Existe um momento certo de descobrir o que somos e porque somos?
Quando você abriu os olhos e teve consciência de que estava viva?
Eu lembro-me vagamente dos acontecimentos passados, como se fossem fragmentos unindo-se a medida que as memórias se...
Descer daquela árvore foi o menor dos problemas. Quando meus pés pousam em solo firme, tenho que me lembrar de como respirar. Sam gesticula e diz coisas que eu não consigo entender por causa do nervosismo.
Escoro-me na casca da árvore e fecho os olhos mentalizando a calmaria. Eu não posso ter um ataque de pânico nesse momento, simplesmente não posso. Temos que ter o máximo de frieza para lidar com essa situação, o pânico só nos colocará em risco maior.
— Jamie, fala comigo. - Sam pede após estalar os dedos na frente do meu rosto. — O que houve? - Solto o ar dos meus pulmões e decido falar logo.
— Você conhece a história dos KJ's, não é? - Pergunto, ainda eufórica.
— Quem não conhece? - Ele dá de ombros, sem entender nada.
— Então sabe que há muito tempo, quando foram banidos pra terra, eles criaram uma arma para se vingar.
— Sim. E o que tem?
— Bom, basicamente, a arma deles está aqui e foi o que me deixou em pânico.
— O quê?! Mas, não faz nenhum sentido. A base tem todos os mecanismo necessários para detectar uma possível ameaça, Jamie. - Sam argumenta levando as mãos a cabeça e andando de um lado a outro, negando veementemente.
— Nenhum lugar é 100% seguro, Sam. Você sabe disso. E, além do mais, quando falei com Marcel por telefone, ele me disse que o sinal da base não respondia. E depois, aquela ligação do comandante não fez nenhum sentido. Acho que estavam mandando uma mensagem codificada.
— E o que você acha que está acontecendo lá? - Indaga com medo ressoando o tom de voz. Engulo a seco antes de responder, pois também temo estar certa.
— Eu acho que estamos sob ataque. E voltar para a base seria como ir direto para uma armadilha. **
Não temos tempo para raciocinar, teremos que agir. Nos esgueirando pelas árvores, fomos caminhando em direção a pessoa em apuros. Sam se manteve calmo por fora, mas ninguém sabia o que se passava dentro dele.
Alguns metros a frente, conseguimos ver a silhueta da criatura rondando a sua presa, que está escondida atrás de uma rocha. Por algum motivo, a criatura não avança mesmo sabendo que a pessoa está a poucos passos.
— O que faremos? - Sam sussurra. Penso. Calculo as rotas na minha mente, meço os riscos e decido: A criatura tem que se afastar.
— Eu tenho que tira-la de perto daquela rocha. Quando ela vier atrás de mim, você corre até a pessoa e tira ela daqui, ok?
— Espera, Jamie. Isso é loucura!
— Eu sei! Mas não consigo pensar em nada menos perigoso.
— E se seus pulmões não aguentarem? Sua saúde, Jamie... - Sam começ a dar indícios de querer surtar. Pego seu rosto e o obrigo a me olhar.
— Dará certo. Eu tenho que fazer isso, você está machucado e, apesar de eu ter a saúde fragilizada, eu ainda tenho as duas pernas intactas. - Sorrio. Ele não esboça nenhum sorriso, mas pela sua cara, ele sabia que não tinha escolha. Nesse momento, eu sou a nossa única chance de escapar.
— No três? - Murmura, sem me olhar.
— Um, dois, três. - Despeço-me de Sam silenciosamente enquanto distancio-me em direção ao incerto. Eu não sabia se iria sobreviver, mas pela primeira vez na vida, eu queria. **
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Enquanto eu corro desesperadamente desviando das árvores e raízes no chão, minha mente vaguea por um passado há tanto esquecido.
Lembranças de multidões correndo por suas vidas, gritos e barulhos estrondosos. No fundo eu sabia o que aquilo significava. Mas algo me fez esquecer.
A criatura está em meu encalce, posso sentir sua fúria em cada árvore que ela derruba atrás de mim. Não posso olhar pra trás, porque sei que ela está perto demais.
Tento aumentar a velocidade, mas meu coração palpita. Maldita doença que me faz tão incapaz. O ar quase falta nos meus pulmões, temo perder as forças nas pernas antes de despista-la.
Corro em ziguezague e o pior acontece, tropeço em um galho solto e caio debruço no chão. Sinto o desespero crescer gradativamente e explodir num instante dentro de mim.
Viro-me de barriga pra cima e me arrasto para longe do meu algoz, mas ela não ataca. Parece estar me estudando de longe, só esperando o momento certo de acabar comigo.
Meu peito sobe e desce pela a intensidade em que ofego. Respirar parece arriscado demais. Vejo a ameaça nos olhos robóticos da criatura e sinto quando ela ataca.
Seus movimentos são rápidos e calculados, mal tenho tempo de fechar os olhos e sinto seu peso sobre mim. Peço desculpas a mim mesmo por ter almejado a morte por tanto tempo, sem saber que não era o que eu queria realmente. Eu só estava magoada com o destino que me fez para ser uma inválida. Mas eu não tinha culpa, e eu merecia viver como qualquer outra pessoa, mesmo que limitadamente.
Fecho os olhos, não sinto dor, apenas a escuridão e o vento gelado atingido minha pele frágil. Não encaro a morte de frente, apenas entrego minha alma.
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