O jantar havia sido uma mistura de risos e trocas de olhares intensos, mas agora Agatha estava visivelmente mais relaxada. Ela já havia tomado alguns copos de vinho durante a refeição e, com o petit gâteau ainda na boca, seu sorriso estava mais solto, seus movimentos mais lentos e seus olhos um pouco turvos. Rio percebeu isso e, em um gesto cuidadoso, pegou a mão de Agatha enquanto elas se levantavam da mesa.
— Acho que você está um pouquinho bêbada, hein? — Rio falou com um sorriso suave, observando como Agatha parecia precisar de um pequeno apoio para manter a postura ereta.
Agatha riu, seus lábios ainda curvados em um sorriso largo. — Eu? Bêbada? Nunca! — ela balançou a cabeça com um tom brincalhão, mas logo se apoiou em Rio quando um leve desequilíbrio a fez dar um passo em falso. — Ok, talvez só um pouquinho...
Rio segurou firmemente a mão de Agatha, mais preocupada com ela do que queria admitir. — Você está adorável assim — disse, com um sorriso carinhoso. — Vamos te levar para o quarto antes que o vinho te derrube.
As duas caminharam em direção ao corredor, e a leve tontura de Agatha tornava cada passo um pouco mais arrastado. Ela olhou para Rio e, com um brilho travesso nos olhos, disse:
— Você me achou adorável quando... quando...? Ah! Quando... — Agatha parou, tentando organizar seus pensamentos. — Quando eu te dei aquele pedaço de sobremesa. Ou quando eu quase te comi ali mesmo.
Rio soltou uma risada suave. — Quando você me deu o pedaço, ou quando você decidiu me alimentar como se fosse uma criança? Ou a segunda opção. — Ela apertou a mão de Agatha, guiando-a até o quarto. — Você sabe que pode ser mais... provocante do que isso, não sabe?
Agatha se aproximou mais de Rio, segurando o ombro dela para apoio. Seus olhos estavam mais vivos, mas ainda mostravam a leveza do vinho. — Eu estava apenas brincando, amor. — Ela deu um pequeno beijo na bochecha de Rio, um gesto fofo, mas com uma camada de desejo que ainda se escondia por trás do sorriso doce.
Rio olhou para Agatha com um sorriso que exibia claramente o quanto estava encantada. Elas chegaram no quarto do navio, e Rio abriu a porta para ela, ajudando-a a entrar. Agatha estava leve, sem a pressão de manter a postura firme, e seus passos vacilantes fizeram Rio se aproximar mais, com a intenção de apoiá-la em cada movimento.
— Pode ir para a cama, vou te cobrir — Rio disse com um tom de voz suave, agora mais protetora.
Agatha se deitou na cama, ainda sorrindo de forma boba. — Você vai me cobrir? — ela brincou, seus olhos agora mais pesados, mas ainda brilhando com aquela chama travessa.
— Vou — Rio respondeu, aproximando-se da cama e acariciando o rosto de Agatha com ternura. — Mas só se você prometer que vai dormir, ok? Não gosto de fazer nada quando está bêbada. - Rio odiava quando Agatha bebia demais. Apesar de ser a própria personificação da morte, Rio nunca ficava verdadeiramente bêbada; no máximo, tornava-se mais alegre e descontraída. Ainda assim, Rio preferia vê-la sóbria. Para ela, a sobriedade de Agatha refletia a profundidade do respeito mútuo que compartilhavam, algo que sempre esteve acima de qualquer coisa em sua relação.
Agatha olhou para Rio, os olhos se estreitando levemente enquanto ela fazia um esforço para manter a compostura. — Só se você ficar aqui. — Ela piscou para Rio, deitando-se mais confortavelmente no travesseiro.
Rio sorriu e, com um último olhar de carinho. Enquanto ajeitava as cobertas em volta de Agatha, ela percebeu o quão adorável estava aquela cena, mesmo com a leve embriaguez de Agatha.
— Durma bem, my lady. — Rio sussurrou, passando os dedos pela testa dela com um toque suave.
Agatha fechou os olhos, ainda com o sorriso nos lábios. — Você sempre me faz sentir... segura. — Foi a última coisa que ela disse antes de finalmente ceder ao cansaço e adormecer.
Rio observou Agatha por mais alguns segundos, sorrindo em silêncio antes de sair do quarto. Ao fechar a porta, Rio foi até o parapeito, sentiu a brisa gelada, seus cabelos bagunçado. Rio amarrou seu cabelo em um coque, Rio saiu andando sozinha pelo navio. Ela já não usava sapatos, sentia o chão gelado contra sua pele. O mar escuro, tão escuro que mal sabem o que se tem lá no fundo. Rio parou por um estantes ao escutar a voz
— Rio, posso falar com você? — A voz feminina fez Rio parar e olhar por cima do ombro, encontrando a figura ruiva. — Serei breve.
— Diga. — Rio virou-se completamente, cruzando os braços abaixo dos seios. — Você tem cinco minutos.
— Sei que você é extremamente protetora com sua namorada, e eu entendo isso… — começou Wanda, hesitante.
— Vá direto ao ponto. — Rio interrompeu com firmeza.
— Quero que saiba que não precisa se preocupar comigo. Eu e Agatha nos perdoamos...
Rio manteve-se impassível, mas sua resposta veio afiada:
— Olha, Wanda, não me leve a mal, mas eu não gosto de você. E não vou fingir simpatia. A única coisa que me importa é a Agatha e meu filho. O resto... são apenas detalhes. Você fica com a sua família, e eu fico com a minha.
Wanda ficou em silêncio por um instante, processando as palavras de Rio. Respirou fundo antes de responder, tentando manter a compostura.
— Não vim aqui para brigar ou criar qualquer tipo de problema, Rio. Só achei que seria justo esclarecer as coisas.
— Esclarecer o quê? — Rio arqueou uma sobrancelha, sem esconder a impaciência. — Você já disse o que queria.
— Esclarecer que não sou uma ameaça. Eu e Agatha temos um passado, sim, mas isso ficou para trás. Ela ama você, e eu... bem, eu só quero paz.
Rio a observou com olhos críticos, o silêncio pesando no ar por alguns segundos. Então, descruzou os braços e deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas.
— Paz? — Rio repetiu, a voz baixa, quase um sussurro. — Wanda, para mim, paz é Agatha estar bem e protegida. E isso não inclui você.
Wanda engoliu em seco, mas não recuou.
— Entendi sua posição, Rio. Só espero que um dia você perceba que não sou o inimigo.
Rio deu uma risada seca, sem humor.
— Não preciso de inimigos quando tenho prioridades. E, no momento, você não é uma delas.
Sem esperar resposta, Rio virou-se e começou a se afastar, mas parou após alguns passos, sem se virar.
— E, Wanda... — disse ela, a voz carregada de um aviso final. — Não me dê motivos para mudar de ideia.
Wanda ficou ali, sozinha, sentindo o peso daquela conversa. Soltou o ar, frustrada, mas sabia que não havia mais o que dizer.
