Arrumei o pergaminho de volta no lugar e fechei o baú, antes de deixar aquela sala e fechar a passagem. Me aproximei da cama, me perguntando o que teria acontecido pra Aaron ter um acordo de sangue em mãos. Mas o que quer que fosse, era importante, ou a coisa no espelho não me diria para vir até aqui.
Olhei bem pra ele, observando a curva perfeita do rosto. A forma como alguns fios do cabelo estavam sobre sua testa, enquanto sua respiração era lenta. Encarei a orelha, lembrando da forma como ele sempre a tocava quando eu estava por perto, e como eu havia tocado naquela visão.
Me afastei a passos lentos, de costas para a porta e pensando na possibilidade de alguém entrar ali enquanto ele estava apagado. Aaron não teria como se defender. Não era um sono comum e ele não acordaria tão cedo. Olhei para a porta e depois para ele de novo. Me sentei na poltrona e me cobri com o casaco que ele havia jogado ali.
Eu estava repetindo diversas vezes na minha cabeça que ficaria ali para impedir que alguém o matasse, não porque me importava. Ou porque a imagem do rosto belo dele e de seu corpo sujo de sangue me parecesse ruim, mas porque era eu quem queria fazer isso.
E eu fiquei ali, sentada, observando ele dormir durante a noite toda. Minha mente desperta demais para que eu sequer desviasse os olhos, como se eu fosse perder alguma coisa importante se fizesse isso. Queria tanto entender o que eu estava sentindo e o que estava acontecendo. Mas quanto mais eu descobria, mais confusa eu ficava.
[...]
Peguei o espelho, usando um pouco de água e cinzas para escrever nele, porque precisava muito de respostas. Na verdade, isso era tudo que eu andava procurando desde que cheguei aqui e era frustrante o quão poucas respostas eu havia conseguido.
"O que é o acordo de sangue?"
"Vejo que fez o que eu sugeri."
As palavras vieram logo em seguida e sumiram. Aguardei enquanto mais delas apareciam.
"O acordo de sangue é importante demais, Holly. Ele está atrelado a tudo no nosso mundo. Ele é o responsável pela escuridão que nasce no horizonte."
"Me conte sobre ele. Preciso entender."
A resposta demorou a vir. Me remexi em cima da cama e olhei para a varanda, vendo que o sol já estava nascendo no horizonte. Tinha deixado os aposentos reais quando percebi que estava perto de amanhecer, porque não queria que Aaron acordasse e me visse lá.
"Vou te levar de volta ao passado. Está pronta? Essa não é uma história de ninar, Holly. É um ciclo de destruição e morte."
"Me conte."
Foi apenas o que eu disse. Eu estava curiosa e ansiosa, porque quanto mais ele prolongava aquilo, mais minha pulsação parecia disparar. O frio na minha barriga, como se eu já soubesse que não ia ouvir uma história bonita de contos de fadas.
"A muitos séculos atrás, antes mesmo de Andalor ser dividida em cortes, existia um terceiro reino, Velmora. Feéricos, fadas, elfos e humanos dividiam esse mundo com umbrias. Naquela época, as umbrias não eram vistas como monstros e eram conhecidas por outro nome, bruxas negras. Elas eram diferentes. Criaturas ligadas à escuridão, ao medo e à mente. Seres capazes de tocar os pensamentos mais profundos de alguém e transformá-los em realidade.
Nosso mundo viveu em paz por muitos milênios, com essas cinco raças vivendo juntas. Mas havia algo que as umbrias queriam mais do que qualquer coisa, governar esse mundo por inteiro, usando sua magia para controlar a mente de todos. E elas invejavam, acima de tudo, o poder que os feéricos possuíam.
Eles eram imortais e portadores de magias tão raras quanto poderosas. Todos eles com magia correndo naturalmente pelas veias. O rei feérico podia controlar os próprios raios que caiam dos céus e a rainha, uma portadora das sombras. Uma criatura rara e extremamente poderosa. Os dois juntos eram praticamente imbatíveis. Juntos, eram praticamente impossíveis de derrotar.
Mesmo com os três reinos vivendo em paz, o poder das umbrias assustava os outros reinos. A forma como elas podiam manipular o medo e o transformar em algo real. Isso deu a elas a coragem para iniciar uma guerra, quando pensaram que podiam usar o medo deles ao seu favor. Uma guerra que durou séculos, quando os feéricos se ergueram para proteger tanto Andalor quanto Arthenia.
As terras de Castelly queimaram. Oceanos ficaram vermelhos. Exércitos inteiros desapareceram. Mas não importava quantas umbrias morressem, elas nunca recuavam. Até o momento que elas começaram a se aproximar dos humanos. Prometeram poder. Prometeram liberdade e um reino só deles. Isso só fez a guerra durar ainda mais.
Quando o rei já estava cansado de tantas mortes e quando a rainha lhe confidenciou que estava grávida de seu primeiro herdeiro, o rei sabia que era hora da guerra acabar. Desesperado para conseguir a paz, ele foi atrás de uma entidade tão antiga quanto o tempo. A mãe de toda magia sombria que existe nas dimensões: a deusa da morte.
A deusa jamais ajudaria a acabar com a guerra sem ganhar algo em troca, então o rei ofereceu sua magia e a da sua esposa em troca da paz para o mundo. Ele sabia que assim iria garantir um reino seguro para seu filho. Mas ele jamais deveria ter confiado na morte, porque assim que o acordo de sangue foi selado, todo feérico de Andalor teve seu poder roubado pela morte.
Mas a deusa também cumpriu com o que havia prometido. As umbrias foram aprisionadas em seu próprio reino, de onde não poderiam sair. Elas foram forçadas a permanecer atrás da névoa criada pela própria deusa. Presas em um reino tomado pela escuridão, onde a magia sombria se espalhava por cada pedaço de terra, água e céu. Sem nunca mais ter contato com ninguém.
A rainha deu à luz alguns meses depois. E como esperado, o herdeiro não tinha nenhum poder. Mas isso não importava para o rei e a rainha. Eles finalmente tinham a paz que queriam, mesmo com a insatisfação de muitos feéricos pelo que havia sido perdido, roubado. O rei e a rainha estavam finalmente felizes, mesmo após terem sido enganados pela morte.
As décadas passaram. Depois os séculos. O ódio das umbrias apenas cresceu. Elas culpavam os feéricos pela prisão em que viviam. Pela destruição do seu reino. Pela perda da guerra. Mas acima de tudo elas culpavam a família real, porque sabiam o que eles tinham feito para conseguir vence-las."
As últimas frases sumiram e eu soltei o espelho na cama, com o coração batendo tão rápido que chegava a doer dentro do meu peito. Eu nunca tinha ouvido falar delas. Eu nem mesmo sabia que as umbrias existiam ou que havia um terceiro reino.
"O que eu sei é que há algumas décadas atrás, as umbrias descobriram algo, quando encontraram uma bruxa da lua que as revelou o futuro. Uma coisa capaz de devolver o poder aos feéricos e de destruir Velmora e selar de vez suas almas naquela prisão. Uma coisa que fez elas prometerem que se vingariam e que impediriam que isso acontecesse. Elas queriam sua liberdade de volta e a chance de destruir os feéricos pelo que eles haviam feito com elas."
"Como elas encontraram uma bruxa da lua se estão aprisionadas no reino?"
"Porque se Velmora for aberta novamente e a guerra recomeçará."
Continua...
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Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.
FantasiaLIVRO1 (TRILOGIA REINO DAS SOMBRAS) Nenhuma lâmina é mais afiada que as adagas de Holly Orion, a assassina cruel do rei de Arthenia. Quando criança, ela foi vendida pelo próprio pai e viu sua família ser escravizada pelo rei de Andalor, o feérico ma...
