Uma bruxa, magoada e com ego ferido, profetizou a ruína do rei de Celestia e a chegada de seu filho, que traria o fim à dinastia Magnus; a morte e a desonra andariam ao seu lado. Mas eram apenas boatos, histórias para assustar crianças, e Ellianor M...
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O cheiro da terra molhada misturava-se ao aroma das folhas em decomposição, um perfume agridoce que se espalhava pela floresta escura. Ele caminhava com passos pesados, mas silenciosos, como um predador cauteloso, os músculos tensos sob a pele marcada por cicatrizes de outras noites como aquela. A lua cheia o seguia, uma testemunha impiedosa, iluminando seu caminho e refletindo a inquietação que o dominava.
Suas mãos, ainda humanas, tremiam ao segurar o casaco de lã, puxado sobre os ombros para conter o frio que a transformação sempre deixava. Brant sabia que não poderia permanecer ali por muito tempo; o calor começava a ferver sob sua pele, e o familiar formigamento nas articulações era um aviso. As árvores sussurravam ao seu redor, balançando suavemente ao vento. Ele manteve os olhos fixos no caminho irregular à sua frente, desviando de raízes expostas e arbustos espinhosos. A aldeia estava a poucos quilômetros de distância, mas era uma distância que ele não ousava encurtar. Não esta noite. Não com a lua no auge.
Brant sentiu a mandíbula travar, um aviso do que estava por vir. Ele apertou os punhos, tentando conter o inevitável. A cada passo, a tensão aumentava, o corpo se preparando para ceder à maldição que ele nunca pedira. Ele ainda conseguia ouvir os gritos da última vez em que perdera o controle, o sangue escorrendo entre seus dedos, a aldeia despertada pelo caos.
Ele parou ao lado de um riacho raso, ajoelhando-se e lançando água gelada sobre o rosto. O reflexo que encontrou na superfície ondulante já começava a mudar — os olhos ficavam mais escuros, os traços mais duros.
— Não esta noite. — murmurou, como se pudesse enganar a lua.
Mas o som familiar de ossos se movendo, alongando-se, o fez fechar os olhos com força. O mundo começou a girar. A dor era uma velha conhecida, um grito surdo que percorria cada nervo enquanto ele caía de joelhos. Suas roupas rasgavam-se com estalos secos, e o frio da floresta desaparecia quando o calor da transformação tomava conta. Quando tudo cessou, ele ergueu-se sobre quatro patas, o ar pesado com o cheiro de terra e medo. O lobo de olhos dourados olhou ao redor, as orelhas alertas e o focinho farejando o perigo iminente. Mesmo em sua forma animal, Brant sentia a culpa humana. Sentia o peso do monstro que era.
Ele correu, afastando-se ainda mais da aldeia, correndo para o coração da floresta, onde sabia que sua fúria não encontraria vítimas. Mas, no fundo de sua mente, uma pergunta persistia: Quanto tempo mais ele poderia resistir antes de falhar de novo? Antes de ferir alguém novamente?
Suzana era a mulher de sua vida, a companheira que havia escolhido para todo sempre, porém, ele nunca poderia imaginar que um dia perderia o controle com ela. Justamente com a mulher que amava. Anos se passaram e o vazio continuou, até ser quase preenchido com a presença de Ellianor, no entanto, ela também se fora — e melhor, ele não perdeu o controle — , sabia que ela estava bem, que estava a salvo longe dele. Longe do perigo de ser morta pelo seu lado bestial. Mesmo que Brant tentasse aceitar seu destino, nunca conseguiu esquecer o sangue inocente de sua esposa em suas mãos, uma mancha eterna que permanecera em sua alma e que ainda dilacerava seu coração.