Eu comecei a respirar com dificuldade, sentindo a onda de eletricidade que passava por dentro de mim. Aaron estava praticamente implorando por aquilo, como se ele se importasse de verdade comigo. Mas aquilo era impossível. Qualquer coisa que vinha de Aaron, era impossível pra mim.
Precisei de um segundo pra recuperar a sanidade, antes de o empurrar com força para longe de mim. Caí para trás e observei Aaron sentado no chão, com os braços imóveis. O seu olhar intenso parado em mim, enquanto ele respirava de forma rápida, parecendo sem fôlego.
—Nunca mais toque em mim. Nunca mais me abrace ou finja se importar comigo. —Sibilei, e me levantei para me afastar e ficar o mais longe que conseguia dele. —Eu odeio você, Aaron. Eu o odeio tanto que você não faz ideia.
—Holly... —Ele se levantou do chão e deu um passo na minha direção, erguendo a mão como se estivesse com a intenção de me abraçar de novo.
—Fique longe de mim! —Afirmei, com o rosto vermelho ficando quente, de tanta raiva que eu estava sentindo. —Você acabou com a minha vida! —Aaron encarou meu rosto molhado pelas lágrimas, com uma expressão totalmente perdida. —Eu vou matá-lo na hora certa. E pode ter certeza, ficarei feliz com isso. Ficarei feliz sim, por ter seu sangue nas minha mãos.
Aaron piscou algumas vezes. Seu rosto tremeu em algo que eu não sabia identificar. Ele virou aa costas e saiu do quarto, sem dizer nenhuma palavra. A porta se fechou e eu desabei contra o chão, sentindo meu peito se rachando em pedaços. Algo dentro de mim se revirava pelo contato íntimo que ele tinha tido comigo.
[...]
—Você ficou trancada no quarto quase a tarde toda. —Freya comentou, me analisando com curiosidade, enquanto andávamos por uma das pontes do castelo que passava exatamente por cima de uma das cachoeiras. —Foi tão ruim assim?
—Não quero falar sobre isso. —Falei, e Freya soltou um suspiro pesado, como se não fosse isso que ela estivesse esperado de mim.
—Eu estou preocupada com você, Holly. Você está estranha desde que chegamos. E Aaron sumiu o restante do dia hoje. —Afirmou, e eu senti vontade de rir, porque nosso encontro não deve ter sido muito agradável pra ele, assim como foi pra mim.
—Que ele suma para sempre então. —Sussurrei, e Freya balanço a cabeça, soando desanimada. —Eu não me importo.
—Você pode se abrir comigo, Holly. Pode confiar em mim. Sabe disso, não sabe? —Indagou, e eu olhei para Freya, vendo que ela me observava com preocupação. —Eu sei que não teve uma vida fácil na infância. Que as terras humanas eram seu lar e seus pais, sua única família morreu. Mas...
—Chega, Freya. Por favor, me deixe em paz. —Falei, ignorando a voz dela se repetindo na minha cabeça, falando aquelas coisas. —Eu não quero me abrir como se fôssemos melhores amigas. Não quero um ombro amigo para chorar. Agradeço, mas quero ficar sozinha!
Freya piscou algumas vezes e eu vi um lampejo de dor passar pelos seus olhos, como se eu estivesse a machucando mais do que a ofendido dizendo aquelas palavras. Mas eram a verdade. Eu não precisava de uma amiga. Eu precisava da minha irmã.
—Vamos nos encontrar com os lideres das cortes hoje a noite. —Freya se afastou, quando parei para observar as águas que passavam por baixo da ponte. —Aaron nos avisou durante o café. Achei que deveria saber, para poder se preparar.
Fiquei em silêncio e mal olhei para Freya quando ela se afastou com a cabeça baixa. Eu não me importava com os líderes das cortes. Não me importava com fingimentos e falsidade. Não fazia mais sentido. Não quando eu e Aaron sabíamos a verdade.
Três dias aqui foram o suficiente para eu perceber o quanto Aaron é pior que todos os meus pesadelos. A visita as terras humanas e seu jeito de me tratar só me deixavam com mais raiva. Não havia qualquer possibilidade de isso terminar de outra forma, que não com a morte dele.
Voltei a caminhar, recebendo o olhar torto de muitos feéricos que passavam. Ignorei todos eles e retornei ao castelo, indo em direção aos meus aposentos. Fechei a porta e encarei o local aconchegante. Poderia ser meu único local de paz naquele castelo.
Os livros que eu havia jogado em Aaron ainda estavam espalhados pelo chão. Juntei cada um dele, sentindo pena dos pobres livros. Não tinham culpa por nada. Os coloquei em cima da cama e só então notei o embrulho prateado solto em cima dela, com um grande laço vermelho.
Caminhei até o lado da cama e o peguei. Ele tinha o formato retangular e parecia ser uma fina caixa. Engoli em seco e retirei o laço, abrindo o embrulho com os dedos trêmulos. Puxei a caixa de madeira e abri a tampa rapidamente, com a curiosidade batendo.
Franzi a testa quando encontrei uma adaga dentro dela. A lâmina chegava a brilhar de tão afiada que estava, a ponto de eu poder ver o reflexo dos meus olhos. O cabo era muito bem desenhado com algumas pedras incrustadas.
—Aaron... —Sussurrei, enquanto a pegava entre os dedos, sentindo um arrepio percorrer meu corpo. —O que você pretende com tudo isso?
Deslizei os dedos pela lâmina, antes de balançar a cabeça negativamente e a enfiar embaixo do travesseiro, porque não queria pensar muito no que aquilo significava ou no que Aaron poderia estar armando pra cima de mim. Me provocar já parecia o suficiente, mas ele parecia querer mais.
Ia me afastar da cama quando notei outra coisa sobre ela. Algo que eu não havia deixado ali. Havia um pequeno espelho sobre o lençol. Ele cabia perfeitamente na palma da minha mão, com uma moldura fina e escura, feita de um metal que eu não reconhecia. Não havia ornamentos chamativos, mas ainda assim havia algo estranho nele.
Inclinei o rosto, observando meu reflexo. Por um instante, tive a impressão de que a imagem demorou um segundo a me acompanhar. Franzi a testa e o deixei aonde havia encontrado, porque aquilo estava começando a parecer muito estranho. Deixe ele aonde estava, porque se aquilo era de Aaron, não queria nem imaginar o tipo de magia que ele poderia ter colocado ali.
Me deitei na cama, encarando o teto, antes de esfregar o rosto com as duas mãos. Estava tão confusa com tudo que estava acontecendo, que nem mesmo conseguia pensar direito. Olhei para o lado e enfiei a mão embaixo do travesseiro, pegando aquela adaga novamente. Deslizei o dedo pela lâmina. O metal era muito mais forte do que das minhas outras adagas. Não algo fácil de se partir ao meio.
Fiquei olhando pra ela por longos minutos, até o sono cobrar seu preço. Adormeci segurando a lâmina entre meus dedos e sonhei com a única coisa que importava de verdade: Halley. Eu esperava que Mackenzie a encontrasse e a trouxesse de volta. Então não haveria mais assassinatos para o rei. Não haveria mais vida servindo a realeza.
Meu plano nunca foi me casar com Kian e passar o resto da vida matando pessoas. Eu queria encontrá-la e viver de verdade, como uma família. E se eu a encontrasse, faria de tudo para que tivéssemos uma vida felizes juntas. Como uma família que deveríamos ter sido. E nunca mais deixaria que nem Aaron ou qualquer rei atrapalhasse isso.
Acordei assustada, olhando ao redor dos aposentos como se esperasse ver algum perigo por ali. Mas o lugar estava silencioso e vazio. A noite caindo do lado de fora, fazendo as tochas se acenderem sozinhas para o cômodo não ficar escuro.
Abaixei os olhos, engolindo em seco quando percebi o que havia me acordado. Meus dedos estavam sujos de sangue, porque eu tinha segurado a lâmina com tanta força enquanto dormia, que ela cortou meus dedos. A soltei sobre o lençol, sentindo o cheiro ferroso grudar no meu nariz.
Me levantei, observando o sangue escorrer pela minha pele e pingar no chão. Antes que me afastasse, olhei para a cama novamente quando tive a impressão de ver algo brilhar. O espelho ainda estava ali, agora refletindo a luz das chamas das tochas. Um suspiro escapou pelos meus lábios quando o espelho começou a ficar embaçado, antes de algumas palavras começarem a surgir ali, como se alguém estivesse escrevendo com o dedo.
"Olá, Holly Orion."
Continua...
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Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.
FantasiaLIVRO1 (TRILOGIA REINO DAS SOMBRAS) Nenhuma lâmina é mais afiada que as adagas de Holly Orion, a assassina cruel do rei de Arthenia. Quando criança, ela foi vendida pelo próprio pai e viu sua família ser escravizada pelo rei de Andalor, o feérico ma...
