Desci da carruagem depois de Aaron, ignorando a mão estendida dele. Ele não demonstrou absolutamente nada com isso. Apenas me encarou, como se quisesse ver a minha reação. Olhei ao redor, soltando uma respiração pesada quando encarei a floresta, ouvindo o som do mar ao longe.
À nossa frente, além da floresta, havia uma montanha que se abria como se tivesse sido rasgada ao meio. No centro dela, havia um arco natural de pedra, coberto por raízes retorcidas que se espalhavam sobre a rocha. Abaixo dele, a rocha se fechava novamente, formando entradas no chão, como se fossem portas e janelas abertas.
Lá dentro, eu podia ver as águas claras de uma cachoeira, que surgia de dentro da montanha e parecia formar um lago dentro dela. Um caminho estreito cortava o gramado úmido, começando perto de onde estávamos e seguindo direto até a entrada. Meus olhos desceram por ele sem que eu percebesse, até eu encarar o rio de águas calmas, tão raso que eu podia ver todas as pedras do fundo.
—Aonde nós estamos? —Questionei, e Aaron me encarou por um momento, antes de acenar com a cabeça para que eu o seguisse. Engoli em seco, sentindo um arrepio atravessar meu corpo, antes de o seguir pelo caminho de pedra que nós levava até aquela caverna.
O som da água caindo foi ficando mais alto, até eu não conseguir ouvir o som da minha própria respiração ao entrar na caverna, por um daqueles arcos. A cachoeira era enorme, surgindo de uma fenda nas rochas ali dentro e despencando em um lago que ficava praticamente escondido ali dentro.
Aaron parou na beirada da água e eu ao lado dele. O lago parecia fundo, provavelmente desaparecendo embaixo das rochas. Havia plantas lá embaixo, longas e suaves, se movendo devagar com a corrente quase imperceptível. O verde delas se misturava ao azul da água.
Franzi a testa, estranhando a água clara demais dentro daquela caverna. Procurei pela fonte da luz que atravessava o lago, até encontrar uma coisa lá no fundo do rio. Uma luz, flutuando logo acima das pedras, como se não pertencesse àquele lugar. Pulsava devagar, iluminando a água e as plantas ao redor.
—A água vem direto do interior da montanha e depois de passar por essa caverna, vai até o mar. Se entrar no lago, consegue nadar por túneis até chegar a ele. —Aaron falou, e eu o encarei por um momento, antes de indicar a luz la no fundo.
—O que é aquilo? —Questionei, apontando para a luz lá embaixo. Aaron não olhou na direção dela, porque já sabia do que eu estava falando.
—Meu pai dizia que era o centro de toda vida no nosso mundo. Uma magia poderosa e muito antiga. Uma extensão da lua. —Sussurrou, e eu ergui as sobrancelhas, porque nunca tinha chegado perto de uma coisa magica como aquela. —Como eu disse, isso faz parte das nossas tradições. No Festival da Lua, a luz da lua está tão forte, que deixa as águas tão brilhantes quanto as estrelas. Uma vez ao ano, nesse dia, o rei deve vir e entrar nas águas desse lago, indo até a fonte de magia lá embaixo, para se conectar com ela.
—E a lua lhe mostrará algo quando fizer isso? —Indaguei, começando a entender como aquilo parecia funcionar. Parecia uma coisa meio irreal, mas Aaron falava com tanta certeza que eu sabia que não estava mentindo.
—Exato. —Aaron começou a andar pela caverna e eu o segui com os olhos, vendo-o erguer a mão e esfregar a orelha. —Ela sempre vai mostrar algo relacionado ao nosso futuro, mas nós nunca sabemos se aquilo que ela mostra é uma coisa boa ou ruim. Você vê algo, e ele pode significar nossa destruição ou ascensão. Só descobrimos o seu significado quando ela verdadeiramente acontece.
—E você vem aqui todos os anos ? —Indaguei, e ele confirmou com a cabeça, me fazendo erguer as sobrancelhas. —Todos os feéricos fazem isso?
—Não, apenas o rei e o herdeiro. —Falou, e eu apertei meus lábios com força, porque aquilo parecia mais do que só uma tradição. —Isso é algo muito antigo e respeitado. Nenhum outro feérico pode pisar aqui.
—Mas e eu? —Questionei, imaginando o que os feéricos pensaria se soubessem que eu estava ali, pisando no seu solo sagrado. —Eu estou aqui e não sou feérica. Não estou desrespeitando suas tradições?
—Você mesmo disse, não é feérica, então o que nossas tradições podem significar pra você? —Questionou, retoricamente, e eu inclinei a cabeça de lado, o encarando um pouco desconfiada. —Quero que entre e se conecte com a nossa magia, Holly.
—O quê? —Falei, franzindo a testa e soltando uma risada logo em seguida. —Seu povo não vai ficar revoltado se descobrir que eu estive aqui? Se souberem que eu mexi em algo que é sagrado pra vocês?
—Eu posso lidar com o meu povo depois. —Aaron sussurrou, e eu engoli em seco quando ele continuou me encarando, me fazendo perceber que ele estava mesmo falando sério. —Faça isso, Holly. Acho que você precisa.
Encarei ele por mais alguns, antes de olhar pra água e hesitar. Por algum motivo, eu tinha a sensação que não era uma boa ideia fazer isso. Que talvez eu não quisesse ver o que a magia tinha pra me mostrar. Mas então pensei em Halley e na possibilidade de aquilo me ajudar a ter uma resposta sobre ela. Pela minha irmã, acho que valia a tentativa.
—Cuidado com as plantas lá embaixo. É fácil se enroscar nelas. —Aaron alertou, e eu assenti, vendo-o esperar que eu tomasse coragem. Suspirei, antes de começar a tirar o casaco que eu estava usando e depois minhas botas.
A água estava muito gelada quando entrei, enviando ondas de arrepio por todo meu corpo. Tremendo, respirei fundo e mergulhei, olhando uma última vez para a sombra de Aaron na caverna, antes de nadar em direção aquela luz no fundo do lado. Meus olhos arderam por causa da água, enquanto eu tentava não desviar os olhos ao sentir a claridade ficar mais forte quanto mais perto eu chegava da fonte.
Estendi minhas mãos quando estava quase lá, desviando das plantas, até sentir meus dedos formigando quando a alcancei e a toquei. Não fazia ideia do que esperar, então fechei meus olhos com força, sentindo uma onda de energia atravessar meu corpo, até a água desaparecer e eu conseguir voltar a respirar.
Abri meus olhos, engolindo em seco quando percebi que estava de pé, no meio dos aposentos reais de Aaron. Uma respiração fraca escapando dos meus lábios quando encarei a mulher que estava ali, caminhando pelos aposentos, com um vestido cintilante que me lembravam as estrelas e um livro nas mãos.
Era eu. Eu estava me vendo.
Ela olhou na minha direção e abriu um sorriso, fazendo meu sangue gelar. Mas não era pra mim que ela estava olhando. Aaron estava entrando pela porta e andando em direção a ela. Os dois trocando um sorriso tão intimo que eu fiquei sem fôlego, porque a forma que se olhavam era cheia de paixão e cumplicidade.
—De novo com esses livros, Holly? —Aaron questionou, e abriu um sorriso genuíno ao envolver a cintura dela com as mãos.
—O que eu posso fazer? Você passa mais tempo naquele escritório do que comigo. —Falou, e eu dei alguns passos para trás até bater contra a parede, enquanto via ela erguer as mãos e envolver as bochechas dele, depois de deixar o livro sobre a cama.
—Você sabe que isso é uma grande mentira. Principalmente quando passaremos a eternidade ao lado um do outro. —Aaron retrucou, olhando pra ela da mesma forma que ele já olhava pra mim em alguns momentos.
Ela sorriu e levou a mão até a orelha dele, acariciando as curvas e vendo ele se encolher em uma careta.
—Você sabe, é sensível. —Sussurrou, e eu senti que estava ficando tonta com aquela visão. Com aqueles dois se olhando daquela forma na minha frente. Era familiar e tão estranho ao mesmo tempo.
Ela não parou de toca-lo e ele também não a afastou. Não me afastou. Minha mão se fechou na maçaneta da porta quando o rosto de Aaron se aproximou do dela. Pronto para beija-la. Me beijar.
—Não! —Soltei, sentindo que não ia suportar ver aquilo acontecendo. Então desviei os olhos e passei pela porta correndo, fugindo que que quer que aquela visão fosse. Não fui muito longe, porque acabei tropeçando nos meus próprios pés e caindo no chão.
Encarei minhas mãos, vendo-as repletas de sangue. Sangue que se espalhava pelo chão como um rio. Sufoquei um grito, antes de fechar meus olhos com força quando senti a água se chocar contra mim, quando eu estava de volta naquele lago. Minhas pernas se enroscaram naquelas plantas quando tentei nadar pra cima, sentindo o desespero se entalar na minha garganta quando tentei gritar.
Continua...
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Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.
FantasiaLIVRO1 (TRILOGIA REINO DAS SOMBRAS) Nenhuma lâmina é mais afiada que as adagas de Holly Orion, a assassina cruel do rei de Arthenia. Quando criança, ela foi vendida pelo próprio pai e viu sua família ser escravizada pelo rei de Andalor, o feérico ma...
