Desculpa

169 18 2
                                        

Após sete dias intensos ao lado de Janja, cheios de risos, toques e tudo aquilo que fazia Simone esquecer o mundo, ela decidiu que era hora de voltar pra casa. Precisava dormir em sua própria cama, sentir o silêncio que só o lar poderia oferecer. O celular vibrava insistente no bolso, mas ela não atendeu. Janja havia pedido que ignorasse tudo por um tempo — só assim talvez ela conseguisse esquecer o que doía.

Ao chegar, o relógio já marcava altas horas, e estranhamente sua mãe estava acordada, mexendo em algo na cozinha.

— Oi, mãe… — falou, surpresa.

— Oi, filha. Chegou.

Simone apenas assentiu e subiu as escadas, sentindo um aperto no peito. Quando abriu a porta do quarto, deu um leve sobressalto.

Soraya estava ali. Deitada em sua cama. Os cabelos bagunçados, a saia colada no corpo, a blusa branca quase amassada. Dormia profundamente, como se aquele lugar ainda fosse seu.

— Mãe! — chamou, em voz baixa. — O que ela tá fazendo aqui dormindo na minha cama?

— Ora, Simone… você tá fugindo dela tem uma semana.

— Isso não justifica! Ela sabe bem por que tá sendo ignorada.

— Bom, filha… eu não sei o motivo. Só sei que ela veio, ficou aí esperando… e dormiu. Enquanto isso você tava com a janja…

— Mamãe, leva ela embora. Por favor.

Nesse momento, com a voz das duas, Soraya despertou lentamente.

— Eu não vou embora, Sisa — disse com firmeza, ainda sonolenta.

— Jura? Mas devia, meu amor.

— E quem vai me tirar daqui? Você?

— Mas é muito afrontosa mesmo, né…

— Faite… deixa eu conversar sozinha com a Sisa, por favor?

— Não, mãe. Fica aqui! — suplicou Simone, mas a mãe apenas suspirou e saiu, decidindo respeitar o momento.

Agora as duas estavam frente a frente. O silêncio cortante tomou conta por alguns segundos.

— O que você quer, Soraya? Mentir?

— Você devia me escutar… aquilo não foi minha intenção.

— Ah, amiga… não era sua intenção? Poxa… — Simone disse com sarcasmo e dor nos olhos. — Me sinto arrasada em escutar isso.

— Eu tava muito bêbada, amor. Você sabe disso…

— Que se foda, Soraya! A Janja me avisou que você viria mentir de novo.

— Simone, porra… me entende. Eu não queria aquilo! Eu tentei dizer não… mas o álcool… eu não era eu.

— Soraya… você gosta dele. Não de mim. Não precisa explicar mais nada. No dia da festa da minha mãe, você mesma disse que ele era o seu passatempo.

— Não, Sisa… não. Eu amo você. Eu tava me sentindo sozinha. Aconteceu. Me perdoa, por favor…

— Eu não tenho nem mais força pra sentir raiva… Janja me disse que certas coisas não voltam mais a ser como antes. Talvez você já esteja mesmo começando a amar outra pessoa — disse Simone, indo até a cama e se jogando ali, virando de lado.

Soraya subiu em cima dela, tentando forçar um contato visual.

— Sisa… desculpa. Eu não queria te deixar insegura. Eu te amo, me perdoa. Isso nunca mais vai acontecer, eu juro.

— Eu tenho medo, Soraya. Você sabe o meu estado. Minha saúde… eu luto todos os dias pra lembrar de tudo. De você. Do nosso casamento. Da minha mãe. Do meu pai. Dos meus irmãos…

— Eu sei, amor. Desculpa. Eu prometo que não vou fazer mais isso. Por favor, me perdoa — disse chorando, com a voz embargada.

— Só não me machuca de novo, Soraya. Eu te amo… mas eu também aprendi a viver sem o seu amor. Eu consigo. Eu sobrevivo. Mesmo longe de você.

— Não, amor… não. Me dá mais uma chance. Eu vou te provar. Me desculpa… — suplicava entre lágrimas, com a alma no chão.

Simone não disse mais nada. Apenas olhou nos olhos dela por um longo instante. Depois a puxou devagar para um beijo lento, cheio de saudade, de dor, de amor e de dúvida. Era um beijo de despedida ou de recomeço?

Quando se afastaram, trocaram alguns selinhos suaves, como promessas silenciosas.

Simone havia decidido dar sua última chance.

Mas no fundo, sabia: se aquilo se repetisse, nunca mais voltaria.






Poxa será que isso é verdade?

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora