QUARENTA E UM

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PENSAMENTOS POR ANGEL:

Os dias na nova casa ao lado de Gustavo passaram como um borrão de luzes e sombras. Às vezes, eu acordava e sentia que estava em um sonho. Não pelo luxo que ele me oferecia – embora fosse impossível não notar o conforto de lençóis macios, do aroma das flores que ele fazia questão de trocar diariamente, ou da tranquilidade dos jardins que agora chamávamos de lar. Era pela presença dele. Sempre presente, sempre dedicado, mesmo depois de tudo o que eu fiz.

Eu perdi nosso bebê. Essa frase era um sussurro constante em minha mente, uma sombra que eu carregava. E, mesmo que as palavras nunca tenham saído de minha boca, sei que, de alguma forma, culpei Gustavo. Não por ele ser culpado, mas porque a dor precisava de um alvo, e ele era o mais próximo. Eu o destratei. Me fechei para ele. E, mesmo assim, ele ficou.

Gustavo sempre foi um provedor. Não apenas em termos materiais, mas na maneira como ele cuidava de mim, da nossa casa, do nosso silêncio. Ele sempre sabia quando respeitar minha distância, e, ao mesmo tempo, nunca me deixava sozinha. Era como se dissesse, sem palavras, "Eu estou aqui. Sempre estarei aqui."

E isso doía. Porque eu sabia que não merecia, aos poucos eu tentava me curar e deixar a culpa porque sabia que não tinha sido culpa minha mas as vezes a recaída vinha e me sentia sim culpada.

Por isso, me afastei também da minha carreira. Ser modelo parecia tão insignificante agora, tão vazio. Eu precisava me reconectar comigo mesma, com ele, com a mulher que eu era antes de tudo isso. Mas, para isso, precisava superar algo maior: o muro que eu havia erguido entre nós.

Mesmo com a gente voltando a se falar, com todos os detalhes que ele planejou para nos reaproximar e com a adoção dos animais, que agora era uma distração e uma fonte de felicidade para mim, eu sentia que a nossa intimidade havia ido por água abaixo. Não brigávamos mais como quando o casamento era apenas uma fachada; agora, nos entendíamos. Mas a química, o desejo, parecia ter desaparecido desde a perda do bebê. Eu me escondia, e ele respeitava o meu espaço.

EM OUTRAS PALAVRAS:

Nossa relação esfriou. No começo, culpei o luto. Depois, percebi que era eu quem segurava as chaves da distância. Gustavo tentava se aproximar, mas eu sempre recuava. Ele se aproximava com gestos, com olhares, com toques sutis. Mas a intimidade que compartilhávamos antes parecia um sonho distante.

Eu tentava tomar a iniciativa, mas nunca fui de fazer isso por homem nenhum, nem mesmo por Gustavo. Então, resolvi esperar pacientemente por uma nova aproximação dele.

Então, numa noite qualquer, ele chegou com um sorriso no rosto, segurando uma bandeja com uma garrafa de vinho e duas taças.

__ Angel, estas só nós dois. Vamos beber por favor, sem desculpas. — Sua voz era baixa, mas firme, e havia algo em seus olhos que me fez concordar, mesmo antes de responder.

Eu assenti, tímida, e ele me guiou até o jardim. Sob o céu tingido de azul escuro, ele estendeu uma toalha no gramado, onde um pequeno piquenique nos esperava. Não era sobre o luxo. Era sobre o gesto, sobre ele ter preparado aquilo com suas próprias mãos.

Sentamos lado a lado, e ele começou a falar sobre tudo o que estava em sua mente – a casa, os animais, os planos para o futuro. Ele falava, e eu ouvia, deixando que sua voz preenchesse os espaços vazios dentro de mim.

Quando o silêncio finalmente nos envolveu, ele se virou para mim, seu olhar sério e intenso.

— Yo nunca vou forçar nada, Angel. Yo sei que está sendo difícil para ti, mas yo só quero que saiba que estoy aqui. Sempre estarei, yo estoy com saudades de nosotros, saudades de nuestros momentos. Por favor, volta para mí, vuelve a ser lo que era.

Amor contratado - Gustavo GómezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora