Capítulo 27 - Jantar

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O dispositivo em meu bolso parece mais pesado do que realmente é.  Na verdade, acho que o peso é pelo fato de que eu estou prestes a quebrar algumas regras e colocar-me numa situação de risco, enquanto tento pensar numa maneira — nada convencional, devo dizer —  de invadir o compartimento ultra protegido do Presidente. 

Ao meu lado, Sam continua insistindo na ideia de que devemos criar uma estratégia mais sensata antes de tomarmos qualquer atitude.

— Não temos tempo, Sam — digo pela décima vez, mas ele parece não entender. — tenho que ser rápida. O melhor momento será hoje, enquanto todos estão no jantar de boas vindas.

— Concordo que todos estarão ocupados no jantar, — ele diz — mas você não acha que ele sentirá falta de sua presença à mesa?

— Eu sou uma pessoa doente, Sam — pela primeira vez digo isso em um tom que não seja de lamento — posso sair no meio do jantar, alegando não estar me sentindo bem. — Ergo as sobrancelhas na direção dele, esperando algum esboço ou movimento que demonstre sua opinião, mas ele apenas cruza os braços e faz uma careta estranha. — E então, o que você me diz?

— Talvez, e só talvez — ele diz, com um meio sorriso — você tenha me convencido.

Um sorriso verdadeiro e enérgico forma-se em meus lábios, mas não dura muito, pois Sam surge com mais uma de suas paranoias.

— Mas, eu vou com você. E não há nada que você possa falar que me convença do contrário.

— Por quê? — eu pergunto verdadeiramente interessada na resposta. — Porque se arriscar mais uma vez, quando tudo que precisamos fazer, é não sermos vistos?

— Jamie, eu poderia falar que quero ir com você para protegê-la, ou que ficarei de vigia para que ninguém possa surpreendê-la , mas a verdade é que eu sempre quis entrar no compartimento do Presidente. — Sam fica em silêncio por alguns instantes, seus olhos parecem divagar por lembranças distantes e sombrias, mas em questão de segundos ele retoma a fala — Eu quero achar algum resquício de vida que possa existir na Terra. Eu preciso saber se posso ter a esperança de que meus pais, e  o restante das pessoas que ficaram, tenham tido alguma chance de sobrevivência, entende? — ele pergunta e eu concordo, aproximo minha mão de seu ombro e ele me olha, seus olhos transparecem sua tristeza interna e mesmo assim, ele me concede um sorriso.

— Seremos uma ótima dupla, amigo. — digo e correspondo a seu sorriso. —Mas você precisa prometer que não sairá correndo quando algo te assustar.

— Isso é golpe baixo. — ele gargalha, sua risada parece leve, como se ele tivesse deixado os pensamentos ruins irem embora por enquanto. Sinto-me aliviada por ve-lo sorrindo despreocupadamente, nem que seja por um instante. Sam é uma pessoa verdadeiramente boa, e não merece sentir tanta dor e sofrimento.

— Olha, — digo, enquanto retiro o dispositivo do bolso e entrego a ele. — Esse é o dispositivo que o KJ entregou-me na minha visita à Terra.

Sam o observa com curiosidade e eu faço o mesmo, percebendo que há um desenho estranho em sua cavidade.  O objeto é cilíndrico, suas extremidades são esverdeadas enquanto o centro tem uma cor que não consigo identificar, pois não existe em nossa base.

— Esse desenho... Acho que já vi algo similar num livro que li há um tempo.

— Que engraçado — digo — não a parte que você já leu um livro na vida, — brinco e ele faz uma careta em resposta — esse desenho se parece com letras antigas.

— Isso! Letras antigas... É o livro que eu estava lendo, mas eu nunca consegui terminá-lo, pois sumiu da Livrárium.

— Esse livro nunca foi permitido na Livrárium, Sam — eu digo, pois passei grande parte do meu tempo nela, dedicando-me aos livros de estratégias e conhecimentos — já que a inteligência era minha única arma,— e sabia que livros históricos como aquele jamais ficariam expostos à qualquer um. — Se ele estava lá, é porque alguém o colocou propositalmente.

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⏰ Última atualização: Dec 06, 2023 ⏰

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