Cap 19 🌹 Editado

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Uma eternidade pareceu se arrastar desde o instante em que Sage deixara o quarto. Ele não especificara o propósito de sua busca; poderia ser um simples copo de água ou, com sorte, roupas novas. Stella olhou para o próprio corpo, sentindo-se desconfortável sob o pijama minúsculo. A perspectiva de um pouco de modéstia parecia atraente agora; pelo menos mitigaria a incômoda sensação de vulnerabilidade que o tecido escasso lhe impunha.

​O som da maçaneta girando fez seu peito se iluminar. Ela visualizou Sage cruzando a soleira, trazendo consigo o que quer que tivesse prometido. Contudo, uma pontada de decepção a abateu assim que a porta se abriu por completo, revelando uma figura totalmente desconhecida.

​— Olá. Você deve ser a Stella — a recém-chegada pronunciou, com uma suavidade calorosa. — Prazer, sou Ayla Moore.

​A mulher de cabelos negros atravessou a pequena distância até o leito. Stella observou o movimento fluido de sua mão direita, que se estendeu em um gesto de cumprimento. Por um segundo, a hesitação travou os reflexos de Stella. Como ela sabia seu nome? Quem era ela, afinal?

​Após um breve hiato,Stella correspondeu ao cumprimento, apertando a mão da mulher em um toque protocolar e desajeitado.

​— Eu conheço você? — Stella indagou, as sobrancelhas unidas em franca confusão.

​— Ah, não, certamente não — Ayla sorriu, e uma luminosidade terna pareceu emanar de suas feições. — Vivo em um lugar bastante isolado com meu marido na maior parte do tempo. Ele... bem, ele não é exatamente uma criatura social.

​A menção ao companheiro pareceu iluminar o semblante de Ayla. Para Stella, aquela dinâmica sugeria a existência de uma vida quase idílica, um conto de fadas com cercas brancas e segurança inabalável. Uma pontada de irritação, fina e sutil, cutucou seu estômago. Percebeu que o incômodo nascia da inveja: aquilo era tudo o que ela secretamente sempre desejara. Uma estrutura sólida, crianças correndo pelo corredor, um marido na cozinha esperando pelo jantar. E, ao projetar a imagem desse marido idealizado, sua mente insistia em desenhar as feições de Sage.

Não vá por aí, Stella, repreendeu-se severamente, cortando a linha de pensamento. Isso é autossabotagem. Uma viagem sem passagem de volta.

​— Deve ser terrível ser lançada de paraquedas neste universo — Ayla continuou, a voz trazendo-a de volta à realidade. — Um mundo governado por feras, tanto homens quanto mulheres. Eu estive exatamente na mesma posição que você há algum tempo.

​Stella sobressaltou-se, colocando-se de pé em um impulso.

​— Espere. Existem outras mulheres como eles?

​Até aquele momento, ela não cruzara com nenhuma fêmea da espécie. Não queria parecer ignorante, mas a verdade é que evitara absorver qualquer informação sobre os shifters até que a realidade a atropelasse.

​— Algumas — explicou Ayla. — A maioria vive na reserva principal, um território bem afastado daqui. Já estive lá para visitar uma grande amiga humana, Ellie. No início, as fêmeas da espécie parecem um tanto ásperas, mas quando você rompe a barreira defensiva, descobre que são criaturas extremamente doces e protetoras.

​A palavra protetora ecoou na mente de Stella, despertando um questionamento imediato.

​— Protetoras? — repetiu, buscando a lógica por trás do termo.

​— Olhe para nós, Stella — Ayla enfatizou, gesticulando entre as duas.

​Stella baixou os olhos para si mesma, incerta sobre o que deveria procurar. Seus olhos pararam na cicatriz esbranquiçada e antiga logo abaixo do indicador esquerdo — a marca deixada por um dos muitos homens que frequentavam a casa de sua mãe. Na ocasião, o sujeito alegara que o corte era um corretivo por sua "boca suja" e insolência. Stella aprendera a usar o sarcasmo como escudo cedo demais; ela o desafiara para mantê-lo longe de si. Na época, ela ainda nutria a ilusão de que sua mãe a protegeria, sem saber que Lilian era tão corrompida quanto os homens que abrigava.

​A voz de Ayla dispersou as memórias sombrias.

​— Nós não fomos biologicamente construídas com a robustez deles. Somos pequenas. Perto de um shifter, nossa força física se iguala à de um filhote de coala. As fêmeas nativas são fortes, atléticas. O máximo de esforço que faço atualmente é em cima de uma bola de pilates, especialmente agora que estou gerando uma vida. Desde que a obstetra recomendou os exercícios para o bebê, Beast, meu marido, vigia meus treinos várias vezes ao dia.

​Instintivamente, o olhar de Stella desceu para a silhueta de Ayla. Sob uma análise mais atenta, percebeu a sutil curvatura sob o tecido da blusa. Uma gravidez. A ideia de carregar um fruto daquela natureza provocou um calafrio misturado a um fascínio secreto. Mas ela afastou o devaneio; parecia tolo fantasiar com algo tão distante.

​— Por que você está aqui? — Stella questionou, tentando purgar o tom defensivo. — Não me leve a mal, mas você está grávida. Deveria estar descansando, resguardada, e não perdendo seu tempo comigo em um hospital.

​Ayla não demonstrou ofensa ou intimidação. Pelo contrário, Stella testemunhou a força silenciosa daquela mulher quando ela ergueu o queixo, assimilando o confronto velado com uma determinação admirável.

​— Grand me procurou. Ele me contou que você está rejeitando o acasalamento com Sage — Ayla disparou, sem rodeios. — Eu entendo o pânico inicial. Eles são avassaladores, possessivos a um nível quase insuportável... mas também há uma doçura profunda neles. É confuso, eu sei. Mas é uma entrega à qual você se acostuma. Você aprende a amar essa intensidade.

​Stella desviou o olhar, o peso da culpa curvando seus ombros.

​— Não é que eu não o queira — confessou em um sussurro.

​A revelação escapou de seus lábios com a fluidez de um desabafo há muito represado. Era a verdade que ela vinha ocultando de todos, inclusive de si mesma. Ela desejava se entregar a Sage; o que a torturava era a unilateralidade do vínculo. Grand lhe explicara a mecânica da ligação. Sabia que era um imperativo biológico, algo que Sage não podia controlar, escolher ou interromper. A ideia de aprisionar um homem a um destino forçado, sabendo que parte de sua consciência poderia estar relutante, era o que realmente a devastava.

​— Do que exatamente você tem medo, Stella? — Ayla aproximou-se, o tom abrandando. — Ele jamais machucaria você. No código deles, ferir a companheira equivale a mutilar a própria carne. Confie em mim.

​— Não estou preocupada com a minha integridade — Stella rebateu, caminhando até a janela. O crepúsculo começava a tingir o horizonte em tons de cobre e cinza. O cansaço mental a esgotava, mas a ausência de sono parecia um fator secundário diante do conflito interno. — Ele poderia partir meu coração, eu sei. Mas corações humanos são quebrados o tempo todo; eu daria um jeito de colar os pedaços mais tarde. Minha preocupação é outra.

​Ayla observou-a por alguns instantes antes de apontar para a poltrona vaga.

​— Sente-se. Nós temos muito o que conversar.

​Stella percebeu, pela postura inflexível de Ayla, que aquela mulher não recuaria facilmente. Seria uma longa batalha psicológica, e Stella não tinha convicção de que possuía os argumentos necessários para vencer. Ainda assim, sentou-se. Tudo o que ela queria era a segurança de que sua decisão não destruiria a ambos; precisava ter certeza de que, ao escolher um caminho, estaria agindo pelo bem de Sage e pela sua própria sobrevivência.

Sage Histórias para pegar e não largar. Descubra agora