Capítulo 16 - A Criatura

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A noite toma conta do céu e nos deixa imersos na escuridão. Só temos uma lanterna, o que nos atrapalha a seguir em frente.

- Essa floresta não pode ser tão grande assim. Estamos andando a horas a fio e não encontramos nada, nem ninguém. - Desabafo soltando um suspiro frustado.

- Parece que alguém não prestou atenção nas aulas de Mapeamento. - Sam diz com um risinho debochado.

- É. Talvez os cochichos caçoando minha aparência tenham tirado o meu foco. - Respondo rispidamente e paro de andar jogando minha mochila no chão e sentando-me defronte a uma árvore. Sam faz o mesmo, com um pouco de dificuldade, ele se escora na árvore e deixa seu corpo deslizar até sentar-se no chão.

- Eu sei que foi difícil pra você, Jamie...

- Não, você não sabe! - Eu o interrompo antes que ele possa dar mais um de seus discursos de superação. - Você não sabe como é desesperador acordar todos os dias sabendo que você não tem ninguém. Você não sabe como é humilhante procurar uma pessoa que, pelo menos, te responda olhando nos olhos. - Eu continuo com o tom alterado e Sam apenas escuta em silêncio. - Pra todo lugar que eu olhava, eu só encontrava ódio, repúdio e pena. Então se você diz que sabe... Aonde você estava em todos os momentos que eu precisei de um amigo? - Só percebo que estou chorando quando sinto as lágrimas pingar do meu queixo. Sam está cabisbaixo e só percebo que ele está chorando quando o mesmo limpa o rosto. Desvio meus olhos para o chão envergonhada e tento regular minha respiração que está ofegante. Um silêncio de constrangimento paira sobre nós por um longo minuto.

- Eu sinto muito, Jamie. - Sam quebra o silêncio quando ele começa a ser incômodo. - Eu fui um covarde. Eu te via perambular pelos cantos sozinha e triste, e quando eu tomava coragem de me aproximar, alguém conseguia me fazer mudar de ideia. - Ele diz ainda de cabeça baixa. - Aquelas pessoas são mestres em manipular os mais fracos. Eu me sentia uma marionete nas mãos deles. - Ele dá de ombros e dá uma risada seca. - Mas uma hora você precisa enxergar suas cordas, não é mesmo? E quando eu enxerguei as minhas, eu só tive que cortá-las. - Ele me olha e abre um sorriso triste. - Me desculpe por ter demorado tanto tempo, mas agora estou aqui pra consertar isso. Você aceita minha cumplicidade, Jamie? - Ele questiona e levanta o mindinho na minha direção. Eu pondero por um segundo, mas eu já tinha tomado minha decisão há muito tempo. Entrelaço meu dedinho com o dele e balanço a cabeça negativamente.

- Obrigada, Sam. A sua amizade é a melhor coisa que já me aconteceu. - Eu digo sinceramente, antes que eu perca a coragem. Nós olhamos nossos dedos entrelaçados e começamos a gargalhar.

Nossa risada não se prolonga por muito tempo, pois um grito ressoa por todo o lugar, fazendo os pássaros alçar vôo pelas copas das árvores.
**
- Olá, tem alguém aí?! - A voz surge outra vez, vindo de alguma direção ainda não definida. Eu e Sam nos pusemos de pé e olhamos para as direções em busca de quem está precisando de ajuda.

- De onde está vindo? - Sam questiona, mas eu não faço ideia. Estamos em campo aberto, o que faz os sons se propagarem de todos os lados.

- Eu não sei... - Murmuro, mas uma ideia passa pela minha cabeça. - Aqui! - Grito em resposta. Sam me olha totalmente surpreso.

- E se for uma armadilha? - Sussurra, mesmo sem necessidade.

- E se não for? - Respondo em contrapartida e ele ergue os ombros e concorda com a cabeça. - Aonde você está?! - Grito novamente concentrando-me apenas nos sons.

- Ei! Preciso de ajuda!

- Me fala a sua localização! - Espero pela resposta, mas só há silêncio. Troco um olhar confuso com Sam e o medo de ser apenas uma armadilha se torna palpável.

- E agora? - Ele pergunta e a ideia que tive anteriormente é a única solução cabível.

- Precisamos de uma visão ampla... - Começo a dizer e Sam já capta tudo. Nós dois desviamos o olhar para algo a nossa frente e ele balança a cabeça negativamente.

- Isso é loucura, Jamie! Essa árvore tem quase vinte metros de altura. Se você escorregar, já era. - Ele continua negando, indignado com minha proposta.

- Tem alguém precisando de ajuda, Sam. Você não quer perder o tempo procurando uma agulha no palheiro, quer? - Eu argumento com voz firme e ele não sai da defensiva.

- Você quer se arriscar por alguém que nem conhece, e muito menos sabe se realmente precisa de ajuda. Não vê que é burrice?

- Eu também não te conhecia e mesmo assim não te abandonei pra me salvar. - Eu respondo a altura e no primeiro momento ele não reage, mas depois olha para cima e solta o ar de uma vez.

- Ok. Você venceu. Sobe lá e faz seu papel de heroína. Mas toma cuidado, pelo menos. - Ele diz e eu concordo em silêncio, ignorando seu sarcasmo. Encaro novamente a imensa árvore a minha frente e me dou conta que não será uma escalada fácil.

Deixo minhas coisas no chão, dou uma breve olhada em Sam e coloco minhas mãos nos galhos mais grossos, enquanto impulsiono meu corpo pra frente.

- Você consegue, Jamie. Mas se ficar com medo, a gente encontra outro jeito. - Sam diz quando percebe minha hesitação em avançar. Balanço a cabeça pra espantar minha insegurança e medos e continuo a subida, ignorando o comentário de Sam.

Sinto o vento soprar no meu rosto quando chego ao topo. Meu estômago revira e a altura me deixa com ânsia. Ignoro meu medo e olho para baixo, procurando a pessoa perdida na floresta.

Fixo os olhos num ponto ao leste de onde estamos, encontro a pessoa que está sentada no chão e parece se esconder atrás de algo. Fico confusa com a cena, mas logo entendo quando outra silhueta entra no meu campo de visão.

Meus pelos do corpo se arrepiam e sinto minhas pernas perderem o equilíbrio, seguro-me mãos firme quando meus pés vacilam.

- Jamie? - Sam grita sem conseguir conter a preocupação na voz. - Conseguiu encontrar alguma coisa?

Não consigo respondê-lo, meus olhos simplesmente não crêem no que estão vendo.

A fisionomia é de um animal muito grande, um que eu nunca vi, mas sua pele... Tem algo de estranho. Não há pelos. A luz reflete na coisa e então tudo faz sentido.

Aquilo não é apenas um animal. Aquilo é uma criatura de guerra feita pelos KJ's.
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Arte da multimídia: Adam Spizak.

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