Capítulo 51: Velmora.

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Encarei o livro no meu colo, enquanto estava deitada no sofá do escritório de Aaron. Isso, até eu perceber que ele estava lendo uma carta, com a pior expressão do mundo. Não precisava pensar muito pra perceber que havia alguma coisa errada.

Era engraçado eu estar ali, depois de todas as coisas que aconteceram. Mas depois que deixei os aposentos de Aaron e caminhei até a biblioteca para escolher um livro, não queria ficar sozinha. Então caminhei até o escritório e o encontrei aqui, trabalhando. Ele não me perguntou nada, assim como eu não falei nada. Mas me sentei e fiquei ali lendo, enquanto ele trabalhava.

—O que foi? —Questionei, e ele balançou a cabeça, parecendo cansado.

—Os membros das cortes estão irritados pelo que aconteceu no festival da lua. —Afirmou, e eu fiz uma careta, porque era de se imaginar que mesmo Arthenia não conseguindo nada, isso não significava que Andalor não sofresse algumas consequências.

—Mas aconteceu algum coisa com as cortes? Você disse que os humanos nem haviam conseguido entrar. —Falei, e Aaron balançou a cabeça, me deixando confusa.

—E não entraram, mas isso não significa que eles não estejam irritados. —Aaron se recostou na cadeira, abrindo um sorriso afiado. —Isso não importa. As cortes não são minha maior preocupação agora.

—São as umbrias? —Questionei, e Aaron assentiu. Fiquei de pé e caminhei até a mesa, observando os olhos de Aaron parecerem escurecer, como se ele estivesse tendo lembranças ruins.

Ele se levantou também, antes de dar a volta na mesa e estender a mão pra mim. Quando a segurei, ele não disse nada, só me guiou para fora do escritório. Nós dois andamos por alguns corredores que eu não conhecia, passando por alguns guardas que fizeram reverência a Aaron, mas sequer olharam pra mim.

Depois, chegamos em uma sala circular pequena, onde havia uma longa escada que dava para uma das torres do castelo. Aaron subiu na frente, sem soltar minha mão um único segundo sequer. Apesar de estar curiosa, não perguntei nada, porque tinha certeza que ele ia me explicar quando chegássemos lá em cima.

Quando passamos pela porta que dava para a torre, me encolhi na mesma hora, porque o vento ali era mais frio, além de eu poder ver as nuvens, como se estivéssemos perto de tocar o céu. Havia estrutura de madeira escura no centro da sala, apoiada em uma base pesada de metal, e voltada para uma das aberturas da torre.

—Você sabe sobre o acordo com a morte, então imagino que deva saber sobre o motivo dele existir. —Aaron afirmou, e eu concordei com a cabeça, mesmo que aquilo não fosse uma pergunta. —Meu sangue é a única coisa que mantém aquele acordo valendo, Holly. Se você se tornar minha rainha, então seu sangue também vai fazer parte do acordo.

Aaron caminhou até o objeto, tocando a ponta dele. Era uma luneta, ou um tipo de luneta, bem maior do que as que eu já tinha visto em Arthenia. Quando Aaron acenou, eu me aproximei, tocando o objeto e me inclinando para olhar por ele.

Fiquei sem fôlego por um momento, porque eu podia ver muito, muito longe. O céu cheio de nuvens. A água tão escura ao redor do continente. Se eu o virasse, apostava que conseguia ver todas as cortes de pertinho. Até mesmo seus moradores. Ou talvez... até mesmo as terras humanas.

Me afastei um pouco quando Aaron a girou, deixando claro que havia uma coisa especifica que ele queria que eu visse. Então olhei de novo, e dessa vez não fiquei nem um pouco fascinada com o que eu estava vendo. Eryndra, a ilha do medo, que normalmente era apenas um ponto preto no horizonte pra quem olhava de Andalor, preencheu minha visão.

Não havia nenhuma criatura à vista, mas eu sabia que elas só apareciam quando alguém pisava lá, sendo criadas pelos medos mais profundos das pessoas. Mas havia uma coisa além de Eryndra, que não era possível ver sem aquele objeto. Uma névoa densa que se erguia atrás da ilha, escondendo o que havia do outro lado. A única coisa que era possível ver, era picos irregulares, de algumas montanhas.

—Velmora. —Sussurrei, me afastando para encarar Aaron, e ele afastou o objeto, deixando claro que era isso que queria que eu visse. —Eryndra faz parte dela? Por isso a magia presente lá transforma o medo das pessoas em algo real?

—Não. Eryndra já foi uma ilha bonita e segura. Mas depois do acordo de sangue e da névoa surgir, acho que a magia daquelas bruxas ficou tão densa em Velmora, que Eryndra acabou sendo afetada por ela. —Aaron falou, e eu fiz uma careta, me permitindo até onde as umbrias podiam ir com a sua magia. —Holly, preciso que você entenda que elas querem me matar porque só assim sua prisão vai terminar. E isso significa que você pode acabar virando alvo delas também.

—Acho que elas vão querer me matar de qualquer forma, já que eu trai Frederick.

—Ainda tem o Kian. Eu analisei ele enquanto estava aqui, Holly. Eu sei que mesmo não a amando, ele não vai conseguir suportar a ideia de perdê-la. Não pra mim. —Afirmou, e eu fiz uma careta, porque eu nunca tinha sido dele. —Então eu acho que ele vai fazer de tudo para consegui-la de volta. Isso quer dizer que se você se tornar parte do acordo, talvez ele não deixe que a matem. É uma aposta.

—Mas Kian não vai me ter e você não vai morrer. As umbrias nunca vão sair de Velmora. —Retruquei, e Aaron abriu um sorriso, erguendo a mão e envolvendo minha bochecha.

—Eu só estou pensando em várias possibilidades. Caso algo aconteça comigo, eu quero ter certeza que você estará segura de alguma forma. —Aaron sussurrou, e eu balancei a cabeça, porque Andalor estava segura e ia continuar assim. —Eu tenho a sensação que dessa vez não vai haver um plano, Holly. Acho que elas vão atacar de alguma forma, mais cedo ou mais tarde.

Olhamos para a entrada da torre quando Alfie apareceu, coçando a garganta para chamar nossa atenção. Ele fez uma reverência assim que Aaron o encarou, sem fazer a mínima questão de reconhecer minha presença. Isso quase me fez rir, porque Alfie era até engraçado as vezes.

—Os líderes das cortes responderam a mensagem, majestade. Eles estarão aqui em breve para a reunião. —Alfie afirmou, e Aaron assentiu, parecendo estar muito satisfeito com isso.

—Obrigada, Alfie. —Aaron fez um sinal com a cabeça para que o feérico se retirasse e ele não demorou a desaparecer, deixando nos dois sozinhos de novo.

[...]

Andei até a biblioteca e devolvi o livro ao lugar dele, pegando outro para ler. Aaron precisava falar com certas pessoas e enviar alguns comunicados, então o deixei sozinho. Me sentei no sofá macio da biblioteca e abri o livro, antes de erguer as sobrancelhas quando o espelho surgiu no meu colo.

Apertei meus lábios, porque Ingram não havia entrado em contato comigo desde que me ajudou a fugir de Arthenia. Sabia que ele provavelmente tinha se esgotado depois de falar pela minha mente, mas estava torcendo para que estivesse bem. Agora pelo visto eu tinha essa confirmação.

"Fico feliz que esteja bem, Holly."

Soltei uma risada, porque ele não podia estar falando sério. Mas pelo visto Ingram era uma caixinha de surpresas. Eu já deveria esperar, ou talvez deveria parar de pensar que sabia coisas sobre ele, quando eu não sabia de nada.

"E você está bem? Não acredito que falou na minha cabeça mesmo."

"Era mais rápido do que usar o espelho. E você parecia assustada demais olhando para aquela criatura."

"Bem, Isaac me ajudou também. Apesar de me deixar confusa com algumas coisas."

"Ele é uma criatura das sombras. Nunca vi uma como ele. Boa de coração."

Ergui as sobrancelhas, porque uma criatura das sombras com nome, até vai. Agora acreditar que tinha bom coração, era um pouco demais pra mim. Mas havia um terceiro reino em Castelly e eu não fazia ideia até poucos dias, então não deveria dizer nada.

"Aliás, fico feliz que tenha ouvido meu conselho. Voltou para Aaron como eu falei."

"Você poderia ter me contado antes sobre os motivos dele. Talvez tudo tivesse sido diferente."

A resposta demorou a vir, como se ele não soubesse ao certo o que dizer. Pensei em como era a sensação dele na minha cabeça. Poderoso, Isaac havia dito. Ingram era muitas coisas.

"Apenas fique com o rei."



Continua...

Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora