Capítulo 51

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Desde a noite em que Seth saiu pela minha janela, pude sentir que algo havia mudado.

Seth não voltou no dia seguinte.
Nem no outro.

Sentir que as coisas começaram a ficar estranhas, quietas demais.

O silêncio que se instalou no meu quarto era diferente de qualquer outro que eu já tivesse experimentado. Não era o silêncio de uma casa vazia, parecia que era o silêncio de uma ausência planejada.

A janela, que antes era o portal por onde o mundo dele entrava no meu, agora permanecia trancada. Eu a encarava todas as noites, esperando ver o vulto ágil, o brilho dos olhos castanhos ou ouvir o som suave dos seus pés tocando o assoalho. Mas nada acontecia.

Durante o dia, a vida seguia sua rotina mecânica. Eu ia à escola, voltava, jantava com meus pais. Na escola, eu procurava por ele no estacionamento. Sabia que ele não estaria lá, mas a esperança irracional de vê-lo encostado em uma árvore me perseguia.

O que mais doía não era apenas a falta da companhia, era imaginar o por que ele tinha ido. Seth não estava longe porque parou de se importar; talvez ele estivesse longe porque acreditava que ficar, que amar tão de perto, poderia me colocar em risco ou porque talvez acreditava que o jeito mais seguro de me amar era à distância. É doloroso imaginar tantas hipóteses para explicar seu sumiço tão repentino.

Forks parecia mais cinzenta, e a floresta, que antes eu via como o lar do meu protetor, agora voltava a ser apenas um lugar escuro e impenetrável. No entanto, às vezes, eu sentia um arrepio na nuca. Uma sensação de que eu não estava totalmente sozinha.
​Eu sabia que ele estava lá. Em algum lugar entre as sombras das árvores, ele deveria estar patrulhamento ao redor da minha casa, garantindo que o Lúcio não chegasse perto. Ele ainda me protegia, mas agora o fazia como um fantasma. Ele se tornou a própria camuflagem que tanto temíamos no inimigo.

Três dias.

Quatro dias.

A cada hora que passava, a mágoa dele se transformava na minha angústia. Eu olhava para o livro de lendas sobre a minha mesa e sentia vontade de rasgá-lo. Foi aquele papel impresso, somado à minha própria vulnerabilidade, que o afastou.

​"Seth, por favor..." — eu sussurrava no escuro do quarto, esperando que, por algum milagre daquela ligação de imprinting, ele pudesse me ouvir. Mas a noite não respondia.

Foi quando percebi que eu não poderia esperar ele voltar para mim por vontade própria, se ele estava preso naquele ciclo de culpa e auto-aversão, eu teria que ser aquela que cruzaria a fronteira.

​Aproveitei o momento em que meus pais estavam distraídos no andar de cima e peguei as chaves sobre o aparador da entrada. Meu coração batia contra as costelas, uma mistura de adrenalina e culpa. Eu nunca fiz esse tipo de coisa, mas o silêncio de Seth havia me tornado outra pessoa.

Dirigi pela estrada sinuosa de Forks com as mãos firmes no volante, a chuva batendo no para-brisa como se quisesse me impedir de seguir. A floresta ao redor da mansão dos Cullen parecia um muro intransponível de sombras.

Eu estava quase chegando à entrada da propriedade quando um vulto cinzento saltou das árvores, parando exatamente no meio da estrada.

Pisei no freio com força. Os pneus cantaram no asfalto molhado e o carro deu um solavanco, parando a poucos centímetros da criatura.

Minha respiração estava curta. O lobo cinzento, Leah. Me encarou através do vidro por um segundo eterno antes de caminhar para trás de um carvalho e emergir como humana, já vestindo roupas curtas e surradas.

Saí do carro batendo a porta com força. O frio da floresta me atingiu como um tapa, mas eu mal senti.

​— Você ficou louca? — gritei, a voz ecoando entre os troncos.

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