— Mãe! A médica disse que em alguns meses eu posso recuperar a memória toda! — o sorriso iluminava seu rosto como o sol da manhã.
Sua mãe, que estava na cozinha, saiu apressada, enxugando as mãos no pano de prato.
— Minha filha, sério? — ela correu e abraçou Simone com força. — Graças a Deus! Eu sabia que isso ia acontecer, sabia!
Soraya ficou um pouco atrás, sorrindo com um orgulho silencioso, mesmo com o coração ainda um pouco apertado.
— Eu só preciso avisar a Janja agora — disse Simone, com naturalidade, pegando o celular.
O sorriso de Soraya desapareceu na hora. Seus olhos perderam o brilho e seus lábios se apertaram.
— Vou subir, preciso trocar de roupa — disse Simone, começando a subir as escadas. No meio do caminho, notando que Soraya não a seguia, parou e virou o rosto por sobre o ombro. — Você não vem?
Soraya hesitou, mas subiu em silêncio.
No quarto, Simone tirava os sapatos quando Soraya entrou e fechou a porta com calma.
— Por que você quer contar tudo pra Janja? — a voz era suave, mas carregava um incômodo nítido.
— Porque ela é minha melhor amiga — respondeu Simone, ainda de costas.
— Eu sou, Simone. Sou eu a sua amiga — Soraya deu um passo à frente. — Ou pelo menos… tô tentando ser.
Simone se virou devagar, olhando nos olhos dela.
— Eu sei, Soraya. Mas... é diferente.
— Não é diferente. — A voz de Soraya tremeu levemente. — Eu sei que você tem medo, que ainda tá se curando. Mas eu tô aqui... e eu quero estar do seu lado, seja como esposa, amiga, o que for. Mas você não precisa dividir tudo com a Janja.
Simone desviou o olhar, cruzando os braços.
— Você tá com ciúmes...
— Talvez — Soraya admitiu, se aproximando com um meio sorriso. — Mas é porque eu gosto de você. E eu quero estar perto... sem pressa, sem forçar. Só quero que me veja.
Simone resmungou baixinho, como quem não queria admitir que Soraya tinha razão.
Soraya sorriu, e num gesto suave, agarrou a nuca de Simone, puxando-a para perto. Começou a distribuir selinhos delicados — na bochecha, no queixo, na pontinha do nariz.
— Para, Soraya — Simone tentava escapar, mas a risada já estava escapando. Gargalhou alto, com uma alegria que fazia o peito de Soraya se encher.
— Você é minha chata preferida — disse Simone, rindo, encostando a testa na de Soraya.
— E você, minha confusa favorita — respondeu Soraya, num tom doce.
As gargalhadas de Simone ainda ecoavam pelo quarto quando, de repente, ela agarrou Soraya pela cintura e a puxou de encontro ao seu corpo. Os olhos se encontraram por um segundo, e então seus lábios se tocaram.
O beijo começou lento, quase tímido, como se estivessem se redescobrindo. Mas em questão de segundos, a vontade guardada explodiu. As línguas se encontraram com desejo, os corpos se apertaram ainda mais. Simone mordiscou os lábios de Soraya, arrancando um suspiro pesado e profundo dela. Soraya levou as mãos até a blusa de Simone, desabotoando-a lentamente, botão por botão, como se cada gesto tivesse significado.
O clima era denso, elétrico.
Mas o som repentino da porta se abrindo cortou o momento como uma faca.
— Simone?! — a voz de Janja soou firme, com um toque de falsa surpresa.
Assustada, Simone empurrou Soraya com leveza, afastando-se rapidamente. O peito arfava, a blusa semiaberta ainda balançava em seu corpo. Os olhos se arregalaram ao ver Janja parada ali, de braços cruzados, expressão indefinida entre choque e frieza.
— Janja?! O que você tá fazendo aqui?
— Eu vim te ver — respondeu ela, com a voz calma demais. — Mas... vejo que você está bem ocupada. É melhor eu ir.
— Não! — Simone deu um passo à frente, ainda ajeitando a blusa. — Não vai. Fica, por favor.
Soraya, ao lado, suspirou com raiva e virou o rosto, cruzando os braços, tentando conter a mágoa e o ciúme que queimavam no peito.
Janja sorriu. Um sorriso doce por fora, mas cheio de veneno por dentro. Seu plano estava funcionando. Ver Simone confusa e culpada só a aproximava mais de seus objetivos.
— Tem certeza, sisa? — disse ela, com falsa inocência. — Soraya não parece gostar muito da minha presença.
— Não imagina... — Simone tentou se recompor. — Fica. Eu queria conversar com você.
Soraya encarou Simone com os olhos marejando, mas permaneceu em silêncio. A decepção era nítida.
Janja entrou no quarto com passos leves, mas sua presença parecia pesar toneladas. Sentou-se na beira da cama, observando Soraya como quem marca território. Simone ficou entre as duas, dividida, com o coração acelerado — mas por razões diferentes para cada uma delas.
O clima estava estranho, sufocante.
E Janja sabia disso.
Ela apenas sorriu, baixando os olhos e sussurrando:
— Eu sempre apareço na hora certa, né?
Affs janja atrapalhou a foda!🙄
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amnésia
FanfictionSimone sofre um acidente voltando do trabalho e perde a memória. Soraya, frustrada e cansada, tem que lidar com a amnésia da esposa e os conflitos não resolvidos do casamento.
