Capítulo 29: Dimensão das Estrelas.

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Encarei Aaron por um longo momento, sentindo o tom de alerta nas suas palavras e vendo ele me encarar como se quisesse saber qual seria a minha reação. Como não tive nenhuma, ele sorriu com o canto dos lábios e se afastou, voltando a se sentar atrás daquela mesa, parecendo muito tranquilo.

—Tenho algo para você. —Afirmou, e então mexeu nos papéis em cima da mesa e me estendeu uma carta. Ergui as sobrancelhas, vendo-o soltar uma risada. —Ainda não estou escrevendo cartas de amor pra você, não se preocupe. É do principezinho.

Acho que torci os lábios ou tive alguma reação negativa, porque ele riu, balançando a cabeça enquanto me encarava sem nem piscar, parecendo muito atento a todas as minhas reações. Eu odiava a forma que ele fazia isso, como se pudesse me ler tão bem que eu chegava a ser transparente pra ele.

—Você não gosta nem um pouco dele, não é? —Indagou, mas eu sabia que era uma pergunta retorica, porque Aaron já sabia a resposta pra ela. —Porque ficar com ele, Holly? Alguém que claramente não tem nada a ver com você. Alguém que limita você a uma arma.

—E com quem eu deveria ficar? Com você? —Questionei, e não dei tempo para que ele respondesse, porque não queria mesmo saber o que ele pensava. —Você se dá mais valor do que deve, Aaron.

Ele estalou a língua e soltou uma risada alta logo em seguida, me fazendo bufar e caminhar até a mesa para arrancar das mãos dele a carta de Kian. Era a primeira vez que ele me escrevia desde que chegamos em Andalor. Então aquilo não deveria ser um bom sinal. Ou talvez significava uma coisa muito boa, para ele e para o rei.

—Porque ficou no meu quarto até amanhecer? —Questionou, e dessa vez eu gelei, porque não pensei que ele fosse perceber. —Eu despertei antes do sol nascer e te vi dormindo na poltrona. Além do mais, seu cheiro ficou impregnado no meu casaco.—Ele abriu um sorriso enorme, como se soubesse que eu estava mais fria que gelo. —Ficou preocupada comigo?

—Não quero deixar alguém te esfaquear antes de mim. —Afirmei, me virando em direção a porta e ouvi uma gargalhada alta dele, que causou um tremor por todo meu corpo. Pelos deuses, como eu o odiava. Odiava até mesmo o som doce da sua voz e a melodia da sua risada.

—Eu amo isso em você, sabia? Você pode tentar, mas não consegue esconder seus sentimentos de mim. —Falou, e eu o encarei por cima do ombro, com a mão apertando a maçaneta com força. —Adoraria saber como seu corpo reagiria ao meu.

—Isso não vai acontecer. —Garanti, e ele inclinou a cabeça de lado, com os olhos cintilando alguma coisa quente e afiada. —Nunca.

—Nunca, é? —Ele achou isso ainda mais engraçado, porque seu rosto demonstrava muito divertimento. —Lembrarei disso quando eu estiver dentro de você.

Engoli em seco quando isso causou um tremor por todo meu corpo. Ignorei a forma como meu corpo ficou quente e minha mente traidora imaginou isso, com muitos detalhes, antes que eu conseguisse evitar. Balancei a cabeça, e então sai pela porta, fechando-a com força, mas não o suficiente para abafar a risada dele lá dentro.

"Querida Holly,

Estarei embarcando para Andalor ao amanhecer. Se os ventos ajudarem, chegarei em poucos dias. Estou ansioso para reencontrar você e finalmente conversarmos sobre o restante do plano longe de ouvidos curiosos.Acredito que ficará feliz em saber que tudo está começando a se mover. Depois de tantos anos esperando estamos próximos do momento que você sempre quis. Muito em breve, terá a chance de acabar com o rei de Andalor com as próprias mãos.E então poderá voltar para casa comigo.Nos vemos em breve.Kian."

Amacei a carta, engolindo o nó que havia se formado na minha garganta. Se fossemos embora dali em breve, eu não podia permitir que Mackenzie me procurasse no reino e que o rei ou Kian ficassem sabendo da sua existência, muito menos da de Halley. Eu não queria compartilhar minha irmã com mais ninguém. Então aquilo significava que eu tinha que ser rápida.

Voltei para os meus aposentos e troquei de roupa, colocando minha capa e pegando de volta minhas adagas, que eu as escondi muito bem pelo meu corpo. Encarei o espelho em cima da cama, me perguntando se mais tarde eu deveria tentar outra conversa com ele. Balancei a cabeça, porque não queria pensar nisso agora. Então peguei a pedra e desejei a dimensão das estrelas.

[...]

Eris ficou tão surpreso quanto da primeira vez por me ver, como se achasse que eu não iria procura-lo. Mas ele parecia ser um bom mago, além de não desejar me matar e também ser ligado a Mackenzie. Se havia alguém que podia ter noticias dele, era Eris. Por sorte, eu sabia muito bem onde ele morava para vir perguntar.

—Não esperava ver você. —Falou, enquanto fechava a porta depois de me deixar entrar. Observei a lareira dele, que hoje estava acesa e ele parecia estar fazendo uma sopa. —Quer um café?

—Quero, obrigada. —Eris se dirigiu até a cozinha e eu o segui, me sentando na ponta da mesa e observando os movimentos dele enquanto preparava o café pra nós dois. —Teve notícias do Mackenzie?

—Ah, infelizmente não. Não falei com ele desde aquele dia que você o contratou para procurar sua irmã. —Eris colocou uma xícara de café na minha frente e puxou uma cadeira para se sentar perto de mim.. —Mas ele está procurando por ela, Holly. Não se preocupe. Mackenzie sempre cumpre os acordos que faz. 

Envolvi a xícara com as mãos, sentindo o calor dela passar para minha pele, enquanto eu encarava a fumaça que subia, do líquido quente. Soltei um suspiro pesado, porque não queria me sentir ansiosa, mas estava. Se eu não encontrasse Halley, não fazia ideia do que ia acontecer comigo, porque só estava lutando ainda por ela. Porque precisava encontra-la.

—Olha, eu o conheço bem. Ele dará notícias quando for possível. Mas não acho que ele vai aparecer tão cedo. —Eris sussurrou, parecendo perceber que eu estava perdida nos meus próprios pensamentos, já que não o respondi. —Mackenzie gosta de ficar sozinho. Ele nunca para em um lugar por muito tempo. Muito menos aqueles que tem muita gente. —Ele balançou a cabeça e deu de ombros, parecendo buscar a coisa certa a dizer. —O garoto é... complicado.

—Isso tem a ver com o pai dele? —Questionei, e Eris hesitou, como se estivesse tentando decidir se deveria me contar ou não. —Não precisa me contar se não quiser. Se for algo que Mackenzie provavelmente não fosse gostar que eu soubesse.

—Mais alguém sabe sobre sua irmã além de nós dois? —Questionou, e eu balancei a cabeça negativamente, mesmo que Aaron soubesse. Mas Eris não precisava saber dele.

—Tem sim a ver com o pai dele e muito mais. —Ele bebericou o próprio café e eu fiz o mesmo, sentindo o líquido quente na minha boca. Eris se recostou na cadeira e me encarou. —Quer ouvir a história? Ela é um tanto longa.

—Eu estou com tempo. —Afirmei, e Eris abriu um sorriso, antes de balançar a cabeça e encarar as chamas da lareira da sala.

—Eu conheci Mackenzie quando ele apareceu na minha porta, no mundo inferior, com um grupo de guerreiros querendo quebrar uma maldição. —Eris falou, e eu me ajeitei na cadeira, dando mais um gole no meu café, enquanto olhava pra ele. —Mas naquela época ele era apenas um garoto silencioso. Um bicho acuado preso ao próprio medo.



Continua...

Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora