Jerônimo notava Juliette muito concentrada na direção e os três fizeram a viagem em completo silêncio. No banco de trás ele viu Tereza rezando um terço, era algo normal para ela, mas naquela noite parecia que tinha uma intenção.
O trajeto para casa foi super tranquilo e eles chegaram sãos e salvos, mas Juliette sentia dor de cabeça.
Tereza foi se recolher primeiro e Jerônimo foi conversar com Juliette que tirava as sandálias dos pés.
- Eu sei que não é fácil, mas se fosse meu caso também não ia querer falar com você...
- É sério que o senhor acha isso? E quantos outros machos pensam igual? Ah já sei, todos os das comunidades circunvizinhas. Dane-se ele e as opiniões dos outros. Fazem muito pior do que eu e se acham os santos.
- Juliette que agressividade é essa?
- Eu sou assim mesmo pai. Minha personalidade é agressiva. Certas coisas não mudam. Sabe quantas vezes vou baixar a cabeça para ele ou qualquer outro dessas redondezas? Nunca! Se ele prefere nutrir o ódio que faça, isso não é problema meu.
- Então se não se importa para que foi falar com ele? A verdade é que você nunca soube o quê quer da vida. Sempre quis ser grande, agora volta para casa querendo recomeçar. Isso não faz sentido.
- Não me quer aqui? Então eu vou embora.
- Escute aqui... Eu não disse nada disso. Você precisa escutar as coisas direito. Jamais desejo que vá embora, mas se quer ter um recomeço é melhor ir baixando a crista por que o povo daqui não tem piedade e esse seu jeito autoritário dá errado com a vida na roça. No mais vai dormir e esfriar a cabeça.
Jerônimo saiu e não demorou a ouvir coisas serem quebradas no quarto dela.
- Ela está furiosa Tereza. Com essa fúria é capa de cometer um assassinato.
- Deus a livre, mas dá para perceber. O quê você achou da reação dele?
Jerônimo sentou na cama e ficou pensativo.
- Homem diga alguma coisa.
- Ele ficou paralisado quando ela se mostrou. Ou foi surpresa demais... Mas acho que não foi...
- O quê acha que é então?
- Ele deve gostar dela ainda. Mesmo depois de tantas anos, certas coisas ficam na gente para sempre. E o homem quando ama é de verdade, por isso é muito difícil amar profundamente outra mulher.
- Eu rezei um terço para eles dois.
- Tereza não faça isso.
- Ao menos tem que haver o perdão, mas eu confesso que queria que Deus os unisse de novo.
Jerônimo não foi a favor e nem contra.
...
Na casa de Rodolffo.
Ele deixou a irmã e a mãe em casa, retornando para a sua de seguida. Seu humor estava péssimo. Seu íntimo sentia a derrota, tantos anos se passaram e ao vê aquela mulher se sentir como sentiu era mesmo desolador.
Sempre teve tanto sucesso em evitar um encontro direto, mas nessa noite infame a deixou estar próximo a ele, ouvir sua voz e sentir o seu perfume.
Aquela mulher ainda era mais linda do que o seu cérebro podia recordar, mas seu modo de agir não era o da Juliette que ele amou.
- Não é ela Toby. Não é ela! - ele disse pegando uma garrafa de whisky na sua adega.
Nem foi necessário copos, Rodolffo virou a bebida direta na boca e depois a arremessou contra a parede.
- Não vou beber. Ela não merece nada de mim, nem mesmo uma ressaca. Ingrata, fingida e mentirosa.
Toby se enganchou entre suas pernas e ele sentou no chão, abraçando seu amigo.
- Toby ela é a mulher que eu mais amei em toda a vida. Doeu tanto reencontra-la. Eu não estava preparado e nunca vou estar. Por que isso depois de tanto tempo? E pra quê ela anda assim tão bonita?
Toby se aninhou junto ao dono e ali ficaram. Rodolffo acabou dormindo no chão naquela noite.
...
