Capítulo 58: O que quer fazer?

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Meus olhos se abriram quando eu senti algo serpentear pelas minhas pernas e braços. A cela estava tomada pela escuridão e não dava pra ver muita coisa. Pela pequena janela no topo da parede atrás de mim, dava pra ver que estava de noite, então eu provavelmente havia apagado o dia todo.

Encarei a janela sobre minha cabeça, no alto, por onde algumas sombras entravam, se esgueirando pelas grades e pelas paredes, até onde eu estava. Engoli em seco, porque elas envolveram minhas pernas e subiram pelos meus braços, fazendo um arrepio atravessar meu corpo.

Mas havia alguma coisa se escondendo na escuridão, que fazia o pelo dos meus braços se arrepiar. Me encolhi contra a parede, ouvindo um uivo do lado de fora, sendo seguido por vários outros, assim como grunhidos e rosnados que não pareciam pertencer a lobos negros.

Puxei as correntes para conseguir me sentar, ainda sentindo as sombras deslizando pela minha pele. Meus braços estavam doloridos e moles, de tanto tempo presos naquela posição. Encarei o corredor quando senti que alguma coisa estava se aproximando, antes de ouvir os gritos dos guardas e o som de ossos se quebrando.

Eu encarei a criatura que se aproximou e saltou sobre o guarda que se colocou em frente a minha cela, o derrubando no chão, antes de cravar os dentes na garganta dele, fazendo sangue respingar perto dos meus pés. Minha garganta ficou seca, porque realmente não era um lobo, apesar dos uivos lá fora.

A criatura ela larga e esguia. O corpo sem pelos e os olhos arredondados e brancos. Sua boca era repleta de dentes grandes e afiados. Os braços longos e com garras que rangiam sempre que tocavam o chão. Rastejadores eram uma das piores criaturas das sombras que existiam. Eles eram rápidos e verdadeiros carniceiros, que faziam questão de deixar apenas os ossos para trás.

A criatura estava em cima do guarda morto, dilacerando tudo que tocava com os dente, parecendo alheia a minha presença dentro da cela. Em algum lugar do castelo, eu podia ouvir outros rastejadores, destroçando os guardas desavisados que encontravam pelo caminho.

Olhei para o corredor quando a tocha se acendeu e eu ouvi passos se aproximando. Soltei um suspiro de alívio quando reconheci quem era, vendo-o desviar do corpo morto do guarda e da criatura. Ele estava cantarolando baixinho, enquanto girava um milho de chaves na mão.

—Você parece meio acabada, Holly. Com todo respeito. —Mackenzie falou, colocando a chave na trava da cela, antes de a abrir, enquanto eu soltava uma risada.

—É, não estou nos meus melhores dias. —Afirmei, e ele ergueu as sobrancelhas, dando uma boa olhada na cela imunda onde eu estava, como se pudesse constatar esse fato com os próprios olhos. —Mas é bom ver você.

—Imagino que sim. —Falou, se aproximando de mim, antes de se abaixar e tocar as correntes que me prendiam, procurando pela chave certa para abrir as duas. Seu rosto estava tranquilo, mesmo que ele parecesse concentrado. Mas eu estava tão feliz em vê-lo.

—Mac... —Tentei falar e ele me olhou de relance, antes de continuar tentando abrir as correntes que me prendiam.

—Eu sei, coisas ruins aconteceram com você e tal, agora você está grata e feliz por eu ter vindo até aqui. —Ele parou de falar quando olhou para meu braço e viu o nome de Kian escrito nele. Seus lábios se comprimiram, antes de ele soltar meus braços e eu sentir um alívio enorme, só por poder abraçar meu próprio corpo com eles. —Me agradeça quando eu te tirar daqui. Ainda estamos nessa cela nojenta.

Balancei a cabeça, me encolhendo quando ele passou o braço pelas minhas costas e o outro por baixo dos meus joelhos, me erguendo no colo quando ficou de pé. Soltei um gemido, porque meu corpo estava todo dolorido das horas dormindo no chão frio de pedra.

—Ícaro... —Sussurrei, quando ele começou a me levar em direção a saída, para onde a criatura esperava, ainda sobre o corpo morto do guarda, que eu estava evitando encarar. —Acho que eu deveria agradecer desde já.

—As pessoas costumam me chamar pelo meu sobrenome. —Afirmou, ignorando o que eu disse. Abri um sorriso, escorando minha cabeça no ombro dele.

—Eu gosto de Ícaro. —Falei, quase sem voz, mas senti que ele sorriu, quando seu peito vibrou um pouco.

Fechei meus olhos e deixei que ele me tirasse daquele lugar. Não perguntei pra onde íamos, porque só queria ficar longe daquele castelo, sabendo que se olhasse pra qualquer lugar, ia me lembrar de Aaron. Eu ia dar um jeito nessa situação, mas primeiro precisava de um bom plano.

[...]

Abri os olhos quando senti um pano úmido e quente sendo colocado na minha testa. A primeira pessoa que vi foi Eris, e ele abriu um sorriso assim que percebeu que eu estava acordada, parecendo contente. Engoli em seco, sentindo um gosto amargo na minha boca, como se eu tivesse tomado algum chá meio estranho.

Provavelmente ele havia me dado alguma coisa. Nem me lembrava de chegar a casa dele, já que apaguei no colo de Mackenzie enquanto deixávamos Andalor. Acho que eu estava exausta demais, mesmo que agora eu não me sentisse muito melhor. Não, eu ainda estava queimando de raiva por dentro.

—Como se sente? —Questionou, se afastando quando me sentei no sofá, encarando Mackenzie quando o encontrei sentado em uma poltrona ao lado da lareira. A cabeça escorada na mão e os olhos fechados, como se estivesse dormindo.

—Eu estou bem. —Falei, puxando a manta que estava sobre minhas pernas para me cobrir por inteira, como se ela fosse me proteger de tudo. —Eu apaguei por muito tempo?

—Algumas horas. —Eris me encarou atentamente, parecendo preocupado comigo. —Eu sinto muito pelo que aconteceu com seu rei, Holly.

—Como sabiam o que estava acontecendo? Foi Isaac? —Questionei, e Mackenzie abriu os olhos, apontando para alguma coisa atrás de mim. Olhei por cima do ombro, fazendo uma careta ao encarar as duas figuras na entrada da cozinha. —Vocês dois?

—Estávamos te procurando desde que deixou Arthenia. —Bryn afirmou, e eu franzi a testa, ainda sem entender, vendo-o apontar para Kael. —Trabalhamos pra você, não para Kian. Quando descobrimos que estava em Andalor, íamos até lá para falar com você, mas não deu tempo.

—Soubemos do que Kian pretendia fazer. Mackenzie apareceu lá atrás de você e nós pedimos a ajuda dele. —Kael falou, e eu abri e fechei a boca algumas vezes, sem saber o que dizer. —Então ele nos mandou pra cá.

—Não que fosse necessário vocês terem contado.

Olhei na direção da porta, ficando sem fôlego ao ver Halley ali, mesmo sabendo que era Isaac. Mas ainda era a aparência da minha irmã e ela era linda. Provavelmente nunca ia me acostumar a olhar para Isaac sem me sentir estranha por ver minha irmã.

—Eu já ia avisa-lo que Holly precisava de ajuda. —Isaac falou, e Kael soltou uma risada incrédula.

—Desde quando você é amiga de criaturas das sombras? Sabe isso é estranho. —Kael afirmou, e eu o ignorei, me virando parar encarar Mackenzie, que já estava me encarando, como se soubesse que eu tinha algo em mente.

—O que quer fazer? —Questionou, e eu passei a língua nos lábios, erguendo uma das sobrancelhas pra ele, porque não era uma boa ideia.

—Eu quero falar com Adya. —Afirmei, e me coloquei de pé com certa dificuldade, porque ainda estava toda dolorida. —Vou trazer Aaron de volta. Nem que precise entrar no inferno pra isso.



Epílogo...

Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora