memória que sangra

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O carro seguia pela estrada molhada, os faróis cortando a escuridão da madrugada. A chuva tamborilava no para-brisa como dedos apressados, e Simone, no banco do motorista, apertava o volante com força. O coração acelerado, a mente cheia — havia discutido com Soraya horas antes e saído dirigindo sem rumo, como quem foge de si mesma.

As palavras de Soraya ecoavam em sua cabeça: “Você precisa parar de fugir, Simone!”
E ela gritou de volta: “E você precisa parar de me controlar!”

Mas agora, sozinha, aquilo parecia tão pequeno diante da velocidade do carro, do céu fechado e do buraco no peito.

De repente, uma curva. Os pneus deslizaram na pista molhada. Simone tentou frear, mas o carro rodou, perdeu o controle, e tudo virou caos.

Um estrondo. O impacto. A cabeça batendo com força. Um gosto metálico na boca.

E então… vozes. Gritos abafados.

— Simone! — era Soraya. Ela estava ali. Como?

A imagem era turva, mas estava lá. Soraya ajoelhada na estrada, encharcada, com o rosto banhado em lágrimas e as mãos segurando o rosto ensanguentado de Simone.

— Fica comigo, por favor! Me escuta! — ela dizia, desesperada. — Você vai ficar bem, eu tô aqui… eu tô aqui…

Simone tentou falar, mas a voz não saiu. Tudo foi se apagando, menos o toque quente das mãos de Soraya no seu rosto frio.

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O carro de Soraya parou na frente de casa. O silêncio entre as duas era pesado. Simone olhava pela janela, o rosto pálido, a respiração ainda descompassada.

Soraya saiu primeiro, deu a volta e abriu a porta para ela. Simone desceu devagar, com os olhos baixos, até que parou no meio do caminho, diante da porta da casa. Ficou imóvel por alguns segundos, como se o ar ao redor tivesse congelado.

— Soraya… — disse baixo, quase como um sussurro.

— O que foi?

— Eu… tive um sentimento estranho no carro. Como se meu coração lembrasse de algo antes da minha mente. E então… eu vi.

Soraya se aproximou, atenta.

— O quê que você viu?

Simone ergueu os olhos, marejados.

— O acidente. Eu lembro. A chuva, a curva, o impacto. Mas, mais do que isso… eu me lembro de você.

Soraya prendeu a respiração.

— Lembra de mim?

— De você me segurando na estrada. Chorando. Me chamando. Foi a última coisa que eu vi antes de tudo escurecer.

Soraya sentiu o peito apertar, como se todas as dores que guardou até agora se abrissem de novo. Ela se aproximou e segurou a mão de Simone.

— Isso significa que sua memória está voltando?

Simone assentiu, com a voz trêmula.

— Talvez. Não sei. Mas foi tão forte… tão real… Eu senti medo, dor, mas também senti você. Como se, mesmo no fim, eu soubesse que você ia estar lá.

Soraya passou a mão no rosto de Simone com delicadeza, afastando uma mecha úmida que caía sobre sua testa.

— Eu estive. E vou estar. Sempre. Até você lembrar de tudo. E mesmo se não lembrar… eu continuo aqui.

As duas ficaram em silêncio por um instante. A noite estava fria, mas o calor entre as mãos delas parecia manter tudo firme.

— Vamos entrar? — perguntou Soraya, com voz baixa.

— Vamos — respondeu Simone, ainda com os olhos marejados, mas agora com um leve sorriso de quem reconhece algo — mesmo que não seja totalmente claro ainda.

As duas entraram na casa de mãos dadas. A porta se fechou atrás delas, deixando do lado de fora o vento, a festa, Janja, e tudo o que era incerto.

Lá dentro, havia apenas uma esperança silenciosa: a de que o amor conseguiria reconstruir o que o acidente quebrou.








Amigas, a noite tem mais bjs

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