Capítulo 12 - Perigo

302 58 36
                                        

  Marcel acende a fogueira enquanto eu, Sam e Lena nos acomodamos no saco de dormir. Quando tudo está pronto, abrimos e comemos os primeiros enlatados do dia, em silêncio.

  Por volta das oito horas da noite, o calor da fogueira não era mais suficiente para nos manter aquecidos.

— É melhor se agasalharem com o que tiverem. Daqui em diante, o frio só aumentará. - Marcel aconselha, vestindo mais um casaco.

  Eu não trouxe nenhum agasalho reserva, portanto, encolho-me no saco de dormir e tento disfarçar os tremiliques do meu corpo. 

— Tentem dormir, levantaremos às quatro.

— O que? Por que? - Lena indaga, descrente. Estratégia, eu respondo mentalmente. Por mais ignorante e austero que Marcel seja, ele é inteligente.

— Você acha que alguma equipe levantará a essa hora?! - pergunta retoricamente. — Ganharemos algum tempo de vantagem.

— Você acha que foi o único que teve essa ideia de gênio? - Sam pergunta em tom irônico. — O Ryan é o melhor estrategista que eu conheço. Será difícil encontrar alguém que o supere.

— Eu não estou aqui para superar ninguém, além de mim mesmo. Estou fazendo o meu jogo, o que ele faz pela equipe dele, é problema dele. - Marcel responde em tom sério, embora não seja ríspido.

— Tá certo. - Sam responde, dando uma risada. — Boa noite, equipe. - ele deseja, mas ninguém responde.
**

  Acordo no meio da madrugada tremendo de frio, meus dentes batem uns nos outros e uma fumaça sai dos meus lábios. A sensação térmica é de -2, como foi avisado no pergaminho. Respirar se torna uma ação difícil de ser executada.

  Levanto a cabeça e constato que a fogueira está apagada e, devido a isso, o frio está insuportável.

— Ei, gente... - chamo com a voz falhando. — A-Acordem.. - gaguejo devido ao frio.

— Que foi? - Marcel murmura, sonolento.

— A-A fogueira a-apagou. - digo, e falar é uma tarefa bastante dificultosa nesse momento. Ele se senta e observa apenas a fumaça se esvaindo dos restos da fogueira. Já não tem mais gravetos ou cascas para repor.

— Precisa de mais lenha. - Ele observa e boceja. Por reflexo, eu bocejo também.

— Que horas são? - pergunto, abraçando meu próprio corpo debaixo do saco de dormir. Sinto que posso desmaiar a qualquer momento.

— Duas e meia. - responde após verificar no seu relógio, o qual serve também para cronometrar o tempo de cada missão.

— E-Eu não vou aguentar esse frio... - Confesso num sussurro. Minha panturrilha se contorce e eu solto um gemido de dor. — Estou tendo câimbras. - Com os meus lamúrios, Lena e Sam despertam. Ambos tremendo de frio.

— O-O que houve? - Sam pergunta e também gagueja por causa do frio.

— Câimbras. - murmuro, segurando minha perna. Sam sai do seu saco de dormir e se aproxima de mim.

— Calma, eu vou te ajudar. Me dê sua perna. - Pede. Hesitante, saio do saco de dormir e deixo que ele pegue minha perna. Ele estica minha perna e empurra meu dedão para trás, o alongando. Um minuto depois, sinto o alívio pela dor ter desaparecido.

— Está melhor? - Ele pergunta, massageando o local da cãibra. Eu assinto, e consigo sorrir.

— O-Obrigada, Sam. - agradeço e volto a me cobrir.

— Ei, garotão, já que está de pé, pode me ajudar a pegar mais lenha. Vamos. - Marcel diz, pegando a mochila e a lanterna.
Ambos fecham seus casacos e saem da cápsula, em busca de mais lenha.

  Algum tempo depois, sem conseguir pregar os olhos, um barulho distante chama a minha atenção. De primeira, eu não consegui identificar o que era, mas quando acontece novamente, eu tenho certeza.

— Ouviu isso?! - sussurro, temerosa.

— Han..? - Lena murmura, sem abrir os olhos. Sento-me e me concentro para ouvir melhor. Ao longe, o som se repete. Um som que faz todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.

— Lena! - chamo, a chacoalhando. Ela se levanta assustada, olhando para os lados.

— O que foi?! - pergunta, com os olhos arregalados. E como resposta, o rugido se intensifica, mais próximo do que eu gostaria.
**
  Pego meu comunicador rapidamente e sintonizo com a linha de Marcel, mas o sinal está fraco e não completa o chamado.

— Conseguiu  contatar o Sam? - pergunto para Lena e ela nega.

— Droga! Temos que procurá-los!

— Você ficou louca?! Não podemos sair daqui, seremos mortas! - Ela contrapõe.

— Se você não percebeu, estamos numa J-A-U-L-A. Você sabe o que isso significa? - pergunto retoricamente. — Que o que quer que esteja lá fora, estava aqui antes. Temos que ir.

— M-Mas... - ela choraminga, sem ter mais argumentos.

— Vamos, antes que seja tarde. - Levanto-me pegando minha mochila e o saco de dormir. Pego o meu e o de Sam. Lena pega o dela e o de Marcel.

  Caminhamos desviando das folhas para não emitir nenhum barulho. A luz fraca da lanterna serve apenas para produzir sombras fantasmagóricas projetadas pelas árvores. O vento forte emite uivos aterrorizantes. Lena está quase colada a mim enquanto andamos procurando os meninos.

— Nunca vamos encontrá-los! Essa floresta é enorme! - Lena sussurra em desespero. Eu também temo essa hipótese. Procurá-los sem ao menos saber a direção que seguiram, é como procurar uma agulha no palheiro.

— Se ao menos respondessem o comunicador.. - murmuro.

— Xiiii! - Lena murmura, colocando a mão na minha boca. — Ouviu isso? - sussurra e eu nego com a cabeça. Passa um segundo de silêncio e sentimos um movimento vindo atrás de nós.

— Corre! - grito assim que Lena tira a mão da minha boca. Corremos desviando das árvores e pulando alguns galhos caídos no chão. Tivemos que abandonar os sacos de dormir durante nossa fuga.

  Em certo momento, Lena tropeça e cai. Volto para ajuda-la e vejo uma árvore atrás dela sendo arrancada pela força de uma coisa que ainda não é visível.

— Vamos, Lena, você precisa correr!

— Eu não consigo! - lamenta, chorosa.

— Consegue sim! - pego seu braço e praticamente a arrasto, obrigando-a a correr.

  Muito tempo depois, nós duas completamente ofegantes, paramos atrás de uma imensa árvore para respirar. Sinto uma intensa falta de ar devido o esforço físico. Eu não deveria estar aqui.

— Acho que o despistamos. - Lena diz pausadamente.

— Sim... - concordo, mas no fundo, sei que não é verdade. Ele está a espreita apenas esperando o momento certo para atacar.

Um chiado corta o silêncio sepulcral, quase nos matando de susto. Respiro aliviada quando vejo se tratar do comunicador.

— Jamie, você está ai? - Sam sussurra do outro lado da linha, pela som de sua respiração, da para notar que ele também se meteu em problemas.

— Sam.. Você está bem?! O que aconteceu?

— E-Eu tô escondido... Há mais uma equipe aqui, eles roubaram a mochila do Marcel com os suprimentos e o pergaminho que havíamos encontrado... Ele foi atrás deles e eu acabei me perdendo...

— Sam?! - chamo quando a freqüência começa a chiar. — Tome cuidado, há uma coisa nos perseguindo!

— Jamie?! Não tô te ouvindo! Ja-...- A frequência cai.

— Temos que ir! - Lena diz, se recompondo. Aceno afirmativamente e deixamos nosso esconderijo improvisado. 

ResquíciosOnde histórias criam vida. Descubra agora