Capítulo 27

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Mesmo tendo visto Seth na noite anterior e sabendo que o veria novamente hoje, acordei na sexta-feira com uma sensação estranha, um aperto no peito que eu não conseguia explicar.

Do quarto, ouvi o som da chuva ainda caindo forte lá fora. Pisquei algumas vezes antes de me espreguiçar, sentindo o peso do sono ainda grudado no corpo, como um cobertor que se recusava a me deixar levantar.

A chuva tamborilava no telhado com um ritmo quase hipnótico, e a luz cinzenta da manhã envolvia tudo com uma aura tranquila e levemente melancólica.

Levantei-me e fui até a janela, afastando a cortina devagar. O mundo lá fora estava coberto por uma névoa espessa, e pequenas gotas de chuva escorriam pelo vidro, como lágrimas que o céu não conseguia conter.

Meus olhos buscaram automaticamente a borda da floresta, mas eu já sabia... ele não estaria lá.

Fui me arrumar.

Depois do café da manhã, puxei meu casaco e saí para a varanda. A chuva não dava trégua, e o ar estava carregado com aquele cheiro terroso e amadeirado, uma mistura de terra molhada e pinho, que parecia invadir os sentidos.

O dia se arrastou entre tarefas rotineiras, conversas superficiais e risadas, principalmente vindas de Madison.

Quando minha mãe me deixou em casa, almocei e fui direto para os deveres escolares. Era uma regra que ela e meu pai haviam estabelecido: nada de sair com Seth antes que tudo estivesse feito.

Mas minha mente estava em qualquer lugar, menos nos livros.

Enquanto tentava ler uma linha do capítulo de história, os pensamentos escapavam, sempre voltando para ele. Seth.

A impaciência começou a borbulhar dentro de mim.

Peguei o celular. A tela acesa mostrava as mesmas notificações de antes. Suspirei, frustrada. Por que o tempo parecia correr quando eu queria que parasse, e se arrastava quando eu mais queria que voasse?

Depois de terminar os deveres — ainda que com dificuldade — empilhei os cadernos de lado e me deixei cair sobre a escrivaninha, cruzando os braços e apoiando a cabeça. O cansaço se misturava com a inquietação que crescia sem trégua dentro de mim.

Meus olhos vagaram até a janela. A chuva, antes insistente, agora era apenas um sereno delicado, traçando caminhos finos pelo vidro. O céu continuava encoberto, mas havia uma paz estranha no ar, como se a tempestade tivesse levado embora parte do peso do dia.

Fiquei ali, imóvel, observando o vaivém das gotas, deixando a mente escapar dos compromissos, das expectativas...

De tudo.

Exceto dele.

Olhei para o relógio sobre a escrivaninha: 16h30.

As pálpebras pesaram, e, antes que pudesse resistir, fechei os olhos, permitindo-me um breve instante de rendição.

Acordei sobressaltada com o som da campainha ecoando pela casa. O coração disparou. Meus olhos correram para o relógio: 16h57.

Tinha adormecido, ainda que por poucos minutos.

Pisquei várias vezes, tentando afastar a sonolência. Quem viria me procurar a essa hora?

Caminhei até a porta, sentindo o frio da noite que começava a cair. Ao abrir, meu coração deu um salto.

Seth estava ali.

Seus cabelos castanhos, um pouco bagunçados pela umidade, grudavam-se à testa. Sua pele bronzeada contrastava com o fundo cinzento do céu. E seus olhos — castanho-escuros, intensos — encontraram os meus, com um brilho suave. Um pequeno sorriso brincava nos lábios dele.

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