Capítulo 19 - Ameaça

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  O passado pode desencadear sentimentos há tempos enterrados. Sentimentos que remete a dor. Lembrar-me de uma parte da minha história fez com que uma sensação de perda se instalasse em mim. Eu não conhecia aquela pessoa.

Eu não conhecia aquela parte de mim que era amada por alguém.

Tudo o que eu conhecia era a rejeição e repulsa. Portanto, lembrar daquele olhar de amor, ouvir aquelas palavras carregadas de admiração e aquele toque tão aconchegante era, no mínimo, estarrecedor. Eu era uma pessoa normal, então... O que aconteceu comigo?
**

  Ouvi estalos e grunhidos que deduzi ser de pessoas fazendo força. Algum tempo depois, senti o peso sendo retirado de cima de mim e a luz ambiente quase me cegar. Mexer meu corpo é uma tarefa árdua. Tudo dói. Abrir os olhos dói, então permaneci com eles fechados por alguns segundos até me recuperar.

Eu estou viva. E, pela primeira vez, ao invés de amaldiçoar quem me salvou, eu irei agradecer. 

— Ela está viva? - Ouço alguém perguntar. Tento me mexer, mas sinto uma dor agoniante na minha costela. A fraqueza não me deixa gritar, apenas sinto as lágrimas deslizando dos meus olhos.

— Ela está respirando. - Outra pessoa diz e sinto a pessoa cutucando levemente a minha perna. — Ei, você consegue nos ouvir? - Quero responder que sim, mas as palavras não saem.

— Saiam da frente! - Uma voz feminina ordena e um longo silêncio se instaura. Tento novamente abrir os olhos, sinto-me vulnerável estando naquele estado e rodeada de pessoas que não conheço. Sinto medo.

E o medo se torna palpável quando sinto alguém agarrar meus cabelos e erguer meu rosto. Com a dor exorbitante, meus olhos se abrem automaticamente.

— Olha só quem entrou no meu caminho. - Tina diz com a voz carregada de maldade e os olhos brilhando de excitação. A ira dela é evidente. Meu medo se transforma em desespero. Fui salva para ter uma morte mais cruel e vagarosa.
**

  Tina manda dois garotos me carregar. Um deles eu reconheço, seu nome é Ryan. Quando eles erguem meu corpo, sinto que todos os meus ossos estão quebrados. Mais lágrimas escorrem, não quero morrer assim.

— Mais rápido! - Tina grita e lidera o grupo. Quando passamos pelo animal robótico que me atacou, eu vejo uma lança fincada em seu corpo metálico. Uma fumaça exala de onde ele foi atingido, me fazendo acreditar que a lança estava eletrizada.

Em alguma parte do caminho, eu apaguei. A dor estava insuportável e a única maneira de lidar com ela, era dormindo. Por enquanto, o sono é minha proteção.
**

  Sinto meu corpo colidir com algo sólido. Abro os olhos abruptamente e tento me levantar, mas percebo que estou presa. Mãos e pés amarrados. Minha respiração fica acelerada e eu grito. Grito por socorro, grito para me soltarem, grito pela minha vida. Mas nada acontece.

— Por que está fazendo isso? - Pergunto quando a exaustão me abala. Tina tem um sorriso psicótico no rosto. Os outros apenas encaram de longe, sem coragem de fazer ou dizer algo. Covardes.

— Porque eu quero. Porque eu posso. - Ela da de ombros e sorri. — Porque você não é nada.

— Me solta, por favor. - Peço num murmúrio. Ela tira uma faca do bolso e a aproxima do meu rosto 

— Eu sei o seu segredo, Jamie. - Ela diz e retira uma mecha do meu cabelo do rosto com a faca e coloca atrás da minha orelha. Ela olha na direção dos garotos e me encara novamente. — Eu sei que esteve na Terra. - Ela sussurra para que ninguém mais ouça. Meus olhos quase saltam da órbita. Ela é a última pessoa que poderia saber disso. Eu balanço a cabeça negativamente, mas ela segura meu queixo obrigando-me a encara-la.

— Não ouse tentar negar. Parece que a Sue não é tão leal quando sob pressão. - Ela diz e solta uma risada de escárnio. — Pensando bem, eu entendo ela. Quem iria arriscar a própria permanência na base por alguém como você? - Gargalha novamente. No fundo, sei que ela está dizendo isso para me desestabilizar, mas não consigo esconder a decepção e tristeza que sinto ao saber que Sue me traiu. Eu achei que podia confiar nela.

— O que você quer de mim? - Indago, psicologicamente abalada. Minha vida inteira eu lutei contra a dor. Não consigo mais. Não quero mais. Só desejo que um dia eu não precise mais ser forte o tempo todo.

— Eu quero saber como chegar à Terra em segurança. - Encaro ela incrédula, em choque e enraivecida. Sem conseguir me conter, começo a gargalhar. Rir faz meu corpo doer, mas eu não me importo. Apenas gargalho de toda aquela situação ridícula.

— Você ficou louca?! Cale a boca agora! - Tina ordena visivelmente confusa com minha crise de risos.

— Você que está louca! Fez essa cena só pra isso? Maldita psicopata! - Gargalho mais um pouco, mas paro quando ela aponta a faca para minha garganta.

— Eu não acho uma boa ideia você brincar comigo estando desarmada. - Ela ameaça fincando a ponta da faca no meu pescoço. — Diga, como e onde. Agora!

— Eu não teria problemas em te dizer, Tina. Aliás, acho que a Terra é um ótimo lugar para você. Onde há apenas destruição e guerra. É tudo o que você conhece, não é?

— É melhor você medir suas palavras! - Ela grita e deixa escapar algumas lágrimas. É evidente que ela precisa de ajuda.

— Tudo bem, eu te digo. Você precisa ir até a sala de Jet's. Lá terá uma caixa que eles usam para recolher suprimentos. É só você entrar na caixa e esperar que a levem para o Jet de carga. Pronto.

— Eu não tenho tempo pra esperar a próxima reposição. - Ela diz para si mesma, encarando algum ponto fixo.

— Ninguém tem mais tempo. - Eu digo.

— O que está dizendo?

— Estamos sob ataque, não é óbvio? Você não viu o que me atacou? Você pelo menos sabe o que é aquela coisa?

— É claro que eu sei. - Ela revira os olhos. — Você se acha muito inteligente, não é, Jamie? Mas não pensa no simples. - Ela balança a cabeça de um lado a outro. — Se os KJ'S tivessem mandado essa máquina para a base, você não acha que eles já não teriam invadido também? - Estreito os olhos absorvendo aquela insinuação. Se não foi os KJs que enviou essa máquina, então... Ela é criação da base. Ela estava aqui esse tempo todo. Pelo sorriso estampado no rosto de Tina, ela percebeu que eu finalmente havia ligado os pontos.

Os KJ's não são consequências da guerra na Terra. Eles são criações e experimentos do Presidente Renderick. Eram apenas pessoas, mas agora, são máquinas sedentas por vingança.

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