O dia havia sido lindo. A tarde ao lado de Soraya despertou algo diferente em Simone, algo quente, suave, acolhedor. Enquanto observava os olhos castanhos profundos da esposa, o modo como o cabelo ondulado dançava com a brisa, ela se deu conta: estava se apaixonando por ela de novo. Ou talvez estivesse apenas reconhecendo, no presente, um amor que sempre existiu, mas que sua mente ainda tentava resgatar das sombras do esquecimento.
Mesmo com Soraya lhe dizendo todos os dias que já estavam casadas há anos, Simone ainda se sentia uma visitante na própria vida. Tudo parecia novo — os toques, os cheiros, os detalhes daquela casa que deveria ser familiar. Era confuso. Às vezes, ficava olhando para a aliança no dedo como se fosse uma peça emprestada. Ainda assim, sentia paz ao lado de Soraya. Um tipo de tranquilidade que nenhuma lembrança perdida conseguia roubar.
Mas algo também lhe inquietava. Por que, depois de tantos anos de casamento, não tinham tido um filho? A pergunta surgia com frequência, como uma ponta solta que seu cérebro insistia em puxar. Talvez não fosse a hora certa. Talvez houvesse um motivo que ela ainda não lembrava. Por enquanto, tudo que Simone queria era recuperar sua memória e voltar a viver em paz — ou, quem sabe, aprender a viver de novo com aquilo que o coração reconhecia, mesmo que a mente não lembrasse.
Afundada na água morna da banheira, com os olhos semicerrados e os cabelos presos, Simone deixou os pensamentos vagarem. A espuma cobria parte do corpo, mas sua mente estava exposta, crua. E lá, como uma sombra sutil que sempre surgia nos momentos de calmaria, Janja aparecia. Seu sorriso. A forma como a fazia rir. Os dias em que a acolheu, quando tudo parecia ruir.
"Janja sempre esteve comigo", murmurou baixinho, como se falasse para a água.
Pensar nela não causava dor — ao contrário, havia um tipo de segurança que Soraya não fazia parte. Janja vinha de um mundo que Soraya não conhecia. Era como uma ponte entre o que Simone era e o que estava tentando reconstruir. Por mais que Soraya não gostasse, ela ainda desejava uma viagem onde Janja pudesse ir junto. Talvez, assim, algo dentro dela se completasse.
Simone se assustou com a campainha tocando. Enrolou uma toalha no corpo e caminhou descalça até a sala. Quando abriu a porta, viu aquele rosto tão familiar que o coração acelerou.
— Janja?
— Oi, minha estrela perdida — disse Janja com um sorriso encantador e uma expressão que mesclava saudade e provocação. — Ainda vai me deixar esperando do lado de fora?
Simone sorriu de lado e abriu espaço para ela entrar. Janja, como sempre, vestia algo estiloso, um casaco largo por cima de um vestido justo, botas de salto e os cabelos loiros presos em um coque displicente.
— Vim te tirar do tédio. Faz tempo que a gente não sai pra dançar. Lembra das nossas festas? Das luzes? Dos sorrisos que só a gente entendia?
— Eu… não sei se Soraya vai gostar. — Simone hesitou, puxando a toalha com mais firmeza.
— Ah, Simone — Janja se aproximou, tocando de leve no braço dela —, você não precisa pedir permissão pra sentir. Pra viver. E eu sinto que você precisa dançar hoje. Não por mim. Por você.
Simone ficou em silêncio por alguns segundos. Dentro dela, duas vontades batiam como ondas contrárias: a de agradar Soraya e manter a paz daquela relação em reconstrução, e a de seguir a intuição que Janja sempre despertava — livre, intensa, destemida.
— Uma noite só — disse por fim. — Só pra espairecer.
— É disso que eu tô falando! — Janja abriu um sorriso e já foi puxando Simone para o quarto. — Vai se arrumar. Quero você brilhando como sempre.
Enquanto escolhia a roupa no armário, Simone sentia um frio no estômago. Não sabia se era ansiedade ou culpa. Mas sabia que, ao lado de Janja, tudo ganhava cor, ainda que as cores fossem perigosas.
Ela só não imaginava o quanto aquela noite mudaria o rumo daquilo que ela pensava estar reconstruindo com Soraya.
Poxa sisa não vacila! Divas vão ler minha outra história não exclui ela não 👍🏼 deixe estrelas
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Amnésia
Fiksi PenggemarSimone sofre um acidente voltando do trabalho e perde a memória. Soraya, frustrada e cansada, tem que lidar com a amnésia da esposa e os conflitos não resolvidos do casamento.
