Rio abriu a porta do mundo dos mortos com um gesto fluido da mão, revelando uma névoa densa e o cheiro agridoce que sempre a fazia sorrir.
— Amo esse cheiro — ela murmurou para si mesma, inspirando profundamente. — O cheiro das almas puras... e das podres.
Enquanto atravessava o limiar, seus olhos predatórios se fixaram em Thanos, sentado em um tronco ao lado de um rio negro, observando-a com um olhar calculista. Ele não disse nada, apenas ergueu o queixo em um cumprimento silencioso. Rio apenas o ignorou, seu semblante já não era mais humano, mas uma máscara de algo muito mais antigo e imponente.
Ela caminhou até um grupo de almas recém-chegadas, todas amontoadas em um canto, confusas e inquietas. Sem pressa, ela passou a mão na cabeça de uma das vítimas, que tremia ao menor contato. Seu toque parecia uma mistura de consolo e sentença.
Quando ela parou diante de uma jovem mulher, a alma ergueu os olhos lacrimosos para Rio, sua expressão assustada e incrédula.
— Está pronta? — Rio perguntou com uma voz baixa e reverberante, como se o peso do mundo estivesse embutido em suas palavras.
A mulher piscou várias vezes, como se ainda tentasse compreender.
— Eu morri? — ela perguntou, sua voz trêmula e carregada de desespero.
Rio acenou com a cabeça, mas manteve o silêncio, esperando que a mulher continuasse.
— Eu... não posso — ela sussurrou, balançando a cabeça freneticamente. — Eu tenho um filho, ele não tem mais ninguém! Ele estava comigo no carro... ele... ele está bem? Eu sou nova, não sou? É injusto! Eu não posso ter mais tempo?
Rio inclinou a cabeça ligeiramente, seus olhos analisando cada detalhe da alma à sua frente.
— Todos fazem as mesmas perguntas — respondeu ela, sua voz firme, mas não sem um tom de compreensão. — E agora você tem uma escolha. Pode aceitar seu destino e seguir para cima... ou pode ficar. Vagando.
A mulher arregalou os olhos, seu rosto uma máscara de agonia.
— Ficar? Mas... como isso ajudaria meu filho?
Rio não respondeu imediatamente, apenas observou enquanto o peso da decisão afundava sobre a mulher. Finalmente, ela murmurou:
— Pense bem. Sua escolha determinará mais do que imagina.
Rio ergueu a mão, e um brilho intenso se espalhou pelo espaço, chamando todas as almas dispersas. O ambiente ecoava com murmúrios e passos vacilantes enquanto elas se aproximavam, algumas hesitantes, outras aceitando silenciosamente o chamado inevitável.
— Todos para cá — ordenou Rio com uma voz que soava como o trovão distante, impossível de ignorar.
As almas formaram uma fila, conduzidas pela presença esmagadora de Rio, que liderava o caminho até o próximo portal. Com um gesto calculado, ela abriu outra passagem, revelando um vasto salão de luzes oscilantes, onde duas figuras imponentes aguardavam.
Os Guardiões estavam lá, como sempre, imutáveis em sua tarefa eterna. Um deles brilhava com uma luz dourada, irradiando calor e serenidade. O outro tinha uma aura escura e pesada, que parecia absorver toda a luz ao seu redor.
Rio parou no limiar, virando-se para as almas com uma expressão séria.
— É aqui que nosso caminho juntos termina — declarou. — Eles irão levá-los para cima... ou para baixo.
As almas murmuravam entre si, algumas ainda tentando processar suas mortes, outras aceitando o destino que as aguardava.
O Guardião dourado deu um passo à frente, sua voz soando como um coro angelical:
— Aqueles de coração puro, venham comigo.
Metade das almas avançou com cautela, seguindo a figura brilhante por uma escadaria radiante que parecia não ter fim.
O Guardião das sombras, por sua vez, apenas ergueu uma mão, e um portal negro se abriu ao seu lado, emanando uma energia fria e sufocante.
— O resto... comigo.
As almas restantes hesitaram, mas acabaram seguindo a figura sombria, seus passos ecoando enquanto entravam no abismo.
Rio observava tudo em silêncio, sua expressão impassível. Quando o último dos espíritos desapareceu, ela suspirou baixinho, como quem finaliza mais um dia de trabalho exaustivo.
Rio voltou para o mundo sombrio onde Thanos ainda estava sentado no tronco, observando-a com um sorriso enigmático. Seu olhar não era apenas de curiosidade; havia algo mais, algo que Rio percebeu imediatamente.
— Impressionante como você comanda as almas — comentou ele, em um tom que misturava admiração e provocação. — Quase como se fosse uma rainha deste lugar.
Rio ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços enquanto se aproximava lentamente.
— Sou mais que isso, Thanos. Eu sou a Morte. Rainhas se dobram ao tempo; eu sou eterna.
Ele riu, um som grave que ecoou pelas paredes vazias.
— Sempre tão afiada, Rio. É parte do que me atrai em você.
Ela parou de andar, fixando seus olhos, agora brilhantes como brasas, diretamente nos dele.
— Cuidado com as palavras, Thanos. Eu não sou algo que você pode conquistar.
Ele se levantou lentamente, sua presença dominadora preenchendo o espaço entre eles.
— Ah, mas quem melhor para andar ao lado da Morte do que alguém que já desafiou o destino tantas vezes? Nós seríamos... icônicos juntos.
Rio riu, mas não havia humor em seu som. Era um riso cortante, que fez o ar parecer ainda mais pesado.
— Você não tem ideia do que está falando. — Ela deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. — Eu não sou como seus brinquedos de poder. Eu não me dobro a ninguém, muito menos a alguém que acha que pode seduzir a própria Morte.
Thanos inclinou a cabeça, seus olhos percorrendo o rosto dela, tentando decifrá-la.
— Você é fascinante. Eu admiro isso em você.
— Admire à distância — respondeu Rio, girando nos calcanhares para sair.
Ele segurou seu pulso antes que ela pudesse se afastar completamente.
— Você vai me rejeitar assim tão facilmente?
Rio puxou o braço com um movimento firme, o suficiente para deixá-lo saber que não tolerava a mínima tentativa de controle.
— Tente isso de novo, e o próximo lugar que você verá será o abismo mais profundo que eu puder criar.
