XXXIX

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Chegamos a sala e eu joguei algumas almofadas para o lado, liberando espaço para ele se sentar.
 

  — Não é tão chique quanto o sofá da sua casa, mas quebra um galho.
 

  — Que isso. Seu chalé é aconchegante. De muito bom gosto.
 

  Observei o entorno acompanhando a vistoria que Asaloom fazia.
 

  — A escola que o alugou e algumas coisas já estavam assim. Eu precisei mudar muito pouco.
 

  Outra olhada dele, assentindo enquanto eu falava. Depois Asaloom arregalou os olhos levemente.
 

  — Nossa, ainda devo estar úmido da chuva e me sentei no seu sofá. Desculpa — Disse preocupado.
 

  — Fica tranquilo. Não parece tão molhado assim. Se importa se eu abrir um vinho?
 

  — Vinho? Gosta de vinhos?
 

  — Não sou uma grande conhecedora, mas sempre tenho uma garrafa.
 

  — Suave ou seco?
 

  — Seco, sempre. Bebia vinho suave quando era nova, mas após experimentar vinho seco, o suave nunca mais agradou o meu paladar.
 

  — Vinho suave não é vinho. — Desdenhou ele com presunção — Ainda bem que o seu gosto mudou.
 

  — Então vai me acompanhar em uma taça? É vinho chileno — Eu dizia isso enquanto caminhava para o armário — Safra de dois mil e dezesseis. — Gritei da cozinha ao ler o rótulo na garrafa.
 

  — Vinho chileno é ótimo, quase não tem como errar. Acho que vou aceitar, mas sem exageros.
 

  Logo puxei duas taças e voltei com a garrafa para a sala, dispondo na mesa de centro entre mim e Asaloom.
 

  — Que tipo de música você gosta?
 

  Há tempos que ninguém me fazia aquela pergunta. A última vez que ouvi uma canção foi indo do aeroporto para Sundale. Paramore.
 

  — Rock, eu acho. Mas em épocas sombrias da minha vida eu ouço divas dos anos noventa.
 

  —  Withney Houston? Celine Dion?
 

  Achei que Asaloom fosse rir da minha cara, me achando brega ou coisa do tipo.
 

  — Isso. Mas eu evito que saibam. Como comentei, são épocas sombrias.
 

  — Não julgo. Eu gostava dessa época da música, quando as canções românticas dominavam as paradas de sucesso.
 

  — Tá falando sério? Eu curto o som, a estética. As vozes dessas cantoras. Nunca mais vi nada igual.
 

  — Uhum. Concordo em, gênero, número e grau com você. Eu cheguei a ir a um show da Withney Houston do Madison Saquare Garden em Nova York.
 

  — Quando?
 

  — Hum, acho que foi em noventa e três ou noventa e quatro. Tinha acabado de sair aquele filme do guarda-costas.
 

  — Pera, que idade você tinha na época? Doze anos? Você não parece ter nem perto de quarenta. E esse show deve ter sido há uns trinta anos, pelos meus cálculos.
 

  Asaloom riu, me olhando vagamente.
 

  — É, talvez quase isso... — Murmurou dando um gole no vinho — Eu sempre tive bom gosto.
 

  O olhar dele era o mesmo que vislumbrei na noite anterior, quando a pedra flutuava rente ao meu rosto. Como se Asaloom escondesse algo ou omitisse um segredo. Mas guardei isso para mim, não era o momento ideal para aborrecê-lo com as minhas suspeitas. Asaloom poderia se zangar e levar Violet embora.
 

  Nada de tocar em assuntos delicados, como a tal pedra flutuante.
 

  — E quanto a você? Qual o seu estilo favorito de música? — Devolvia a pergunta.
 

  — Música clássica, com toda certeza do mundo. Já esteve no baile de ópera de Viena, na Áustria?
 

  Eu gargalhei tragando o vinho.
 

  — Claro que não. Eu nunca nem saí do país.
 

  — Se tivesse ido, entenderia do que estou falando. Mas creio que não faltará oportunidade. Vá assim que puder!
 

  Logo puxei meu celular e abri no Youtube.
 

  — Tem vídeos sobre isso? Sobre esse tal baile chique em Viena? — digitei na barra de pesquisa.
 

  — Não sei.
 

  — Ah, é isso aqui? — Apontei a tela para Asaloom.
 

  — É, é sim. — Um sorriso saiu dos lábios dele de uma maneira muito empolgada.
 

  Realmente o baile parecia ser muito bonito, como o das grandes coortes dos reinos que víamos em livros ou contos de fadas. Asaloom fechou os olhos sentindo a música.
 

  O contemplei por alguns segundos movendo a cabeça lentamente, no ritmo da música.
 

  — Posso fazer uma coisa, Mahana?
 

  — Claro. O quê?
 

  Asaloom levantou-se da poltrona após deixar a taça sobre a mesa de centro. Ele afastou o sofá de dois lugares um pouco para trás e ficou parado diante de mim, com as mãos estendidas.
 

  — Me daria a honra de uma valsa?
 

  — Mas eu não sei dançar, Asaloom. Acho melhor deixar para outro momento.
 

  — Ah, que isso. Apenas venha, sim? Confia!
 

  Que mal* haveria em me permitir alguns tropeços na sala da minha casa?
 

  Eu também deixei o meu vinho sobre a mesa e estendi a mão para Asaloom.
 

AsaloomOnde histórias criam vida. Descubra agora