Eu sou Hecate

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A entrada na Apple Blood era gratuita antes das 23h, o que foi bom para mim, porque eu não tinha certeza se tinha dinheiro suficiente para entrar.

Entrei com meus amigos.

Era exatamente uma balada como eu esperava que fosse. Gente bêbada. Luzes piscando. Música alta. Clichês.

— Luz, você quer beber?! — gritou Willow para mim a quinze centímetros.

Neguei balançando a cabeça.

— Estou me sentindo meio mal. Acho que vou ao banheiro.

— Você quer que eu vá com você? — perguntou.

Balancei a cabeça, recusando.

— Está tudo bem, estou bem.

— Tá. — Willow segurou meu braço e me direcionou para um lugar que não discerni do outro lado da sala. — O banheiro fica ali! Depois encontra a gente no bar, tá?

Assenti.

Eu não tinha a menor intenção de ir ao banheiro.  Willow acenou para mim e se afastou.

Eu ia encontrar Amity Blight.

Assim que tive certeza de que meus amigos estavam distraídos no bar, subi a escada. Estavam tocando indie rock nesse andar e estava bem mais silencioso também, o que me deixou feliz, porque o dubstep alto estava começando a me deixar meio em pânico, como se fosse a música tema de um filme de ação e eu tivesse dez segundos para me salvar de uma explosão.

E aí, Amity apareceu do meu lado, literalmente.

Eu não tinha planejado ir encontrá-la até ela fazer uma referência a Boiling Isles. Mas isso... não podia ter sido uma coincidência, não é? Ela havia dito a frase certinha, palavra por palavra. Com a mesma entonação, sibilando o “s” em “espero”, o prolongar do “indo” em “ouvindo” e o tom descontraído no fim.

Ela também ouvia?

Eu nunca tinha conhecido outra pessoa que acompanhasse Boiling Isles.

Foi bem surpreendente que Amity não tivesse sido expulsa da casa noturna, porque ela tinha apagado. Ou estava dormindo. De qualquer modo, estava sentada no chão, recostada na parede de um jeito que deixava claro que alguém a havia colocado ali. Provavelmente Hunter. O que era surpreendente, já que Himter costumava proteger Amity. Pelo menos, era o que eu tinha ouvido falar. Talvez fosse o contrário.

Eu me agachei na frente dela. Eu a chacoalhei pelo braço e gritei mais alto do que a música.

— Amity?

Eu a chacoalhei de novo. Ela parecia bem adormecida, com as luzes da casa noturna, vermelhas e laranjas, brilhando em seu rosto. Parecia uma criança.

— Não esteja morta. Acabaria com o meu dia.

Ela acordou de repente, se afastando da parede e me acertando na testa.

Doeu tanto que nem sequer consegui dizer nada além de um “filha da puta” baixinho, com uma única lágrima surgindo do canto do olho esquerdo.

Enquanto eu estava me encolhendo para tentar minimizar a dor, Amity gritou:

— Luz Noceda! Eu te acertei no rosto?

— Acertar é pouco! — gritei em resposta, me desenrolando.

Pensei que ela daria risada, mas os olhos estavam arregalados e ela claramente ainda estava bêbada, então só disse:

— Ai, meu Deus, sinto muito.

Por estar bêbada, ela levou a mão à minha testa e deu um tapinha, como se estivesse tentando afastar a dor como mágica.

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