A rivalidade entre os MCs Apollo e Jotape é intensa, os dois artistas são opostos em todos os sentido. No entanto, o clima entre Luna, a irmã de Jotape, e Apollo aumenta a cada dia. Luna precisa escolher entre apoiar seu irmão ou seguir seu coração...
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Eu estava feliz. Não só pelo momento, mas pelo que ele representava. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que pertencia a um lugar que não era só meu, mas que me acolhia como se fosse. Sentado no banco da academia do hotel, observava Luna de longe, enquanto ela ajustava o cabelo antes de começar a correr na esteira. Minha mente viajava pelo caminho que me trouxe até aqui. Quando conheci a Luna, tudo parecia ser só mais um ciclo de amizade casual dentro do cenário das batalhas. No início, eu via Luna apenas como "a irmã do Jotape", uma presença forte que estava sempre ao lado dele, como se fossem uma dupla inseparável. Com o tempo, a forma como eu enxergava ela mudou. Luna era braba, isso todo mundo sabia. Mas ela também era intensa, insegura e, ao mesmo tempo, cheia de coragem. Eu vi de perto o quanto ela lutava contra os próprios medos, o quanto tentava se provar para o mundo e para si mesma. E talvez tenha sido aí que eu me vi nela. Dois artistas tentando encontrar um lugar de pertencimento no meio de tanta batalha, literal e metaforicamente.
Hoje, eu não sou mais só o cara que batalha contra ela no palco. Não sou só o parceiro de som, o rival nas rimas, o nome que aparece do lado do dela nos vídeos da internet. Eu sou alguém que ela deixa entrar no espaço dela. E isso, vindo de Luna, significa mais do que qualquer título.
— Vai treinar ou vai ficar me encarando? — A voz dela me puxa de volta para a realidade. Ela já estava na esteira, me olhando com aquele sorriso de canto.
— Tô só pegando inspiração. — Brinco, me levantando e indo até a esteira ao lado da dela.
Ela revira os olhos, mas eu vejo o sorriso ainda ali.
Começamos um treino leve. Eu percebo que ela está mais focada no próprio ritmo do que na conversa, então deixo o silêncio confortável se instalar entre nós. Entre um passo e outro, me pego pensando no que a gente tem. No que a gente é. Não sei dar nome pra isso, e acho que ela também não. Mas eu sei que é real.
— No que você ta pensando tanto hoje? — Ela pergunta saindo da esteira e fixando seu olhar em mim.
— Eu tava pensando na gente, no que a gente passou pra chegar até aqui, sabe?— Respondo indo até ela que estava sentada em um dos bancos da academia com uma garrafa de água. — Nos últimos meses, tudo mudou tão rápido. Se me dissessem há dois meses atrás que eu estaria aqui, me sentindo parte da sua vida e da sua família, eu não acreditaria. Eu e o Jotape nem nos suportávamos, e agora ele me deu espaço, me enxergou além das batalhas, além da rivalidade. E eu vi nele um cara leal, alguém que realmente quer o seu bem. Passei esses dias com vocês e percebi o quanto tudo isso é mais do que rima, mais do que palco. São as conexões que a gente constrói, os momentos que a gente divide, o apoio que a gente dá um pro outro. E eu tô feliz por fazer parte disso, por estar ao seu lado e poder te apoiar e também saber que tenho seu apoio.
Luna me olhou por um instante, como se estivesse absorvendo cada palavra que eu tinha dito. Ela suspirou, um pequeno sorriso se formando no canto dos lábios, e depois desviou o olhar para o chão, como se estivesse organizando os pensamentos antes de falar.
— Sabe, Apollo... eu nunca fui muito boa em deixar as pessoas entrarem na minha vida. Sempre tive essa mania de achar que era melhor segurar tudo sozinha, que depender de alguém era um risco. Mas você... — ela mordeu o lábio e voltou a me encarar. — Você apareceu e foi ficando. Foi quebrando as barreiras sem nem perceber, foi se tornando alguém que eu quero por perto, não só nas batalhas, mas na vida.
Ela soltou um riso leve, balançando a cabeça.
— E ver você e o Jotape se aproximando foi uma das coisas mais inesperadas e mais legais disso tudo. Porque ele sempre foi minha base, minha família de verdade. E agora, ver vocês dois se entendendo, se respeitando, até zoando um ao outro... isso significa muito pra mim.
Ela se aproximou um pouco mais, colocando a mão no meu braço de leve.
— Então, sim... tudo mudou muito rápido, mas não de um jeito ruim. Eu gosto do que a gente tá construindo. Gosto de ter você aqui.
Eu aperto de leve a mão dela que ainda descansa no meu braço. O toque é sutil, mas carrega tudo o que eu queria dizer sem precisar de palavras. Luna percebe e solta um suspiro, como se aquele simples gesto fosse suficiente para acalmá-la por um instante.
— Você faz isso parecer fácil — ela diz de repente, me olhando de canto.
— Isso o quê?
— Ficar. Se aproximar. Fazer com que as coisas pareçam mais simples do que são. — Ela solta uma risada fraca. — Acho que eu sempre tive medo de que, se alguém chegasse muito perto, uma hora ou outra fosse embora. Mas você... não parece ter pressa de ir.
Eu me inclino um pouco para frente, apoiando os antebraços nas pernas, e balanço a cabeça.
— Eu não tenho. — Minha voz sai firme, porque é a verdade. — Eu escolho estar aqui. E não é porque eu preciso, é porque eu quero. E quero que você entenda isso de uma vez por todas.
Ela me encara por alguns segundos, como se tentasse absorver cada palavra, e então dá um sorriso pequeno, um daqueles sinceros, que vêm de dentro. Não diz mais nada, apenas assente, como se finalmente acreditasse.
Por alguns minutos, ficamos apenas ouvindo o som das nossas respirações. O silêncio entre nós nunca foi desconfortável. Pelo contrário, ele tem um peso bom, como se não precisássemos preencher cada espaço com palavras. Mas logo percebo algo no olhar dela, como se estivesse prestes a dizer algo mais.
— Você tá ansiosa? — Pergunto depois de um tempo.
Ela respira fundo antes de responder.
— Sempre fico. Mas acho que dessa vez é diferente. Eu sinto que... tô mais preparada, sabe? Não só pra batalha, mas pra tudo que vier depois dela. — Ela olha para mim rapidamente antes de voltar a encarar as paredes ao nosso redor. — Acho que tô aprendendo a confiar mais no que eu sou.
Um pequeno sorriso cresce no meu rosto. Porque é exatamente isso. A Luna que tá aqui hoje não é a mesma de meses atrás. E eu me sinto privilegiado de poder ver essa evolução tão de perto.
— Você sempre foi braba, só faltava perceber isso. — Digo, sincero.
Voltamos pro treino mais alguns minutos antes de diminuirmos o ritmo. Ela para primeiro, pegando uma toalha e se sentando no banco novamente, respirando fundo. Eu paro ao lado dela, bebendo um pouco de água.
— Sabe... — Ela começa, brincando com a tampa da garrafa. — Eu nunca achei que alguém além do João fosse entender tão bem esse meu mundo. Mas você tá aqui. E sei que não precisa estar, mas ainda assim escolhe ficar. — Ela me olha, e é um daqueles olhares que não precisam de palavras para serem entendidos.
Eu não respondo de imediato. Apenas estendo a mão e entrelaço nossos dedos, do jeito que já virou costume. Ela não recua, nem hesita. Apenas segura de volta.
— Eu escolho ficar porque vale a pena. — Digo, sem rodeios.
Ela assente, como se absorvesse aquilo, e então se levanta, puxando minha mão junto.
— Então anda logo, porque agora a gente vai pra piscina. Você tá precisando relaxar essa mente, poeta.
Eu rio e a sigo, sentindo que, independente do que aconteça daqui pra frente, esse já era um dos momentos mais importantes da minha vida.
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Ponto de vista do Apollo de novo depois de muito tempo 🙌🙌🙌