Tudo o que ela amava

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Era tarde do dia 21 de dezembro e minha mãe estava me provocando para que eu fosse bater à porta de Amity.

Eu estava correndo no lugar na nossa varanda, e minha mãe olhou para mim, cruzando os braços.

— Se a Amity atender... — Minha mãe suspirou. — Não caia na besteira de pedir desculpas sem parar. Acho que ela sabe que você quer se desculpar, porque já pediu desculpas um bilhão de vezes.

— Obrigada, mãe, isso é muito sensível da sua parte.

— É preciso ser durona.

— Que beleza.

Minha mãe me deu um tapinha no ombro.

— Vai dar tudo certo. Não se preocupe. Conversar sempre melhora as coisas, pode acreditar, principalmente cara a cara. Eu ainda não confio nos jovens com essa coisa de... como é que se fala? “Tambo”?

— Tumblr, mãe.

— É, pois é, parece meio esquisito, na minha opinião. Falar cara a cara é a melhor maneira de resolver as coisas.

— Tá.

Ela abriu a porta e me fez um gesto para que eu saísse.

— Vá!

Quando Odália Blight abriu a porta de sua casa, foi a primeira vez que eu a vi desde o incidente do cabelo cortado. Sinceramente, ainda pensava naquilo pelo menos uma vez por dia.

Ela estava exatamente igual. Cabelos presos, quadril largo e sem expressão.

— Luz! — disse ela, claramente meio surpresa por me ver. — Tudo bem, querida?

— Oi, sim, estou muito bem, obrigada — falei, rápido demais. — Como a senhora está?

— Ah, estou indo, sabe como é. — Ela sorriu e olhou para o ar acima da minha cabeça. — Tem umas coisinhas acontecendo. Ando ocupada, na correria!

— Ah — falei, tentando parecer interessada, mas não tão interessada a ponto de ela começar a contar tudo para mim. — Queria saber se a Amity está em casa.

Ela parou de sorrir.

— Entendi. — Ela me observou como se estivesse decidindo se começaria a gritar comigo. — Não, minha querida. Desculpa. Ela ainda está na faculdade.

— Ah. — Enfiei as mãos nos bolsos. — Ela... ela vai voltar para casa no Natal?

— Você deveria perguntar para ela, provavelmente — disse ela, contraindo os lábios.

Nesse momento, eu estava aterrorizada, mas decidi pressionar.

— É que... ela não tem respondido às minhas mensagens. Eu estava meio... preocupada com ela. Queria saber se ela está bem.

— Ah, querida. — Ela riu com pena de mim. — Ela está bem, juro. Só está um pouco ocupada com todos os trabalhos da faculdade. Fazem ela se esforçar muito lá... como tem que ser mesmo! Ela ficou na faculdade para estudar porque perdeu alguns prazos. — Ela balançou a cabeça. — Menina boba. Provavelmente estava na farra em vez de estudar direito.

A coisa mais improvável de todas era que Amity estivesse na farra, mas eu não queria chamar a mãe dela de mentirosa.

— E você sabe que ela sempre teve problemas com as regras, aquela pirralha — continuou. — Tem muito potencial... poderia fazer um doutorado, se decidisse se empenhar. Mas ela sempre se distrai com projetinhos e besteiras. Coisa inútil. Você sabia que ela costumava passar o tempo todo escrevendo umas histórias ridículas e lendo tudo na frente do computador? Juro que não sei onde ela arranjou um microfone.

Em busca de Hecate Onde histórias criam vida. Descubra agora