pequeno recomeço

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Dois meses haviam se passado desde a morte de Janja.

O tempo não apagou a dor, mas a transformou em saudade. Uma saudade silenciosa, que às vezes batia no peito de Simone como um sussurro do passado. Ela não foi ao enterro — não teve coragem. Ficou em casa, encolhida, tentando entender por que aquilo ainda a machucava tanto, mesmo que já tivesse feito suas escolhas.

Agora, com a memória completamente restaurada, Simone enxergava o mundo com clareza. As peças finalmente se encaixavam: o acidente, a traição, as manipulações, os beijos confusos, os abraços reais. Tudo fazia sentido. E com isso veio também a certeza de que não queria mais viver no piloto automático.

Ela havia diminuído o ritmo no trabalho. Aquela Simone obcecada por metas e lucros estava aprendendo a respirar.

Soraya, sempre ao lado, foi seu porto seguro.

Naquela tarde, o sol entrava suave pelas janelas da sala. Simone estava sentada no sofá, com um livro aberto no colo, mas seus olhos encaravam o nada. Lembrava de Janja com carinho, sem culpa. Ainda doía, mas não como antes. Doía como uma lembrança de algo que não pôde ser salvo.

Ouviu a chave girar na porta.

Soraya entrou carregando uma caixa pequena nas mãos, o rosto iluminado por um sorriso que ela não via há tempos.

— Fecha os olhos! — disse animada.

— Soraya… o que você aprontou? — Simone riu, surpresa.

— Fecha, vai! Confia em mim.

Simone fechou os olhos com um sorriso no rosto. Sentiu passos se aproximarem, o som de papel sendo mexido, um miado baixinho.

— Pode abrir agora.

Simone abriu os olhos e encontrou, diante de si, um filhotinho de gato amarelo, com olhos grandes e curiosos, espiando de dentro da caixa. Ele soltou um miado fino, como se estivesse dando "oi".

— Um gato?! — Simone arregalou os olhos.

— É! — Soraya sorriu, colocando a caixinha no sofá ao lado. — Achei ele perto do trabalho. Estava sozinho, tremendo, e me seguiu até o carro. Aí eu pensei… por que não? Acho que a gente precisava de mais amor aqui em casa.

Simone ficou olhando o filhote, o coração aquecido por dentro. Passou a mão delicadamente sobre o pelo macio do animalzinho, que ronronou baixinho.

— Ele é lindo… — murmurou.

— O nome dele é Lasanha — Soraya disse, orgulhosa. — Porque ele é amarelinho… e porque eu tava com fome quando encontrei ele.

Simone soltou uma gargalhada gostosa. Daquelas que vinham da alma.

— Lasanha… sério?

— Ué, melhor que "Tigre" ou "Bolinha", né?

As duas riram juntas. Simone pegou o gatinho no colo e ele imediatamente se aconchegou em seus braços.

— Você sempre sabe o que me faz bem… — Simone disse, olhando para Soraya com ternura.

Soraya se aproximou e sentou ao lado dela, encostando a cabeça em seu ombro.

— Eu só quero te ver feliz. Você passou por tanta coisa, Si… você merece paz.

Simone fechou os olhos por um instante, sentindo o calor do momento. O cheiro de Soraya, o ronronar do gato, a paz dentro do peito.

— Eu sinto falta dela… da Janja. Às vezes, me pego pensando em como tudo podia ter sido diferente. Mas aí eu olho pra você… e lembro do porquê escolhi ficar.

Soraya segurou sua mão com carinho.

— O passado sempre vai existir. Mas ele não pode nos prender.

— Eu sei — Simone sorriu, apertando os dedos de Soraya. — E agora eu só quero seguir. Devagar. Com você. Com o Lasanha. Com tudo que a gente ainda vai construir.

Soraya a beijou na testa, com um carinho profundo.

E ali, no silêncio compartilhado do amor, nasceu um pequeno recomeço.

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora