Blusas de lontrinhas

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Ela não ficou muito tempo. Acho que percebeu que eu estava tendo um treco por dentro com a situação toda, mas mesmo assim fiz umas torradas para ela e tentei não bombardeá-la com perguntas, apesar de querer. Depois de perguntar quem sabia sobre Boiling Isles (só Hunter), por que ela tinha começado a fazer o programa (ela estava entediada) e como ela fazia todos os efeitos de vozes (com software de edição), pensei que seria melhor eu me acalmar, então preparei um pouco de cereal e me sentei à frente dela na bancada. Estávamos em maio, o verão ainda não tinha chegado, mas o sol da manhã irritava meus olhos pela janela da cozinha.

Conversamos sobre os assuntos comuns, como coisas da escola, férias e o que tínhamos estudado. Ela esperava tirar nota máxima em tudo, o que não surpreendia no caso de alguém que havia entrado em uma das maiores universidades do país, e ela disse que não sabia como, mas não estava estressada com suas provas. Eu não comentei que estava tão estressada que estava perdendo mais cabelos do que o normal na hora do banho.

Em determinado momento, ela perguntou se eu tinha um analgésico, e de repente vi que seus olhos estavam bem vermelhos e lacrimejantes e que ela não tinha comido muito da torrada. Sempre consigo me lembrar dela naquele primeiro dia no café da manhã. À luz do sol e sua pele pareciam ter quase a mesma cor.

— Você sai muito? — perguntei, dando um pouco de paracetamol e um copo de água para ela.

— Não. — E então deu uma risadinha. — Não gosto muito de sair, para falar a verdade. Sou meio solitária.

— Eu também não saio muito. Ontem à noite foi minha primeira vez na Apple Blood. Estava bem mais quente do que eu esperava.

Ela riu de novo com a mão cobrindo a boca.

— Sim, é nojento.

— As paredes estavam tipo... molhadas.

— Pois é!

— Provavelmente teria dado para armar um tobogã. Eu teria me divertido mais se tivesse um escorregador, não vou mentir. — Fiz um gesto esquisito de deslizar com as mãos. — Escorregar na água estando bêbada. Eu pagaria pra ver.

Aquilo foi esquisito. Por que eu tinha dito aquilo? Esperei que ela me olhasse com aquela cara de “Luz, do que está falando?”.

Não aconteceu.

— Eu pagaria por um pula-pula — disse ela. — Sei lá, deveriam reservar um andar que fosse totalmente ocupado por um pula-pula.

— Ou uma sala que fosse só de brinquedos.

Fizemos uma pausa enquanto comíamos. Não foi esquisito.

Um pouco antes de ela ir embora, enquanto estávamos paradas à porta, perguntei:

— Onde você comprou seus coturnos? São muito legais.

Ela olhou para mim como se eu tivesse dado a notícia de que ela havia ganhado na loteria.

— Na ASOS.

— Ah, bacana — respondi.

— São... — Ela quase não continuou. — Sei que eles ficam esquisitos em mim. Minhas pernas são finas.

— Ah, não parecem esquisitos. — Olhei para os pés dela. — Eles combinam muito bem com você. São só sapatos.

Olhei para ela e sorri, sem saber direito onde aquela conversa daria. Ela estava olhando para mim, com a expressão totalmente indecifrável.

Amity puxou as mangas da blusa para cobrir as mãos.

— Obrigada pelo que você disse a respeito da Boiling Isles — disse ela, meio sem olhar nos meus olhos. — Eu... hum... significou muito para mim.

Em busca de Hecate Histórias para pegar e não largar. Descubra agora