Sage rosnou, o som saindo rasgado de sua garganta enquanto golpeava, repetidamente, os elos de ferro contra a parede. Ele continuou até que a dor excruciante superasse sua vontade, deixando sua mão esquerda entorpecida e inútil ao seu lado. O aroma dela — uma doçura floral que contrastava com o mofo da cabana — ainda impregnava sua pele, fazendo suas glândulas salivares reagirem de forma instintiva. Ele precisava de mais tempo; o pouco que tiveram fora uma tortura incompleta.
Um silvo de agonia escapou por entre seus dentes. A dor nos nós dos dedos não era nada comparada ao incêndio que consumia seu peito, uma pressão que lhe roubava o oxigênio e trazia uma náusea ácida e persistente. Ele desabou. O chão frio agiu como um bálsamo momentâneo contra sua pele febril, e ele se permitiu sucumbir ao sofrimento por alguns instantes. Era difícil processar a rejeição. Nenhum parceiro jamais recusara o vínculo de forma tão categórica. Talvez a fragilidade humana de Stella tornasse a conexão unilateral, facilitando que ela se afastasse enquanto ele se estilhaçava.
Mas a fera não aceitava a derrota.
Ele se ergueu novamente, urrando contra as paredes de madeira. Precisava escapar. Precisava encontrar as palavras — ou a força — para explicar que sob sua proteção ela jamais conheceria o medo. Stella exalava fertilidade, um aroma inebriante que o pusera de joelhos no instante em que a encontrara. O destino dela fora selado no momento em que seus olhos se cruzaram, e ele estava disposto a carregá-la nos ombros, como o selvagem que ela temia, apenas para forçá-la a entender que agora pertenciam um ao outro.
Ao imaginar Stella carregando um fruto de seu sangue, com o ventre arredondado pela vida que ele plantaria ali, a náusea diminuiu. O propósito trouxe cor de volta ao seu rosto. Aquela reação tóxica era o sintoma da ausência; sem ela, ele definharia até se tornar apenas ossos e sombras. Com uma determinação renovada, voltou a trabalhar nos fechos das correntes, atento a qualquer ruído externo. O ferro envelhecido não seria páreo para um companheiro movido pelo desespero.
O último golpe foi desferido pouco antes da alvorada. Sage passara a noite inteira em um ciclo incansável de fúria contra o metal. Tentara evocar o urso, buscando a força bruta da transformação, mas o animal parecia ter entrado em uma hibernação profunda, refugiando-se nos recessos mais sombrios de sua mente, surdo aos seus apelos.
Um ruído estranho veio de fora — um chiado metálico, distante e distorcido. Sage franziu o cenho; sua audição aguçada de shifter parecia estar falhando, como se houvesse uma interferência invisível entre ele e o mundo.
Quando a porta se abriu, ele tentou saltar, pronto para atacar mesmo em sua forma humana. Grand recuou instintivamente, levando Tahir consigo. Ambos emanavam o cheiro de terra molhada, mas era o odor da fêmea de Grand, impregnado em cada poro do Alfa, que atingiu Sage como um golpe físico. Foi uma pontada de ciúme tão visceral que pareceu arrancar-lhe um molar.
— Que inferno, homem! Qual é o seu problema? — Grand bradou, a voz carregada de uma urgência desconcertada.
Sage tentou responder, mas suas pernas cederam. A gravidade tornou-se um inimigo imbatível, e ele desabou no chão da cabana, os músculos recusando-se a obedecer.
— O que... o que vocês fizeram comigo? — Sua voz saiu debilitada, uma acusação rouca.
— Nada — Grand defendeu-se prontamente, a confusão estampada em seu rosto. — Tahir, ajude-me. Vamos colocá-lo na cama.
Sage sentiu o peso de seu corpo ser içado e depositado sobre o colchão de algodão. Ele não possuía reservas de energia para protestar.
— Achei que teríamos mais tempo antes do colapso — Tahir murmurou, quebrando o silêncio pela primeira vez.
Grand pareceu ser atingido por uma súbita compreensão.
— Você entende o que está acontecendo, não entende? — Grand dirigiu-se a Sage, que apenas balançou a cabeça em um gesto fraco de negação. — Você entrou em um processo agudo de abstinência. Poucos machos conseguem manter a sanidade longe da companheira antes da reivindicação. Está acontecendo muito mais rápido do que prevíamos.
Sage já ouvira lendas sobre o definhamento, mas nunca acreditara que a dependência biológica seria tão devastadora.
— O que eu... o que eu preciso fazer? — perguntou, a vulnerabilidade exposta.
Grand cruzou os braços, assumindo uma postura pensativa.
— Você, nada. Eu é que preciso agir. Vou falar com Stella em particular e tentar convencê-la a vir até aqui. É a nossa única chance. As amigas dela estão pressionando para partir, e o tempo está contra nós.
— Leve-me até ela — Sage insistiu, tentando se erguer, mas Grand apenas inclinou a cabeça, descartando a ideia.
— Descanse. Se eu conseguir contornar a resistência dela e do grupo, trarei Stella aqui ainda esta noite. É o máximo que posso prometer.
Sage fechou os olhos, a derrota pesando mais que as correntes. O pensamento de esperar até o anoitecer era uma tortura lenta, mas ele não tinha escolha. Ele aceitou o silêncio, deixando-se levar pelo exaustão, enquanto sua mente, obsessiva, continuava a desenhar o rosto da mulher que era, agora, sua única âncora para a vida.
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Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
