Capítulo 19 - Minhas Condolências •

2K 115 4
                                        

Ethan narrando:

Incertezas me envolvem durante o trajeto até o hospital Alexianer St. Hedwig, alguns minutos após a ligação. O silêncio constante dos meus guardas me proporciona uma viagem nostálgica à minha infância... Repleta de privilégios, portas sempre abertas e respeito, mas também marcada por responsabilidades avassaladoras, inseguranças e pela rigidez de meu pai autoritário, algo que nem Aurora, nem ninguém realmente sabe.

Será que ele fez mal a outras pessoas desde que eu era mais jovem? Talvez seja isso que a polícia queira comigo: compartilhar mais informações para pegar o restante da gangue. Ou talvez, Harry tenha morrido.

Espero estar certo na última possibilidade. Menos um homem Siren no mundo é bem melhor.

Passo pelos corredores dos hospitais tendo como guia uma enfermeira de cabelos loiros, de baixa estatura e que vestia um uniforme lilás.
Ela não me dá muitas informações, só nos leva até a porta do quarto em que Harry está e pede que nós aguardemos o médico.

A porta do quarto estava entreaberta, e eu podia vê-lo à distância. Refletir sobre o fato de tê-lo confinado ali me proporciona um certo alívio; Harry tentou escapar da polícia, pois qualquer alternativa parecia melhor do que enfrentar um julgamento com a possibilidade de pena de morte.

Contudo, se ele não perder a vida aqui, encontrará seu destino no tribunal, à medida que mais informações vierem à tona.

As opções para ele são escassas, e sinto um perverso contentamento ao imaginar que a justiça finalmente será aplicada. É uma pena não ter percebido tudo isso antes.

Silenciosamente, afasto-me dos meus guardas, que permanecem imóveis, entendendo que devem manter posição. Caminho lentamente até o leito de Harry, observando seus olhos cinza entreabertos. A visão daquele homem, outrora imponente e implacável, agora reduzido a um corpo frágil, me provoca um misto de sensações, entre eles graça.

Harry me analisa com uma mistura de raiva, puxando o ar com força através da máscara de oxigênio. Aproximo-me mais, mantendo uma expressão séria, mas carregada de sarcasmo.
- Oi, pai. - Digo, observando sua reação.
- Está se sentindo bem? - Acrescento com ironia.

Harry move o dedo indicador levemente, como se tentasse me mandar embora. Não me surpreenderia se esse fosse o caso. Afinal, fui eu quem o desmascarou.

- Tenho uma notícia... Eu tenho uma filha. - Solto, enquanto mantenho os olhos fixos nos dele.
- Ela tem apenas seis anos e é filha de uma mulher de condições bem modestas. - Acrescento, caminhando para o outro lado do quarto, deixando que as palavras pesem no ar, eu sei que ele insultaria a Aurora se pudesse.

- Cometi alguns erros com elas, e agora estou tentando consertá-los. - Finalizo.

Interrompo meus suaves passos pelo quarto e mais uma vez me aproximo de seu leito.
- Estar nessa posição me fez pensar... - Começo, mantendo meu tom firme.
- Você já pensou em consertar os seus erros comigo? Ou com minhas irmãs? - Faço uma pausa, mesmo sabendo que nada sairia dele a não ser seus gestos agitados.

Meu pai mexe os dedos, mexe os músculos do pescoço e falha em sua tentativa de responder. Solto o ar e me curvo diante à ele, repousando meus braços no ferro branco do leito.
- Se arrepende do que fez com a sua família? - Rosno baixo entre dentes.
- Você partirá em breve ou não, mas preciso saber se alguma vez você já me considerou seu filho. - Acrescento me tendo vulnerável, mas ainda sim em tom ameaçador.
- Mexa os seus dedos se for uma resposta positiva. - Finalizo firme.

Harry fica imóvel, pela primeira vez desde que eu cheguei. Sem piscar, sem tentar falar e sem mexer os dedos.
A ausência de resposta fala mais alto do que qualquer palavra que ele poderia ter dito. Sinto uma mistura de alívio e tristeza ao perceber que ele nunca se arrependeu, nunca me viu como seu filho de verdade. Recuo, endireitando meu corpo, e penso...

Um DescasoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora