Capítulo 3 - Centaurus

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Reviro na cama a noite inteira, não conseguindo dormir. Há algo que me incomoda, embora eu não saiba o que é.

Talvez seja o peso das palavras que o presidente Renderick jogou sobre mim, provocando-me certa ansiedade.

Se até ele acredita que sou capaz de fazer parte de algo tão grandioso, por que eu não posso me dar um voto de confiança também?

Talvez eu possa tentar, mesmo que fracasse e tenha que conviver em eterno constrangimento.

Eu não tenho nada a perder, afinal.

Conformada de que não irei conseguir dormir, levanto-me da cama, visto meu roupão e saio do meu compartimento.

O corredor está imerso na escuridão e eu tenho um pouco de dificuldade ao me locomover, embora eu já tenha traçado esse mesmo caminho inúmeras vezes quando a insônia surgia.

O refeitório está um pouco mais iluminado devido a enorme janela de vidro que permite a entrada da luz externa que provém das grandes luminárias.

O som dos meus passos ecoando pelo lugar é o único barulho que ouço. Olho para os lados me certificando que não havia nenhum Syron de patrulha por perto.

Abro a porta que da para a cozinha e, em poucos passos, paro de frente a dispensa.

Entro deparando-me com várias prateleiras dispostas no amplo espaço do cômodo, onde acomoda uma quantidade absurda de alimentos enlatados.

Passo pelo setor de enlatados e entro num segundo corredor onde fica o que realmente me interessa; guloseimas.

A Base inteira é protegida por câmeras de segurança, porém, devido a uma queda de energia há algumas semanas ocasionou um curto circuito e algumas câmeras acabaram sendo danificadas, ocasionando uma manutenção geral. Portanto, aproveito esse pequeno imprevisto para despejar toda a minha ansiedade e frustrações nos doces.

Futuramente, quando forem checar os alimentos novamente, poderão notar a ausência considerável destes alimentos, contudo, não terão provas, apenas suspeitos.

Sento-me no chão frio da dispensa e abro uma embalagem de chocolate. Mordo, deliciando-me com o sabor indescritível.

Após ingerir aproximadamente dez barras de chocolates, dou-me por satisfeita. Recolho meu lixo e o descarto no triturador da cozinha.

Abro uma fresta da porta e avalio o corredor, certificando-me que não haveria risco de ser pega no flagra.

Após minha confirmação, abandono a cozinha e volto para meu compartimento.

Mais aliviada, consigo pregar os olhos pelo resto da madrugada.
**

Assim que a sirene anuncia o começo das atividades, eu abro os olhos. A sensação que tenho, é que não consegui descansar nada no breve tempo que cochilei.

Sem alternativa, levanto da cama e pego meus produtos individuais para tomar banho.

O banheiro fica no mesmo corredor que os compartimentos femininos, facilitando muito minha vida.

O banheiro é enorme com vários box espalhados, o que deixa nosso dia mais prático e rápido.

Temos um prazo estipulado para cada banho, na intenção de economizar o máximo de energia e água. No entanto, nós mesmos devemos nos policiar, pois não há nenhum mecanismo que desligue automaticamente, nem nada.

Entretanto, se extrapolamos a quantidade necessária para um banho, somos devidamente punidos.

Coloco meus produtos sobre a prateleira e acesso o sensor responsável por ligar o chuveiro. É tudo feito manualmente. Regulo a temperatura e a intensidade da água, preciso de um banho relaxante.

Molho meu corpo, fecho o chuveiro, massageio meu couro cabeludo com o shampoo e ensaboo meu corpo, por fim, ligo novamente o chuveiro para me enxaguar.

Ainda tenho três minutos, o qual aproveito para divagar sobre minha estadia na Base. Eu não consigo evitar me sentir estranha em relação a tudo nesse lugar. Ninguém aqui tem família, a maioria são jovens e os escassos adultos são professores, médico ou enfermeira.

Ninguém se pergunta aonde os pais estão neste momento? Ou se questionam o porquê estão aqui, qual o propósito de tudo isso?

Meus três minutos acabam sem que eu tenha respostas para meus questionamentos. Recolho meus produtos, enrolo-me num roupão e volto a meu quarto para vestir meu uniforme cinza com branco.

Minha primeira aula do dia é tiro ao alvo. A última vez que tentei atirar, a força do disparo impulsionou meu corpo para trás, fazendo com que eu tropeçasse nos meus próprios pés e caísse na frente da classe inteira. Não me pouparam de suas zoações.

Devidamente uniformizada e com os cabelos presos, sigo para o campus da Base. Alguns Syrons passam por mim discutindo sobre alguma viagem que terão de fazer antes do evento.

"A coisa tá feia lá, eu estou torcendo para não ser escalado." um deles comenta enquanto o outro assente, ambos parecem tensos.

Chego ao campus, onde diversos alvos estão dispostos e enfileirados em distâncias significativas.

Os alunos já estão equipados e posicionados na área marcada. O mestre G está auxiliando-os concentrado e nem percebe meu atraso.

Pego uma CENTAURUS com mira de alto alcance e entro na fila, onde o alvo mais afastado está posicionado.

Esta arma é muito potente equipada com raio laser que explodem ao entrar em contato com qualquer coisa sólida.

Devido sua força descomunal, preciso usar algumas táticas para manter-me de pé após o disparo.

- Jamie, sua vez. - Mestre G chama a minha atenção, percebendo que estou desatenta. Engulo em seco e me posiciono na área marcada de verde. Não posso ser fraca novamente, não quero cair e ser pivô das provocações e gargalhadas dos demais alunos que me observam.

Miro o alvo enquanto alinho os pés seguindo os conselhos do Mestre G, e coloco o dedo no gatilho. Não posso errar.

- Quando estiver pronta, atire.

Inspiro.

"Eu aposto que os braços dela vão quebrar." - ouço um comentário desnecessário seguido de risadinhas abafadas.

Expiro.

"Que nada, ela vai ser arremessada e se quebrar ao meio, como um pau se partindo num joelho." - Mais risadas.

Seguro a arma firmemente, depositando toda a minha fúria nos meus pés que serão os responsáveis por me manter firme. Concentro-me e, quando começam um novo comentário maldoso, eu atiro. A força da bala me desestabiliza minimamente, empurrando-me para trás.

O estrondo silencia todos os alunos que alternam os olhares do alvo completamente destruído para meu corpo que se mantém de pé, enquanto seguro a CENTAURUS. Estou ofegante e perplexa. Eu consegui.

- Muito bem, Jamie. - Mestre G me parabeniza, sorridente. - Agora, volte ao final da fila.
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