O dispositivo em meu bolso parece mais pesado do que realmente é. Na verdade, acho que o peso é pelo fato de que eu estou prestes a quebrar algumas regras e colocar-me numa situação de risco, enquanto tento pensar numa maneira — nada convencional, devo dizer — de invadir o compartimento ultra protegido do Presidente.
Ao meu lado, Sam continua insistindo na ideia de que devemos criar uma estratégia mais sensata antes de tomarmos qualquer atitude.
— Não temos tempo, Sam — digo pela décima vez, mas ele parece não entender. — tenho que ser rápida. O melhor momento será hoje, enquanto todos estão no jantar de boas vindas.
— Concordo que todos estarão ocupados no jantar, — ele diz — mas você não acha que ele sentirá falta de sua presença à mesa?
— Eu sou uma pessoa doente, Sam — pela primeira vez digo isso em um tom que não seja de lamento — posso sair no meio do jantar, alegando não estar me sentindo bem. — Ergo as sobrancelhas na direção dele, esperando algum esboço ou movimento que demonstre sua opinião, mas ele apenas cruza os braços e faz uma careta estranha. — E então, o que você me diz?
— Talvez, e só talvez — ele diz, com um meio sorriso — você tenha me convencido.
Um sorriso verdadeiro e enérgico forma-se em meus lábios, mas não dura muito, pois Sam surge com mais uma de suas paranoias.
— Mas, eu vou com você. E não há nada que você possa falar que me convença do contrário.
— Por quê? — eu pergunto verdadeiramente interessada na resposta. — Porque se arriscar mais uma vez, quando tudo que precisamos fazer, é não sermos vistos?
— Jamie, eu poderia falar que quero ir com você para protegê-la, ou que ficarei de vigia para que ninguém possa surpreendê-la , mas a verdade é que eu sempre quis entrar no compartimento do Presidente. — Sam fica em silêncio por alguns instantes, seus olhos parecem divagar por lembranças distantes e sombrias, mas em questão de segundos ele retoma a fala — Eu quero achar algum resquício de vida que possa existir na Terra. Eu preciso saber se posso ter a esperança de que meus pais, e o restante das pessoas que ficaram, tenham tido alguma chance de sobrevivência, entende? — ele pergunta e eu concordo, aproximo minha mão de seu ombro e ele me olha, seus olhos transparecem sua tristeza interna e mesmo assim, ele me concede um sorriso.
— Seremos uma ótima dupla, amigo. — digo e correspondo a seu sorriso. —Mas você precisa prometer que não sairá correndo quando algo te assustar.
— Isso é golpe baixo. — ele gargalha, sua risada parece leve, como se ele tivesse deixado os pensamentos ruins irem embora por enquanto. Sinto-me aliviada por ve-lo sorrindo despreocupadamente, nem que seja por um instante. Sam é uma pessoa verdadeiramente boa, e não merece sentir tanta dor e sofrimento.
— Olha, — digo, enquanto retiro o dispositivo do bolso e entrego a ele. — Esse é o dispositivo que o KJ entregou-me na minha visita à Terra.
Sam o observa com curiosidade e eu faço o mesmo, percebendo que há um desenho estranho em sua cavidade. O objeto é cilíndrico, suas extremidades são esverdeadas enquanto o centro tem uma cor que não consigo identificar, pois não existe em nossa base.
— Esse desenho... Acho que já vi algo similar num livro que li há um tempo.
— Que engraçado — digo — não a parte que você já leu um livro na vida, — brinco e ele faz uma careta em resposta — esse desenho se parece com letras antigas.
— Isso! Letras antigas... É o livro que eu estava lendo, mas eu nunca consegui terminá-lo, pois sumiu da Livrárium.
— Esse livro nunca foi permitido na Livrárium, Sam — eu digo, pois passei grande parte do meu tempo nela, dedicando-me aos livros de estratégias e conhecimentos — já que a inteligência era minha única arma,— e sabia que livros históricos como aquele jamais ficariam expostos à qualquer um. — Se ele estava lá, é porque alguém o colocou propositalmente.
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Resquícios
Science FictionExiste um momento certo de descobrir o que somos e porque somos? Quando você abriu os olhos e teve consciência de que estava viva? Eu lembro-me vagamente dos acontecimentos passados, como se fossem fragmentos unindo-se a medida que as memórias se...
