A noite estava pesada. Depois de encontrar o livro aberto na minha escrivaninha, o medo se tornou algo sólido, uma presença física no meu quarto. Tentei me convencer de que era o vento, de que Zack tinha razão, mas o silêncio da floresta lá fora era vazio demais.
A exaustão acabou me vencendo por volta das três da manhã. Foi um sono leve, inquieto.
Acordei não com um som, mas com a sensação de que o ar havia congelado. Meus olhos se abriram devagar, e o grito morreu na minha garganta antes mesmo de nascer.
Ele estava sentado na beira da minha cama.
Lúcio.
Ele não se escondia mais. O fraco brilho dos postes da rua iluminava sua pele de mármore e os olhos de um vermelho vivo, profundo como sangue fresco. Estava imóvel, observando-me com uma intensidade que fazia meu coração vacilar no próprio ritmo.
— Você tem um sono agitado, Alisson — disse, a voz soando como veludo raspando em cristal. Fria. Perfeita. Mortal. — Estive ouvindo o ritmo do seu coração. Ele tem uma cadência fascinante… o som do medo é o que há de mais harmônico em você.
— O que você quer? — minha voz saiu como um sopro, trêmula.
Lúcio inclinou a cabeça, um sorriso mínimo e cruel surgindo nos lábios.
— Não é óbvio? Eu quero o seu sangue — sussurrou, aproximando o rosto. O cheiro dele me atingiu; não havia rastro de floresta, suor ou vida. Apenas um perfume doce, gélido e estéril. — Ele canta para mim, Alisson. É uma melodia vibrante, viciante. Já cacei por séculos, mas o seu sangue… ele clama por mim de um jeito que nunca experimentei antes. Você é o meu tipo exato de tentação.
Ele estendeu a mão pálida e deslizou o dorso dos dedos frios pela minha bochecha. O toque queimava de tão gelado, como se o próprio inverno estivesse me marcando.
— O seu cãozinho tornou tudo muito mais divertido — continuou, soltando um riso baixo que fez cada fibra do meu ser entrar em alerta. — Ele realmente acredita que está te protegendo com essa caçada obsessiva. Não percebe que só está tornando o jogo mais interessante. Cada vez que rosna na floresta, cada tentativa de rastrear meu cheiro inexistente… tudo isso só aumenta o meu apetite. Ele é o tempero que faltava na minha ceia.
Lúcio se inclinou, e o hálito frio atingiu meu pescoço, enviando choques de pavor por toda a minha coluna. Ele pressionou os lábios na minha pele, um beijo demorado e gélido, sem afeto algum. Apenas posse. Senti seus caninos roçarem levemente meu pulso, uma promessa silenciosa de violência.
— Mas vamos ser realistas, querida… eu poderia te matar aqui e agora — murmurou contra o meu pescoço. — É a existência dele na sua vida que torna você um troféu tão valioso. Sem o lobo, você seria apenas um lanche rápido. Com ele… você é um espetáculo. Ele é o único motivo de eu não ter drenado você na primeira noite. É nele que o perigo realmente mora, Alisson.
— Não chega perto dele — sibilei, o desespero vazando na voz.
O movimento foi rápido demais para o olho humano. Suas mãos se fecharam ao redor do meu pescoço, firmes. Não para me sufocar, mas para me manter imóvel, para me obrigar a encarar o abismo vermelho de seus olhos.
Senti a pressão fria dos dedos… e algo mais.
Um arranhão breve, quase delicado, como a ponta de uma unha deslizando fundo demais.
Prendi a respiração.
Não houve dor.
Apenas a consciência exata de que a pele havia cedido sob o toque dele.
Ele se aproximou ainda mais, e eu vi a maldade pura ali.
— É exatamente isso que eu quero — disse, com uma calma aterradora. — Que ele sinta. Que sofra até implorar pelo fim. Quero ver ele e todos aqueles cachorros nojentos se despedaçarem por dentro.
Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto. Lúcio a recolheu com um dedo gelado, como se estivesse colhendo um prêmio.
Ele se levantou com uma elegância sobrenatural e caminhou até a janela escancarada, permitindo que a chuva entrasse. Antes de partir, olhou por cima do ombro, e aquele olhar me reduziu a nada.
Em um piscar de olhos, desapareceu na escuridão da tempestade, deixando para trás apenas o frio e o eco de uma ameaça que eu sabia que ele cumpriria.
Fiquei ali, trêmula, com as palavras dele martelando como uma sentença.
"Ele é o motivo de eu ainda não ter acabado com isso."
A compreensão veio como um soco no estômago. Lúcio não pararia enquanto Seth estivesse por perto.
Se ele continuasse tentando me salvar, morreria.
A única forma de protegê-lo… era tirá-lo do jogo. Eu já estava condenada. Não podia levá-lo comigo. Se o amor dele era o que me mantinha na mira de Lúcio, eu teria que transformar esse amor em cinzas.
Passei o resto da madrugada sentada no chão do quarto, longe da janela. Cada minuto era um ensaio silencioso de crueldade. Eu precisava ser convincente. Precisava quebrar o vínculo que nos unia, mesmo que isso significasse me quebrar no processo.
Quando o céu começou a clarear, fui ao banheiro me preparar para mais um dia doloroso na escola.
Caminhei até o espelho.
As marcas arroxeadas dos dedos ainda cercavam meu pescoço.
No centro, logo abaixo da mandíbula, a linha fina permanecia ali, a pele levemente aberta, sem sangue.
Reconheci o gesto.
Ele não havia perdido o controle.
Havia medido cada centímetro.
Exatamente o quanto poderia tirar…
e decidido não fazê-lo.
Toquei a marca com os dedos trêmulos.
Aquilo não era um ataque.
Era uma assinatura.
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Imprinting
FanfictionSinopse: Alisson Carter, uma menina que é acomodada com sua vida em Forks, que sofre pela ausência dos pais que só pensam em trabalho e não consegue se conectar com os amigos. Sua vida muda drasticamente quando ela resolver fazer um trabalho da esc...
