Silêncio Que Dói

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O relógio marcava quase meia-noite quando Simone finalmente criou coragem de ir até o apartamento de Soraya. Já fazia uma semana que não se viam. Uma semana inteira de mensagens ignoradas, ligações que tocavam até cair na caixa postal, e noites em claro tentando entender o que tinha acontecido entre elas.

Simone subiu as escadas correndo, o coração batendo como um tambor em seu peito. Ela queria acreditar que Soraya tinha uma explicação, que talvez estivesse doente, ocupada, qualquer coisa que justificasse o silêncio.

Ao chegar diante da porta, viu que estava apenas encostada, como se alguém tivesse saído apressadamente ou esquecido de trancar. Um frio percorreu sua espinha.

— Soraya? — chamou com a voz trêmula.

Não houve resposta. Só um som abafado, misturado a risadas e gemidos, que fez seu estômago revirar.

Com a mão trêmula, empurrou a porta devagar. A cena diante de seus olhos a atingiu como uma facada no peito.

Soraya estava ali, no sofá da sala, semi-nua, entrelaçada com César. O mesmo César que sempre dizia ser apenas "um amigo". A música alta, as garrafas espalhadas pelo chão, o cheiro forte de álcool e suor... tudo era um quadro que Simone jamais conseguiria esquecer.

Ela ficou paralisada. Não conseguia se mover, nem respirar direito. Só conseguia olhar.

Soraya percebeu a presença dela no mesmo instante. Seus olhos, vermelhos de chorar ou de bebida, se arregalaram de pânico.

— Simone... — sussurrou, empurrando César para longe e tentando se recompor. — Espera... eu posso explicar!

César, com um sorriso idiota no rosto, puxou as calças de volta como se não tivesse a menor vergonha.

— Foi um erro! — gritou Soraya, tropeçando nos próprios pés enquanto tentava alcançar Simone. — Por favor, me escuta!

Simone deu um passo para trás, a garganta ardendo, o peito sufocado. Uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. Ela abriu a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.

— Eu te amo, Simone! — Soraya implorou, a voz embargada, desesperada. — Não vai embora... não assim!

Mas Simone já havia virado as costas.
Caminhou em passos firmes, como se estivesse sendo carregada pela dor. O som dos soluços de Soraya ficou para trás, misturado ao barulho da porta se fechando com um estrondo.

Lá fora, o vento frio cortou seu rosto molhado pelas lágrimas. Ela andava sem rumo pelas ruas desertas, a mente entorpecida.
Cada memória com Soraya agora parecia um espinho cravado em sua pele. As risadas, os planos, as promessas... tudo desmoronando de uma vez.

Simone queria odiá-la. Queria esquecer. Mas, acima de tudo, só conseguia sentir um vazio esmagador no peito.
Um silêncio ensurdecedor que doía mais do que qualquer grito.

Ela caminhou até não aguentar mais e caiu sentada em uma calçada qualquer, abraçando os joelhos, deixando o choro finalmente escapar em soluços baixos e doloridos.

A noite parecia interminável.
E dentro dela, Simone soube:
Nada seria como antes.






Gente tem calma, a história precisa ter um pouquinho de decepção né

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