no banco de trás e fiz o mesmo com a minha. Antes que desse a partida ele deu uma olhada no painel do carro como se avaliasse alguma coisa que eu jamais cheguei a entender.

Wolf Like MeOnde histórias criam vida. Descubra agora