Capítulo 37: Dia favorito do ano.

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Eu não dormi quase nada naquela noite. Meus pensamentos ficaram em Aaron e no maldito pedido de casamento de Kian. Além disso, eu ainda estava tentando entender as coisas que Ingram me dizia. Tinha a sensação que todas as histórias que ele me contava eram de caso pensado. Que elas tinham alguma ligação.

Coloquei um vestido preto, que parecia brilhar com pequenas estrelas. Esse havia sido um presente de Freya no meu último aniversário. Ou melhor dizendo, no dia que ela achou que era meu aniversário. Mas até mesmo meu aniversário não era meu e nenhum deles sabia disso, porque eu me recusava a contar a verdade.

Respirei fundo e sai dos meus aposentos para ir encontrar os outros para o café da manhã. Eu esperava que esses fossem nossos últimos dias aqui. Kian firmaria o acordo e nós terminaríamos qualquer que seja o plano do rei. Se eu tivesse sorte, Mackenzie iria retornar com alguma noticia de Halley e eu poderia ir embora com ela.

Assim que passei pelas portas, todos já estavam sentados na mesa. Freya abriu um sorriso quando me viu, enquanto Kian se levantou para puxar a cadeira para que eu me sentasse ao seu lado. Olhei para Aaron, vendo sua atenção em Freya. Pela primeira vez desde que eu havia chegado no reino, ele não estava olhando pra mim.

—Já estava indo ver se você estava bem. —Kian comentou, enquanto eu me sentava e ele empurrava minha cadeira, antes de retornar ao seu lugar ao meu lado.

—Não ligue, irmão. Holly tem o costume de chegar atrasada sempre. —Freya falou, e eu soltei uma risada, lançando a ela um olhar afiado, porque não tinha esquecido das coisas que Kian ficou sabendo por ela.

—Velhos hábitos nunca mudam. —Afirmei, e isso fez Aaron finalmente erguer os olhos e me encarar, com um toque de curiosidade que me deixou tensa, porque não havia nada costumeiro naqueles olhos. Eles pareciam diferentes.

—Que bom que se juntou a nós. Eu estava agora mesmo contando ao príncipe sobre o festival da lua que será em breve. —Aaron comentou, e eu o observei sem dizer uma palavra, porque sabia bem o que acontecia no festival da lua. Aaron tinha feito questão de me contar de proposito. —Eu gostaria que vocês ficassem aqui para a comemoração. Acredito que podem gostar das nossas festividades.

—Eu acho a ideia magnífica. —Freya falou, enquanto eu apertava meus lábios com força e via o sarcasmo brilhar nos olhos de Aaron. Ali estava ele novamente. —Estou curiosa para saber mais sobre a cultura do seu reino e das cortes.

—Ah, você vai adorar. Essa noite do ano é particularmente linda. Ouso dizer que é meu dia favorito do ano. —Aaron abriu um sorriso e me lançou um olhar afiado que me fez engolir em seco e desviar os olhos dele, tentando não pensar no porquê esse seria seu dia favorito do ano.

—Algum motivo especial, majestade? —Kian indagou, e eu me concentrei em me servir, ignorando os batimentos acelerados do meu coração e a forma como minha pele estava pegando fogo.

—Existe uma coisa que faço todos os anos nesse dia em específico. Uma coisa presente nas nossas tradições. Tenho que ir visitar um lugar ao anoitecer, quando a lua estiver no ponto mais alto. —Aaron falou, e eu precisei apertar minhas mãos fechadas para que ninguém notasse que elas estavam tremendo. —As águas do reino costumam brilhar. É lindo, vocês vão poder ver com os próprios olhos.

—Acha que seria possível irmos até as cortes nesse dia? —Freya abriu um sorriso esperançoso, que me deixou aliviada pela mudança de assunto. —Eu ia adorar fazer umas compras lá. Vi cada vestido belíssimo nas nossas visitas, que estou sonhando com eles até hoje.

—É claro que é possível. Deixarei uma carruagem disponível para vocês. Podem ir a qualquer lugar que desejarem. —Aaron afirmou, deixando Freya particularmente radiante, enquanto Kian estava olhando pra mim, com os olhos atentos como se procurasse por qualquer coisinha fora do lugar.

[...]

Me sentei no sofá e encarei Kian, vendo ele andar de um lado para o outro da sala. Ele parecia pensativo e com ideias demais na cabeça. Ou talvez só estivesse desconfiando demais da própria sombra, que não conseguia relaxar direito desde que havia chegado no reino. Eu não ficaria surpresa se ele tivesse passado a noite em claro.

—Então? —Bryn soltou, e ergueu a mão para coçar o queixo, parecendo confuso. —Estamos esperando para ouvir sobre o plano. O que vamos fazer afinal?

Kian parou de andar e se virou para nos encarar, como se finalmente tivesse se lembrado do motivo pelo qual estávamos reunidos ali. E eu só estava esperando esse momento terminar para sumir e conseguir um pouco de sossego, bem longe dos quatro. Nada contra meus queridos companheiros Bryn e Kael, mas eu estava farta até deles. 

—O convite para o festival da lua veio em uma boa hora. É o dia perfeito para colocarmos nosso plano em ação. —Kian falou, parecendo um tanto pensativo. —Vamos aproveitar que Aaron vai sair e as cortes estarão em festa para trazer nosso homens. Nossos barcos vão chegar em breve e, como eles acreditam que vão estar aqui para os carregamentos, não vão se preocupar demais com eles ou com o pessoal que estaremos trazendo. Nada de marujos, mas sim nossos melhores soldados disfarçados, que vão aproveitar o festival e a distração pra atacar. Quando tudo começar, Aaron voltará na mesma hora para o castelo, porque eles tentarão protege-lo. —Kian apontou para mim, enquanto abria um sorriso enorme. —E é aí que você entra. Vai esperá-lo nos aposentos dele e matá-lo na hora certa.

—E o que acontece depois? —Questionei, porque queria saber o que mais o rei pretendia. —Andalor ficará sem um rei, Kian. Suponho que seu pai vai querer governar essas terras também, se conseguir dobrar as cortes as vontades dele.

—Meu pai vai continuar governando Arthenia. Eu vou reivindicar o trono de Andalor. —Kian afirmou, e eu fiquei rígida, sentindo o ar ficar preso na minha garganta. O sorriso de Kian era muito grande, como se ele estivesse ansioso com a ideia de ser rei. —Eu sou um príncipe. Posso ser o novo rei. E como minha futura esposa terá matado o grande rei de Andalor, eu terei o direito de reinvindicar o trono como meu.

—Então é isso? Eu mato Aaron e você se torna o rei? —-Indaguei, e Kian soltou uma risada, que fez todo meu corpo estremecer de leve. Uma arma para um fim. 

Olhei para Freya, notando que ela estava um pouco pálida. Pelo visto eu não tinha sido a única a ser pega de surpresa por aquela parte do plano. Tinha certeza que pra ela parecia uma ideia idiota o próprio irmão que ela odiava se tornar rei. E eu sabia que isso não significava que Freya ficaria com o trono de Arthenia. Não, Kian ia querer governar os dois reinos.

—Não é ótimo, Holly? Andalor e Arthenia estarão sobre nosso domínio. Seremos os maiores governantes desse mundo, com os dois reinos aos nossos pés. —Kian afirmou, me encarando com um sorriso tão animado que chegava a ser ofuscante. Lancei a ele um sorriso largo, mesmo que por dentro eu ainda estivesse mais dura que uma rocha. 

Kian estava pensando tão alto, que eu só conseguia imaginar como seria a queda dele ao saber que Aaron já deveria saber do plano todo. Provavelmente estava até se preparando para qualquer emboscada que Kian estava planejando fazer. Mas eu não pretendia abrir minha boca, porque não fazia diferença pra mim. Eles podiam se matar a vontade pelo trono.

—Apenas se preparem. O festival da lua está chegando. —Kian afirmou, e eu senti os olhos de Freya em mim, como se ela estivesse curiosa pra saber o que eu estava pensando de tudo isso.


Continua...

Reino de Fogo e Caos / Vol. 1.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora