Assim que meus pés tocaram o chão dos meus aposentos, um pouco antes do jantar, já pude ouvir as risadas eufóricas de Freya no corredor, como se ela adivinhasse o exato momento em que eu havia chegado. Soltei um suspiro pesado, porque não estava no melhor humor pra lidar com ela.
—Holly? —Ela bateu na porta várias vezes e eu revirei os olhos, porque ela parecia tão animada que eu já podia imaginar uma coisa ruim. —Abre a porta, Holly!
Tirei a capa e a guardei nas minhas coisas, antes de dar passos lentos até a porta, tentando prolongar o momento de sossego que eu ia acabar de perder. Depois, abri a porta, encarando uma Freya sorridente e animada, carregando uma caixa nas mãos.
—Qual o motivo de tanta felicidade? —Questionei, e ela empurrou a caixa para minhas mãos, antes de passar por mim e entrar nos meus aposentos —O que é isso?
—Abre e você vai descobrir. —Sugeriu, e eu revirei os olhos, antes de caminhar até a cama e soltar a caixa ali. Quando a abri, sobre os olhos atentos de Freya, encontrei um dos mais belos vestidos que eu já tinha visto. —Aaron mandou fazer. Um para mim e outro para você. São presentes para a chegada de Kian.
—O baile. —Falei, e ela assentiu com a cabeça, parecendo tão animada por isso, enquanto eu queria me esconder para não precisar participar.
Peguei o vestido, tirando-o da caixa e deixando o tecido deslizar pelas minhas mãos, até eu conseguir observá-lo por inteiro. A cor era um vermelho que me lembrava sangue, de tão profundo q era. Jamais falaria pra ele, mas ele tinha acertado em cheio no vestido.
—Lindo, não é? O meu é um tom prateado. —Freya comentou, e ela parecia muito mais do que só realizada com esses presentes. —Adoro o quanto eles tem bom gosto por aqui.
—E tecidos de qualidade. —Falei, é minha voz saiu totalmente desanimada, enquanto eu colocava o vestido de volta na caixa.
—Porque esse desânimo todo? Não era isso que você queria? —Ergui os olhos até Freya, vendo ela me fitar com uma expressão confusa. —Você vai matá-lo e voltar para casa. Ainda por cima, noiva de Kian.
—Me deixe sozinha. —Pedi, ignorando o que ela tinha acabado de dizer, porque Freya não sabia o que eu queria. Mas ela soltou uma risada, se inclinando para mais perto de mim.
—Você estava sozinha, Holly. Praticamente a tarde toda. Está quase na hora do jantar. —Rebateu, e eu soltei uma respiração pesada, lançando a ela um olhar afiado. —Ok, como quiser.
Escutei Freya resmungar alguma coisa e então ela se afastou a passos pesados, batendo a porta quando deixou os aposentos. Deixei meus ombros caírem, enquanto olhava ao redor e tinha certeza que estava totalmente sozinha. Tirei a caixa de cima da cama e deixei em cima da poltrona no canto. Então voltei pra ela e peguei aquele espelho.
"Está aí?"
"Oi, Holly. Entediada? Bonito vestido, a propósito."
"Como sabe sobre isso? Você por acaso lê minha mente?"
"Não, mas posso ver o mesmo que você se eu quiser."
Ignorei o arrepio que atravessou meu corpo, porque já deveria ter imaginado uma coisa assim, já que ele me ajudou a encontrar o pergaminho nos aposentos reais, quando eu não conseguia encontrar aquela passagem escondida na parede.
"Está disposto a me contar mais alguma coisa hoje?"
"O que quer saber? Posso lhe contar outra história."
Me deitei na cama, com a cabeça no travesseiro e respirei fundo, me perguntando o que eu poderia querer saber agora, que ele poderia me contar. Não queria ouvir sobre as umbrias de novo, porque só de ouvir falar delas eu ficava inquieta.
"Me conte sobre os portadores. A história deles."
"Não existe uma história de origem deles. Mas sabe-se que eles existem desde os primórdios de todas as dimensões. Eles levaram nomes diferentes no decorrer dos séculos. Agora são conhecidos como portadores e em alguns lugares, elementais. A maioria deles vivem espalhados em dimensões. Escondidos. Outros tem seu próprio lar para proteger."
"Existe uma dimensões apenas de portadores?"
"Não, mas existe aquelas em que você pode encontrá-los. Vários deles. Dimensão dupla, dimensão dos Deuses, dimensão outonal. A tantas por aí, repleta deles."
"E quanto aos poderes? Existem muitos? Você disse que o antigo rei tinha o poder de controlar os raios."
"Sim, ele tinha. Existem muito poderes, Holly. Os básicos, que regem toda a natureza, água, terra, fogo e ar. E então dos quatro vieram as variações. Tempestade, eletricidade, metal, sangue, luz, sombras... Muitas delas. E acho que você já percebeu que não é comum encontrar portadores com dois poderes. São raros."
"Por quê?"
"No início, quando eles começaram a existir, era proibido portadores se relacionarem entre si. Muitos achavam que isso poderia criar algo perigoso demais. Imagine alguém capaz de controlar água e fogo, seria praticamente invencível... E depois, o poder não funciona do mesmo jeito para cada espécie. Humanos de alguma forma conseguem portar dois poderes. Elfos, fadas e algumas outras criaturas também, apesar de não ser tão comum. Mas feéricos por exemplo, quando possuíam poderes, sua prole herdava apenas um dos poderes dos pais."
"A algo em específico que dite isso?"
"Não exatamente, Holly. Como eu disse, funciona diferente para cada espécie. Mas muitos acreditam que seja pelo fato de os feéricos serem imortais. Humanos são considerados os mais fracos das criaturas, mas são um dos que conseguem controlar dois poderes ao mesmo tempo."
"E três?"
"Não há registros sobre alguém com três poderes. Acho que é improvável de existir."
Encarei as palavras sumindo e já me preparei para escrever de novo. Não era sempre que ele estava de boa vontade para conversar e eu provavelmente deveria aproveitar, antes que ele decidisse encerrar nossa conversa.
"Não existem mais feéricos com poderes?"
A resposta demorou, como se ele não soubesse ao certo o que dizer.
"Não, em nenhuma dimensão. Mas existem outros seres imortais com poderes também. Esses seguem a mesma regra que os feéricos. Mesmo se relacionado, tem apenas um poder."
"Então nunca existiu um imortal com dois poderes? Interessante... O que mais?"
Minha frase sumiu e eu senti uma energia diferente vindo do espelho, como se a coisa do outro lado tivesse ficado feliz com o meu jeito de falar. Com a minha curiosidade.
"Eu gosto de você, Holly Orion. Uma pena que não nos conhecemos antes de tudo acontecer. Ia gostar de ser seu amigo."
"Você está conversando comigo a pouco tempo, como pode ter certeza que seríamos bons amigos?"
"Porque eu ouvi falar de você. Eu sei muito sobre você."
"Você sabe muito sobre mim, mas eu não sei nada sobre você. Sei apenas que você já foi humano. Mas não sei o que você é agora. E não sei nem mesmo o seu nome."
A frase sumiu e ele demorou para responder, como se eu estivesse indo para um lugar que não deveria. Mas eu não sabia nada sobre ele, então também não sabia os limites de ele não me falasse quais eram.
"É melhor para você não saber quem eu sou, Holly."
"Bem, isso não ajuda em nada a nossa quase relação de amizade."
De novo, eu pude jurar que o senti sorrindo do outro lado. Era estranho, mas eu sentia que podia confiar nele, mesmo que nem soubesse qual rosto ele tinha.
"Ingram... É meu sobrenome. É o suficiente para você, Holly?"
Abri um sorriso e tinha a sensação que ele sabia que eu estava fazendo isso. Que ele estava me observando.
"Por enquanto, sim."
Continua...
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Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.
FantasyLIVRO1 (TRILOGIA REINO DAS SOMBRAS) Nenhuma lâmina é mais afiada que as adagas de Holly Orion, a assassina cruel do rei de Arthenia. Quando criança, ela foi vendida pelo próprio pai e viu sua família ser escravizada pelo rei de Andalor, o feérico ma...
