Esperança

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Já eram 8:30 da manhã e Simone continuava deitada na cama, o corpo coberto até os ombros, os olhos abertos mas fixos no teto. A brisa da manhã entrava pela janela entreaberta, balançando levemente as cortinas claras. O cheiro de maresia ainda estava em sua pele — lembrança da noite anterior com Janja.

Sua mente vagava.


“Você ainda sente por mim, não sente?” — ecoava a voz de Janja em sua cabeça.
“A gente se entende como ninguém, Si…”

O celular vibrava ao lado da cama, lotado de notificações. Mensagens de Janja:
“Um bom dia, princesa. Dormiu bem?”
“Pensei em você a manhã toda.”
“Te deixei um presentinho na porta.”

Mas nenhuma notificação de Soraya.

Com um leve suspiro, Simone deslizou os dedos pelo celular e digitou:

"Bom dia Soraya, como está?"

A resposta veio quase imediata, como se Soraya estivesse esperando:

"Bom dia sisa, eu não estou muito bem."

"O que aconteceu, pode me explicar?"

"Não foi nada, só acordei com dor de cabeça."

"Eu espero que fique bem."

"Obrigada. Como foi a praia ontem?"

Simone hesitou. O coração acelerou.

"Foi divertido."

"Que bom, aposto que Janja te fez feliz."

Toque seco. Aquilo bateu fundo.

Simone respirou fundo, o polegar pairando sobre a tela antes de digitar:

"Soraya, eu tenho uma consulta. Quer ir comigo?"

"Claro. Que horas são?"

"Às 10:00. Vem pra minha casa, minha mãe não confia em mim dirigindo 100%."

"Claro, amorzinho. Eu estou indo."

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NA CLÍNICA MÉDICA

O carro seguia pelas ruas tranquilas da cidade. Soraya dirigia em silêncio, os dedos firmes no volante, enquanto Simone observava a paisagem com um olhar distante. O rádio tocava baixinho uma música antiga, daquelas que Soraya costumava cantar para Simone quando ela ainda estava se recuperando do acidente.

Na recepção da clínica, Simone preencheu os dados no formulário. Soraya segurava sua bolsa e observava-a com olhos protetores, mas machucados.

Logo foram chamadas para o consultório. O médico, um homem de meia-idade com sorriso gentil, analisou os exames mais recentes de Simone. Ele folheava os papéis com cuidado.

— Bem, Simone… — começou ele. — Com base nos últimos resultados, vamos mudar o seu medicamento. A resposta do seu cérebro está muito mais ativa agora.

— Isso é bom? — perguntou Simone, ansiosa.

— É excelente. A nova medicação vai ajudar ainda mais na reconexão das suas memórias. Se o ambiente ao seu redor continuar estimulando você de forma positiva, em questão de alguns meses, você poderá recuperar quase tudo.

Simone abriu um sorriso largo, os olhos marejando. Ela olhou para Soraya, que também sorria, embora com um olhar misto de alegria e saudade.

— Eu vou lembrar de tudo? — Simone perguntou, quase como uma criança perguntando se o pai vai voltar.

— Há grandes chances — respondeu o médico. — Você já vem demonstrando avanços incríveis. E parte disso vem do apoio que tem recebido. Continue assim. Sua recuperação está a caminho.

Ao saírem do consultório, o sol tocava o rosto de Simone como se também comemorasse com ela.

— Você ouviu isso, Sô? — disse Simone, empolgada, pegando na mão de Soraya. — Em alguns meses... tudo pode voltar!

Soraya sorriu, apertando a mão de Simone com ternura.

— Eu nunca perdi a esperança, Si. Você é forte. Eu sempre soube.

As duas seguiram de mãos dadas até o carro. No trajeto de volta, o silêncio era confortável, cheio de promessas não ditas. Mas no celular de Simone, uma nova mensagem apareceu:
“A noite passada foi só o começo.” — Janja.

Simone olhou para a tela, depois para o céu pela janela. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que tinha o poder da escolha de volta. E, talvez, logo, lembraria de quem sempre esteve lá — mesmo quando ela esqueceu.







Tudo pode mudar não pode?

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora