Ele me encarou, talvez com mais pesar do que eu esperava. Mesmo com medo do que ia ouvir, não desviei os olhos dele um único segundo sequer, porque precisava saber a verdade. Tinha passado anos imaginando as piores coisas na minha cabeça.
—Você sabe onde ela está? —Questionei, e os olhos dele se desviaram de mim, como se ele não conseguisse me encarar. —Você trabalhava com o meu pai, deve saber para onde...
—Não. —Falou, e eu fechei os olhos com força, tentando suportar o aperto horrível no meu peito. —Ela foi entregue a outro comerciante também, pouco tempo depois que você se foi. As semanas seguintes aquele dia foram terríveis, Holly. Você não pode imaginar a escuridão que assolou nosso vilarejo.
Eu podia sim, porque era um tipo de escuridão que me assombrava todos esses anos. Eu tinha ouvido histórias em Arthenia do que estava acontecendo por aqui. De como as terras humanas foram reduzidas a nada, enquanto o rei se satisfazia com o sofrimento deles.
—Sua mãe ficou inconsolável depois que você se foi. Mas seu pai sabia que aquilo tinha necessário. Muitas crianças foram mandadas embora em barcos como o que levou você. —Sussurrou, e eu balancei a cabeça, porque me lembrava de não ser a única. Me lembrava do rosto assustado de todas as outras crianças que estavam comigo naquele dia. —E mesmo que doesse neles, eles precisaram fazer o mesmo com Halley. Mas eles rezaram para que vocês duas se encontrassem, pra onde quer que tivessem levado vocês.
—Eu nunca mais a vi depois daquele dia. —Falei, apertando minhas mãos com força ao lado do corpo. —Ela não foi parar no mundo inferior. Pelo menos, não na mesma região que eu fui. Tenho procurado por ela, mas não encontrei nada. É como se ela tivesse virado um fantasma.
—Você contou ao seu rei? —Questionou, e eu hesitei, antes de balançar a cabeça negativamente. Ninguém em Arthenia sabia sobre Halley. Eu jamais falei o nome dela em voz alta naquelas terras. Ela era apenas uma memória minha.
—Ele só sabe o básico sobre mim. O necessário. —Expliquei, e ele assentiu, parecendo estranhar que eu não tivesse pedido ajuda pra ninguém. —Halley é uma prioridade minha. Se o rei não a encontrou no mundo inferior como encontrou a mim, duvido que possa me ajudar.
Pensei em Aaron e nas palavras que ele havia me dito no jantar. Ele sabia porque eu estava ali. Sabia que eu estava procurando por Halley. Como ele poderia saber disso, me assustava, porque era como se ele pudesse ler a minha mente.
—Você sabe quem era o comerciante pra quem Halley foi entregue? —Indaguei, porque aquela era a única pontinha de esperança que me restava.
—Não. Nunca tinha o visto antes. —Falou, dando de ombros, enquanto eu engolia o nó que havia se formado na minha garganta. —E também nunca mais o vi depois daquele dia. Tivemos pouco tempo de liberdade, antes dos muros serem erguidos. Depois disso, ninguém mais saiu e ninguém mais voltou. Exceto você, agora.
—Claro. Faz sentido. —Soltei, erguendo a mão e tocando meus lábios, quando senti que eles estavam tremendo. —Obrigada por me receber. Fico feliz em saber que o senhor ainda está por aqui.
—Fico feliz em ver você também, Holly. A maioria dos pais jamais soube o que aconteceu com seus filhos. Ver você é uma esperança de que os outros estão bem. —Afirmou, e eu balancei a cabeça, me virando para ir até a porta. —Holly?
Parei ao abrir a porta e encarar a rua estreita do lado de fora, repleta de barro. Tinha começado a chover e a água já se acumulava no chão. Olhei por cima do ombro, vendo-o me encarar com uma expressão que demonstrava preocupação.
—Cuidado com essa sua missão. Não sei o que se passa dentro de Arthenia, mas conheço o meu rei o suficiente. —Sussurrou, e eu apertei meus lábios com força, sentindo uma pontada afiada no peito.
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Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.
FantasiLIVRO1 (TRILOGIA REINO DAS SOMBRAS) Nenhuma lâmina é mais afiada que as adagas de Holly Orion, a assassina cruel do rei de Arthenia. Quando criança, ela foi vendida pelo próprio pai e viu sua família ser escravizada pelo rei de Andalor, o feérico ma...
