Capítulo 49

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A chuva fina ainda caía quando deixei a livraria, fazendo minhas roupas grudarem levemente ao corpo.

Caminhei sem pressa, sentindo o ritmo da cidade e os ecos de cada passo. As poças refletiam as luzes dos postes, tremeluzindo como se o mundo inteiro estivesse flutuando em tons dourados e cinza.

O caminho para casa parecia mais longo do que realmente era. O vento soprava frio, fazendo-me encolher os ombros, mas não me apressei.

Ao abrir a porta de casa, o calor familiar me envolveu imediatamente. Tirei os sapatos e o casaco encharcado, deixando o som da chuva lá fora. Subi as escadas lentamente, antes de me refugiar no quarto.

O banho quente trouxe alívio, levando embora a água que havia encharcados minhas roupas. Enrolei-me na toalha e caminhei até a cama, ainda com os cabelos úmidos. O livro da livraria repousava sobre o colchão, esperando-me.

Coloquei o pijama mais confortável que tinha e me deitei na cama, puxando o edredom por cima. O calor acolhedor parecia me envolver em um abraço delicado.

Quando o abrir, senti o cheiro do papel novo, um aroma que parecia segurar o mundo em silêncio por alguns instantes.

As páginas descreviam os lobisomens como criaturas de pesadelo, sedentas por carne, com olhos vazios de humanidade. Eu sabia que aquelas histórias eram exageros, histórias medos humanos transformados em lenda. Mas, mesmo assim, cada palavra me incomodava.

Fechei o livro por um instante, deixando-o cair no edredom. Seth… como seria se alguém enxergasse o Seth daquela forma?  Como ele seria julgado, temido, caçado? O mundo adorava rotular o que não entendia, e tudo o que ele tinha, tudo o que ele era, se tornaria motivo de horror aos olhos alheios.

Uma pontada de raiva misturava-se à tristeza. Era injusto. Ele não era um monstro, e ainda assim, apenas de imaginar o desprezo e o medo nos olhos das pessoas, senti meu peito apertar. Cada lenda ali parecia me sussurrar " E se o mundo descobrisse?"

Eu estava perdida nos meus pensamentos, quando a porta se abriu de repente e meu pai entrou, segurando uma xícara fumegante de chocolate quente, espalhando pelo quarto o aroma doce e reconfortante que contrastava com o frio da noite.

— Trouxe chocolate quente — disse, com aquele tom calmo.

Peguei a xícara com cuidado, sentindo o calor se espalhar pelos meus dedos.

— Obrigada — murmurei, bebendo o chocolate devagar.

Ele sentou-se na beira da cama, levemente inclinado, e pegou o livro que eu havia deixado sobre o Edredon.

— Não sabia que gostava desse tipo de livro — comentou, folheando com cuidado.

— É… estou tentando experimentar novos universos literários — respondi, com um meio sorriso

Meu pai apontou para a ilustração de um lobo feroz, olhos penetrantes, estampada em uma das páginas.

— Esse dá medo, hein — disse ele, com um misto de fascínio e cautela.

Minha expressão mudou involuntariamente, lembrando de Seth.

— Pai… — comecei, hesitando.

— Hum? — respondeu ele, erguendo os olhos, atento ao tom da minha voz.

— Já imaginou se isso existisse de verdade? — perguntei, apontando vagamente para o livro.

— O quê? Vampiros e lobisomens? — arqueou as sobrancelhas, curioso.

— É.

Ele suspirou, encarando novamente a imagem do lobo, e disse, imaginando alto...

— Imagino carros e casas abandonadas, um mundo cinzento, todos nós lutando pela sobrevivência e sempre levando conosco uma estaca de madeira e uma faca de prata. — respondeu ele, com um leve sorriso no rosto.

— Um cenário bem apocalíptico, né? — murmurei, tentando parecer casual a descrição extremamente exagerada.

— Sim — respondeu ele, sério por um instante. — Pelo que é descrito, são monstros. Perigosos. E se estivessem realmente entre nós, estariam acima de qualquer outra ameaça.

— Acima de qualquer outra ameaça… — repeti baixinho, encarando a capa do livro. — Mas… e se não fossem todos assim? Digo, e se houvesse alguns que… não quisessem machucar ninguém?

Meu pai sorriu, como se achasse curioso eu estar tão absorta nesse assunto.

— Acho difícil isso acontecer, querida. — Respirou fundo, como se buscasse as palavras certas. — Nas histórias, os vampiros vivem do sangue humano; ele é a fonte da sua energia vital, quase como o oxigênio pra gente. Por isso, o desejo deles é quase instintivo. E os lobisomens, durante a lua cheia… perdem completamente o controle e se tornam feras perigosas.

— Entendi… — respondi, sem conseguir esconder a frustração que apertava meu peito.

Ele me olhou de soslaio, franzindo levemente o cenho.
— Está com pena de monstros fictícios agora? — perguntou, com um tom brincalhão.

— Não é isso — murmurei, mexendo nos dedos. — É que o livro me fez pensar… — Dei de ombros, tentando disfarçar. — Tipo… e se eles só fossem diferentes? E se alguns só estivessem tentando viver do jeito deles, sem machucar ninguém? Não todos, claro, só alguns.

Ele respirou fundo e se recostou um pouco, a expressão agora mais séria.
— Olha, eu não sei… se uma criatura assim realmente existisse, o mundo não deixaria ela viver em paz. As pessoas têm medo do que foge do controle delas.

Meu peito apertou.
— Então você acha que… o medo faria as pessoas atacar primeiro?

— Sempre faz — disse ele. — A história humana é isso, medo e defesa. Mesmo quando o perigo nem sempre é real.

O silêncio que se seguiu parecia preencher o quarto inteiro. Minha respiração se espalhou entre as sombras do quarto, e por um instante, fiquei sem palavras.

Então ele colocou o livro de lado.
— Chega de vampiros e lobisomens por hoje.  Se não vai acabar tendo pesadelos.

— É… tem razão — respondi, forçando um sorriso.

Ele se aproximou, tocou minha testa com um beijo carinhoso.
— Tenha uma boa noite, querida. Durma bem.

— Obrigada, pai.

Quando ele saiu, apagando a luz do quarto, fiquei deitada, mergulhada em pensamentos. Até que em algum momento eu acabei caindo no sono.

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