Capítulo 05

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Logo após ouvir a porta bater, escuto o motor do carro do meu pai dar partida. Me levanto e vou até a janela, observando enquanto ele se afasta pela rua. Franzo a testa e resmungo em voz alta:

— Só pode ser piada... Tudo aconteceu ontem e eles já querem que eu saia de casa? E ainda por cima voltar pra reserva?

Eu ainda não tenho carteira de motorista, mas sei dirigir bem. No fundo, sabia que, na cabeça da minha mãe, seria mais prático ir de carro. Além disso, minha bicicleta ficou perdida na floresta. Com certeza essa foi ideia dela... Tentando, mesmo depois do susto, me forçar a sair, me enturmar. Ou talvez como um castigo. Tenho certeza de que ela acha que a culpa do que aconteceu foi minha. Mas, no fim, não tenho escolha.

— Melhor enfrentar logo isso. Entrego a cesta, agradeço e vou embora. Vai ser rápido, com certeza...

Mal encosto no café, já jogo metade fora. Coloco os utensílios na lava-louças, subo para o quarto, tomo um banho quente e escovo os dentes. Depois, escolho uma roupa mais arrumadinha.

— Melhor essa... Não quero parecer a louca suja e perdida da floresta.

Arrumo o cabelo com pressa e desço as escadas. Pego a chave do carro com uma mão e a cesta com a outra. Coloco a cesta no banco do passageiro, adiciono o endereço no GPS e dou partida. Do lado de fora, caía uma garoa fina. Liguei o som, deixei a música baixa e segui o caminho, sempre conferindo o GPS para não me perder.

Mas, durante o trajeto, não consegui evitar os pensamentos. As árvores passavam pela janela, e tudo o que eu conseguia imaginar era... o que tinha acontecido com os lobos? E o vampiro? Será que eles o mataram? Ou será que foi o contrário? E se ele estiver vindo atrás de mim?

Fui interrompida pelo som mecânico e impessoal do GPS, avisando que eu estava chegando ao destino. Estacionei o carro e desci com a cesta nas mãos. A chuva havia cessado. À minha frente, uma casa modesta, mas acolhedora. Um cheiro de terra molhada pairava no ar.

Aproximo-me com um nó no estômago. Logo avisto uma mulher de cabelos pretos, franja e uma cicatriz marcando o rosto. Tento não encará-la — sei como pode ser desconfortável ser olhado por tempo demais.

— Oi, posso te ajudar? — pergunta ela com um tom cordial.

Mantenho o olhar fixo nos olhos dela e respondo com uma voz educada:

— Oi. Minha mãe pediu pra eu entregar essa cesta como forma de agradecimento aos meninos da reserva... pelo que aconteceu ontem.

Ela sorri com gentileza, pega a cesta das minhas mãos e agradece:

— Nossa, que linda! Muito obrigada. Vai ser muito útil. Os meninos sempre chegam famintos...

— Pode entrar e se sentar, fique à vontade.

Acompanho-a porta adentro. A parte de dentro da casa é simples, mas exala uma sensação de aconchego e calor humano.

— Aceita um muffin? Porque, quando os meninos chegarem, vão desaparecer num piscar de olhos!

— Não, obrigada. Tomei café antes de vir — respondo com um sorriso tímido.

Mal termino de falar, escuto vozes vindo de fora. Gargalhadas, passos apressados e tons animados. Até que ouço:

— Não acredito que ela não contou a verdade... — diz um garoto desconhecido, falando com Sam. Mas ele se cala assim que me vê pela porta, parado ali, um tanto desconcertado.

— Ah, oi. Não sabíamos que tínhamos visita — diz Sam, se aproximando da mulher de cabelos escuros. Ele a beija suavemente e completa: — Oi, amor. Como está?

— Bem. A visita nos trouxe um presente de agradecimento — diz Emily, apontando para a cesta.

— Que maravilhoso. Muito obrigado, Alisson. Como você está? Nos deu um belo susto ontem. Deixe-me te apresentar os meninos que ajudaram a procurar por você — diz ele, apontando um a um:
— Esse é o Paul, o Jared, o Quil e o Embry... E, claro, você já conheceu a Emily.

Os meninos me lançam sorrisos zombeteiros e trocam cochichos, como se se divertissem com a situação. Foi então que o vi. O garoto de ontem. Estava com uma mulher mais velha, pareciam discutir até notarem minha presença.

— Finalmente! Temos visita hoje e vocês aí fora enrolando. Alisson, esse é o Seth... e essa é a Leah.

Leah tem cabelos curtos e, ao contrário de Emily, carrega a mesma tatuagem que os rapazes — um símbolo tribal marcante, presente até no garoto mais novo. Ela não me cumprimenta. Apenas me encara brevemente, vira as costas e sai novamente, me ignorando por completo.

— Oi... — digo, meio sem graça.

Seth, por outro lado, parece feliz em me ver. Me dá um sorriso sincero e acena, dizendo um tímido “oi”.

— Cumprimenta a menina direito, Seth — provoca Paul, rindo com os outros, como se estivessem por dentro de alguma piada que eu desconhecia. Seth fica visivelmente envergonhado.

Os meninos atacam a cesta como se estivessem em um banquete. Definitivamente estavam famintos — ou talvez os muffins da minha mãe fossem realmente incríveis. Emily intervém:

— Deixem pro seu irmão mais novo! Seth, querido, pega um antes que acabem. E tenham modos, rapazes. Temos uma moça conosco...

Ela sorri para mim, tentando manter a ordem no meio do caos.

***

●● VISÃO DO SETH ●●

Depois de tudo que aconteceu ontem, Sam aumentou a ronda na floresta. Saímos cedo. Foi uma manhã tranquila. Ninguém comentou sobre o imprinting — exceto Leah, que me lançou aqueles olhares carregados de julgamento. Como se fosse culpa minha.

Na volta, resolvi encará-la. Ela nem conhecia Alisson. Por que tanta raiva?

— Leah, posso falar com você?

— O que você quer, Seth? Não temos nada pra conversar.

— Temos sim. Você tá assim desde ontem. É por causa do que aconteceu?

— Não acredito que você também teve um imprinting!

— Como assim?

— O Jacob... agora você... e eu?

— Então é isso. Você tá com inveja?

— Larga de ser ridículo, Seth. Como se você entendesse alguma coisa!

— Ridículo?

— Sim. Ridículo.

Eu ia retrucar, mas então a vi.

Ela estava linda.

Um vestido preto com pequenas flores brancas, uma jaqueta jeans jogada por cima. O cabelo solto, o olhar curioso. Quis correr até ela, abraçá-la, mas ao mesmo tempo tudo parecia tão estranho. Eu mal a conheço. Nunca sequer tinha falado com ela — até agora.

Leah, como esperado, a ignorou completamente. Mas Seth... Seth não conseguia tirar os olhos dela.

Entre tantas coisas que eu queria dizer, escolhi começar pelo mais simples:

— Oi.

— Fala com a menina direito, Seth... — disse Paul, rindo ao fundo, como sempre fazendo questão de tornar tudo mais constrangedor.

Emily me ofereceu um muffin, e eu peguei um só pra agradar. Mas, sinceramente? Tudo que eu queria era ficar perto dela. Conhecê-la. Ouvir sua voz. Saber tudo sobre sua vida.

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