Stella sentia-se o centro de um espetáculo degradante. Era como se todos tivessem reservado um momento do dia apenas para testemunhar sua ruína: médicos com pranchetas impessoais, enfermeiras de passos silenciosos e vários shifters do bando de Tahir, que transitavam pelo corredor como sentinelas de um tribunal invisível. Ela desejava que todos desaparecessem. Contudo, a perspectiva de permanecer a sós com Sage no quarto de hospital a aterrorizava ainda mais. Temia o instante em que ele abriria os olhos e a encontraria ali; começava a acreditar que ela seria a última pessoa que ele desejaria ver no mundo. Não após a rejeição que quase o levara à sepultura.
- O que você fez foi de uma inconsequência monstruosa! - Tahir bufou, a voz grave vibrando contra as paredes brancas do quarto, uma repreensão cortante.
Stella manteve os olhos fixos no chão. O que poderia dizer em sua defesa? Um pedido de desculpas soaria vazio, quase um insulto. Ao vislumbrar a carranca implacável de Tahir, desabou. Ele era uma presença esmagadora, e sua fúria latente minava o pouco controle que ela ainda tentava sustentar. Deixou-se cair pesadamente na cadeira estofada ao lado do leito, sepultando o rosto entre as mãos. O primeiro soluço escapou antes que pudesse contê-lo, abrindo caminho para um choro sufocado e copioso. Se fosse honesta consigo mesma, a maior parte daquela ira era direcionada à sua própria ignorância.
- Ele poderia ter morrido - Tahir continuou, implacável. - Grand não se deu ao trabalho de lhe explicar a mecânica do vínculo?
- Já chega, Tahir. Foi o suficiente.
A intervenção veio de Grand. Stella reconheceria aquele tom moderado e firme em qualquer lugar. O líder parecia carregar o fardo de estar sempre no epicentro das crises, atuando como o mediador necessário entre a selvageria e a razão.
- Não, Grand. Ela precisa entender a gravidade... - Tahir tentou protestar, o peito arfando.
- Ouça o seu Alfa, Tahir. Eu disse que basta - Grand o cortou, a autoridade silenciando o subordinado. - Recolha-se. Seus serviços no perímetro podem ser requisitados a qualquer momento, então certifique-se de estar a postos.
Sem desferir um único olhar na direção de Stella, Tahir girou sobre os calcanhares, movido por uma indignação cega, e bateu a porta ao sair. O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável.
- Não sei o que desencadeou esse comportamento nele, mas lidarei com isso - Grand disse, aproximando-se com passos medidos. - Enquanto isso, permaneça aqui. De preferência, ao lado de Sage. A equipe médica já deve ter lhe informado, mas a sua proximidade física é o fator crítico para a estabilização dele.
Stella assentiu, sentindo-se patética. Ela aceitaria qualquer exigência, submeter-se-ia a todo o protocolo clínico se isso significasse reparar o dano que causara. Saber que o estado crítico dele era resultado direto de suas escolhas era um fardo pesado demais.
Grand retirou-se sem alarde. Stella mal registrou sua partida, submersa em sua própria culpa. Tahir estava coberto de razão; ela permaneceria ali, disposta a absorver cada julgamento até que a balança estivesse equilibrada. Não era masoquismo; era a constatação de que, enquanto ela chorava em uma cadeira confortável, Sage lutava pela vida em uma cama de hospital. O pensamento de encontrá-lo sem vida naquela cabana ainda a fazia tremer.
Um som sibilante e rouco rompeu a quietude do quarto.
Stella sobressaltou-se, aproximando-se instintivamente do leito. Sage agitou as pálpebras, lutando contra o efeito dos sedativos até que seus olhos escuros finalmente encontraram o foco. Em pânico, Stella estendeu o braço em direção ao console na parede, buscando o botão de emergência que traria a equipe médica em segundos. Ela não teve tempo de alcançá-lo.
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Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
