Cap 21 🌹 Editado

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​Stella decidiu sepultar o impacto das palavras anteriores, permitindo que a racionalidade assumisse o controle. Sabia que a intenção de Sage jamais fora feri-la; os imperativos daquela espécie operavam em frequências distintas, desprovidos dos filtros da civilidade humana. O que seu corpo realmente clamava era pela solidez daquele abraço, pela oportunidade de envolver os braços ao redor do tronco vigoroso do caçador e sorver o aroma almiscarado e denso que emanava de sua pele.

​E foi exatamente o que fez. O gesto súbito pegou Sage de surpresa. Stella enroscou-se a ele com uma firmeza possessiva, estreitando os laços de modo a não lhe oferecer qualquer espaço para recuo. O shifter correspondeu de imediato, aplicando uma pressão reconfortante ao redor dela e concedendo-lhe o que ela mais necessitava: uma âncora tátil e absoluta contra o caos do mundo exterior.

​— O que você foi buscar? — Stella indagou após um longo hiato de silêncio, a voz abafada contra o peito dele. Lembrava-se de vê-lo arrancar os acessos médicos para cumprir uma promessa, mas o propósito exato se perdera em meio à adrenalina.

​Sage emitiu um som gutural, uma vibração que ressoou contra o esterno de Stella. Ela afastou o rosto sutilmente, erguendo os olhos para encarar as pupilas escuras do parceiro, temendo por um instante que o fantasma da rejeição tivesse retornado.

​— Minha intenção era conseguir um cupcake de chocolate para você, mas falhei — ele revelou, a seriedade em suas feições beirando a solenidade. — Disseram-me que o estoque havia se esgotado e não encontrei nada que considerasse digno de substituí-lo. Doces são fundamentais para o restabelecimento.

​O vislumbre daquela fera monumental genuinamente frustrada por não conseguir um doce arrancou de Stella um sorriso franco e espontâneo — uma reação que surpreendeu a ambos. O urso possuía uma fraqueza quase infantil por açúcar. Anotou a informação mentalmente; seria um recurso útil para o futuro. Comovida pela doçura inesperada do gesto, ela voltou a pressionar o corpo contra o dele, colhendo um aperto ainda mais vigoroso em retribuição.

​— Precisamos ir para casa — Sage informou, o tom de voz mudando para uma gravidade resoluta.

​Stella congelou instantaneamente. A rigidez em sua espinha fez com que Sage recuasse o suficiente para fitá-la nos olhos, decifrando sem esforço a insegurança que acabara de se instalar nas feições da companheira. O caçador rosnou baixo, descontente com a súbita barreira emocional que se erguera entre eles.

​— Se a nossa definição de "casa" incluir uma caverna úmida, escura e forrada de musgo no coração da floresta, a resposta é não — Stella verbalizou sua angústia, o lábio inferior tremendo sutilmente.

​Sage soltou um suspiro audível, uma onda de alívio suavizando suas feições rústicas. Stella franziu o cenho, incapaz de compreender o motivo daquela reação. Sem racionalizar o gesto, ele inclinou-se e depositou um beijo terno no topo da cabeça dela, dissipando os pensamentos sombrios com a simples autoridade de seu toque.

​— Não mudaremos para uma caverna... embora a ideia não seja de todo ruim — ele ponderou, um brilho divertido surgindo em seu olhar. — Seria um ambiente adequado para criar nossos filhotes. Ao ar livre, protegidos de interferências externas.

​Stella revirou os olhos com veemência. Era previsível que a natureza selvagem da criatura rejeitasse o conforto da arquitetura moderna em favor de seus instintos primordiais. Sage soltou uma risada rouca diante da carranca dela, o que serviu apenas para inflamar a indignação de Stella.

​— Não tem a menor graça — ela enfatizou, a mandíbula cerrada.

​Afastou-se um passo, cruzando os braços sobre o peito em uma postura emburrada, desejando intimamente apagar o sorriso petulante que brincava nos lábios dele.

​— Não fique assim, querida — Sage a tranquilizou, a voz modulando para um tom macio que fez as barreiras dela oscilarem. — Nós não viveremos em uma caverna. Dou a minha palavra.

​— Não vamos? Tem certeza absoluta? Porque se você imagina por um único segundo que eu...

​Sage eliminou a distância que os separava antes que ela pudesse concluir a ameaça, capturando seus lábios em um beijo profundo e açucarado. Stella sentiu as mãos massivas dele deslizarem pelas suas coxas, suspendendo seu corpo com uma facilidade desconcertante sem romper o contato telefônico dos lábios. Ela envolveu a cintura dele com as pernas, sentindo a fricção deliberada e a firmeza do quadril do macho contra o seu. Se aquilo era uma estratégia de distração puramente biológica, ela funcionava com uma eficácia assustadora.

​— Melhor? — ele indagou com a voz rouca ao devolvê-la ao chão, embora tenha mantido as mãos espalmadas em sua cintura.

​Stella inspirou de forma audível, o peito arfando. O ritmo frenético de seu coração era um veredito ruidoso da vulnerabilidade que sentia sob o domínio daquela fera; a eletricidade que corria por seu corpo denunciava a intensidade de sua resposta a ele.

​— Então... que lugar é esse? — perguntou, a voz ligeiramente trêmula, como se tivesse acabado de percorrer uma extensão considerável.

​Sage sorriu, a vaidade masculina massageada pelo impacto que causava na companheira.

​— Cruzei com Grand no corredor enquanto tentava resolver o impasse do doce. Ele ofereceu uma das propriedades do bando dele para nós, se assim você desejasse. Eu aceitei. Não creio que este seja o momento ideal para integrá-la à minha matilha.

​— Por quê? — A indagação de Stella nasceu de uma curiosidade legítima.

​— Há uma transição complexa sendo articulada pelo nosso líder — explicou Sage, os olhos estreitando-se ao vislumbrar o cenário político de sua espécie. — Nosso bando será fundido ao contingente de Grand. A centralização do controle populacional vai gerar o caos nas fronteiras; haverá resistência e insurgência por parte dos tradicionalistas. Ursos não são conhecidos pela disposição em partilhar território ou recursos.

​Stella processou a informação em silêncio, embora as nuances da política shifter ainda lhe parecessem um enigma distante. Contudo, se ele afirmava que o isolamento era a rota mais segura, ela não possuía argumentos para contestar. No fundo, sentia um alívio secreto: não estava pronta para enfrentar uma comunidade inteira de predadores. Aquela trégua lhe daria o tempo necessário para se blindar. Ainda assim, uma intuição sutil soprava que Sage omitia o verdadeiro peso de sua influência naquele bando.

​— Está pronta para partir?

​— Agora? — A surpresa desestabilizou sua postura. — Você não deveria permanecer sob observação clínica? Tem certeza de que seu metabolismo se recuperou por completo?

​— Elimine essas dúvidas da mente, Stella. Estou plenamente restabelecido — ele declarou, a convicção vibrando em cada sílaba. — O único elemento vital de que necessito é a minha fêmea, segura dentro da nossa nova estrutura. Nossa casa. — Ele corrigiu a si mesmo, e a palavra "nossa" carregou um peso solene.

​Stella lançou-se contra o peito dele, sendo acolhida instantaneamente pelos braços hérculeos de Sage. Ele a ergueu do chão, distribuindo beijos úmidos e possessivos pela extensão de seu pescoço, arrancando dela um suspiro sôfrego. Era um magnetismo doentio, uma dependência visceral que ela não possuía mais forças ou interesse em combater. Entregara as rédeas de sua segurança à fera.

​Stella sorriu entre os lábios dele, aceitando o veredito.

​— Então vamos para casa — ela consentiu.

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