034. tabueleiro

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O dia estava terminando, e Agatha estava sentada no sofá. Sozinha, a casa mergulhava em um silêncio absoluto. Ela segurava um livro antigo aberto, mas sua mente vagava para longe. Ela e Rio haviam concordado em mudar de casa. Westview já não era mais o lar de Agatha, não depois de tudo o que aconteceu.

— Agatha? — chamou Rio, aproximando-se. Agatha, absorta em seus pensamentos, não percebeu a aproximação. — Ei, meu amor... — Rio tocou sua perna, fazendo-a se sobressaltar. — Calma, é só a morte vindo te visitar.

— Boba — respondeu Agatha, fechando o livro de capa dura. Ela ajeitou-se no sofá, retirou os óculos escuros e fez um gesto chamando Rio para sentar-se ao lado. Rio se aproximou, segurando uma caixa nas mãos.

— O que é isso, hein? — perguntou Agatha, balançando os ombros e inclinando a cabeça devagar, curiosa.

— É um jogo... e eu queria muito jogar com você — respondeu Rio, mordendo levemente os lábios. — Você vai gostar, eu prometo.

— Me explica, quais são as regras?

— Não é um jogo qualquer. É mágico, criado pelos ancestrais. Você tira uma carta e responde com sinceridade; só assim você avança no tabuleiro. Mas, se mentir, o jogo não deixará você progredir.

Agatha ergueu uma sobrancelha, encarando a caixa com curiosidade. A ideia de um jogo mágico parecia intrigante, mas também carregava um certo ar de mistério que ela não podia ignorar.

— Parece interessante — disse ela, pegando a caixa das mãos de Rio. — Mas o que acontece se eu decidir não jogar?

Rio sorriu, um sorriso enigmático, como se já esperasse essa pergunta.

— Bem, não há consequências se você desistir... mas, se começarmos, o jogo exige que terminemos. Ele não gosta de ser ignorado.

Agatha franziu o cenho, mas sua curiosidade foi maior. Ela abriu a caixa cuidadosamente, revelando um tabuleiro feito de madeira polida, com símbolos entalhados que pareciam brilhar sob a luz fraca da sala. Junto com o tabuleiro, havia um baralho de cartas e pequenas peças que pareciam feitas de cristal.

— É mais bonito do que eu imaginava — comentou Agatha, deslizando os dedos pelo tabuleiro.

— E também é muito mais perigoso — respondeu Rio, sentando-se ao lado dela.

— Perigoso? — Agatha perguntou, olhando diretamente para Rio.

— Sim. O jogo sabe coisas sobre você... sobre nós. Ele vai fazer perguntas difíceis, coisas que talvez preferíssemos deixar enterradas. Mas, se formos honestas, podemos aprender muito, não só sobre o jogo, mas também sobre nós mesmas.

Agatha hesitou por um momento. As palavras de Rio soaram como um desafio, e ela nunca foi de recuar diante de um desafio.

— Tudo bem, vamos começar — disse Agatha, pegando a primeira carta do baralho. Ela a leu em voz alta:

“Revele um momento de sua vida que você gostaria de esquecer, mas que ainda carrega com você.”

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase tangível. Agatha respirou fundo, seus olhos fixos na carta enquanto ela ponderava sobre a resposta.

— Quando perdi o controle da minha magia em Salem — disse ela, finalmente, sua voz baixa, quase um sussurro. — A dor, o caos... a destruição que causei. Isso ainda me assombra.

O tabuleiro reagiu imediatamente, emitindo um brilho suave. A peça de cristal que representava Agatha moveu-se para frente uma casa. Rio sorriu, satisfeita.

— Sua vez agora, meu amor — disse Agatha, entregando o baralho para Rio.

Rio pegou uma carta e leu em voz alta:

“Se pudesse mudar uma decisão importante do passado, qual seria?”

O sorriso de Rio desapareceu, substituído por uma expressão séria. Ela olhou para Agatha, seus olhos refletindo algo que Agatha não conseguia decifrar de imediato.

— Eu teria protegido você melhor — respondeu Rio, sua voz firme, mas com um toque de vulnerabilidade. — Eu teria ficado ao seu lado em Westview, ao invés de deixá-la enfrentar tudo sozinha.

O tabuleiro brilhou novamente, e a peça de Rio também avançou.

Agatha encarou Rio por um longo momento antes de segurar sua mão.

— Talvez esse jogo seja mais revelador do que eu esperava — murmurou Agatha.

— E nós só começamos — respondeu Rio, apertando suavemente a mão de Agatha.

Agatha segurou o olhar de Rio por mais tempo do que o necessário, os dedos ainda enlaçados aos dela. A intensidade do momento era palpável, como se cada respiração entre as duas carregasse um peso invisível.

— Você sempre teve essa facilidade de me desmontar, não é? — Agatha perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

Rio arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso surgindo no canto dos lábios. Ela se aproximou ligeiramente, diminuindo ainda mais a distância entre elas.

— Eu diria que é mais uma troca justa, Agatha. Você me desmonta todos os dias.

Agatha piscou, tentando manter sua compostura habitual, mas falhando miseravelmente. Rio sabia exatamente como provocá-la, e estava fazendo isso agora com um olhar que queimava como fogo.

— Muito bem, sua vez, Agatha — disse Rio, sua voz carregada de um tom desafiador, enquanto empurrava suavemente o tabuleiro na direção dela. — O que você teria mudado no passado?

Agatha pegou a peça, mas em vez de se concentrar no jogo, inclinou-se ligeiramente para frente, sua mão livre deslizando casualmente pela mesa até roçar os dedos de Rio.

— Eu teria feito isso antes.

Rio não teve tempo de perguntar o que ela queria dizer antes de Agatha encurtar a distância entre elas ainda mais. Seus rostos estavam tão próximos que ela podia sentir a respiração de Agatha.

— Feito o quê? — Rio perguntou, a voz um pouco rouca, a provocação habitual agora misturada com algo mais profundo.

— Provado que há coisas que nem o tempo pode apagar — respondeu Agatha, sua voz carregada de promessa.

Rio inclinou a cabeça levemente, os olhos fixos nos lábios de Agatha.

— E o que você pretende fazer sobre isso agora? — provocou Rio, os dedos de Agatha ainda deslizando sobre os seus.

Agatha sorriu. Era um sorriso que Rio conhecia bem, um que prometia o inesperado. Ela se levantou lentamente, puxando Rio consigo.

— Vou mostrar a você.

Rio mal teve tempo de responder antes de ser conduzida para o quarto. Cada passo que elas davam juntas parecia carregado de eletricidade. Quando Agatha abriu a porta do quarto, parou e se virou para encarar Rio.

𝐒𝐨𝐛 𝐨 𝐯é𝐮 𝐝𝐚 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞-𝐀𝐠𝐚𝐭𝐡𝐚𝐫𝐢𝐨Onde histórias criam vida. Descubra agora