TRINTA E NOVE

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PENSAMENTOS POR GUSTAVO GOMEZ:

A sala de espera do hospital era fria e silenciosa, com apenas o som distante de passos e sussurros quebrando o peso da situação. Angel ainda estava de olhos fechados, tentando acordar quando o médico entrou, trazendo consigo a sentença de dor que nenhum de nós estava preparado para ouvir.

Ele se aproximou de nós com um semblante sério, seu rosto sem expressão enquanto nos observava. Não havia palavras para suavizar a verdade.

__ Sinto muito mamãe e papai mas o bebê não resistiu, tivemos a confirmação no último ultrassom.. sinto muito, não será necessário marcar uma curetagem já que a gestação era de dias...

O impacto daquelas palavras foi como um golpe direto no peito. O vazio tomou conta de mim instantaneamente, e eu tentei disfarçar a dor para Angel, para que ela não visse a minha fragilidade. Mas, ao olhar para ela, percebi que seu corpo estava inerte, frágil, à espera de algo que eu não sabia como oferecer.

Ela acordou com o som de minha respiração pesada, me virando lentamente para encará-la. Seus olhos estavam ainda turvos de sono, como se tentasse processar tudo o que estava acontecendo. Foi então que o médico repetiu a sentença, mais uma vez, a cruel verdade. Não resisti. Apenas me sentei ao lado dela, segurando sua mão com a força de quem não tem mais forças.

Angel entrou em choque imediato, eu não sabia identificar ao certo se ela já sabia que estava grávida ou se descobriu na mesma hora em que descobriu a perca, mas sua reação foi visceral. O rosto que antes tinha uma leveza, uma suavidade de quem esperava abraçar o futuro, agora estava tomado por um mar de emoções que eu não sabia como tratar. Os olhos dela estavam perdidos, fixos em algum ponto distante, e o choro veio como um rio impetuoso, incontrolável.

__ Eu... não posso acreditar. __ Ela murmurou, os lábios trêmulos, e mais uma onda de lágrimas a tomou. Aquelas tinham sido as primeiras palavras dela ao acordar, depois de dias.

A dor dela foi a minha dor, e ainda assim, naquele momento, ela parecia tão distante, tão perdida dentro de si mesma. Tentei falar, tentei dizer algo que a fizesse ver que eu estava ali, que estava disposto a ser seu apoio, mas nada parecia alcançar seu coração. Ela se afastou de mim com a mesma indiferença de quem não consegue lidar com a realidade que a cerca. Me olhava como se eu fosse um estranho, e isso cortou mais fundo do que qualquer palavra.

Ela se encolheu, mais uma vez imersa naquele silêncio profundo e angustiando, o qual eu não sabia como quebrar, ela não podia levantar da maca aonde estava mas eu sentia ela se afastar de outra maneira.

__ Angel... __ minha voz saiu rouca, quase um sussurro, mas ela não respondeu. Ela abriu os olhos devagar, me olhando com aquele olhar vazio, como se estivesse tentando me reconhecer, como se estivesse perdida em algum lugar distante.

Ela não disse nada. Apenas virou a cabeça de volta para o travesseiro e fechou os olhos deixando as lágrimas rolarem. Eu não sabia se estava aliviado por ela ainda estar respirando ou se estava devastado pela indiferença dela.

Levantei-me e saí do quarto em silêncio. Não fazia sentido ficar ali se ela não queria nada de mim. Mas minha cabeça estava uma bagunça, meu coração em pedaços. A dor de vê-la assim, tão quebrada, me consumia.

(...)

Os dias seguintes foram uma verdadeira tormenta. A mídia não ajudava. As notícias se espalharam rapidamente, e, enquanto Angel enfrentava sua dor, a imprensa continuava a me atacar, me culpando pelas acusações de Gabriel.
A mídia não parava de falar, de acusar, de espalhar mentiras sobre mim. Eu estava me afundando na confusão, mas o que mais me feria era saber que, enquanto tudo isso acontecia, Angel estava ali, me rejeitando sem nem perceber. Eu sabia que o luto dela não era só pela perda do bebê. Era pelo fim de um sonho que ela mesma nem tinha se quer criado por conta própria.

Amor contratado - Gustavo GómezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora